O dólar disparou ante o real nesta quarta-feira e atingiu a maior cotação de fechamento da história no segmento à vista, com o mercado reagindo negativamente à expectativa de que entre as medidas do pacote fiscal do governo Lula estará a isenção de Imposto de Renda para quem ganha até 5 mil reais por mês.
O dólar à vista fechou o dia com alta de 1,80%, aos 5,9141 reais. Esta é a maior cotação nominal de fechamento desde que o real começou a circular, em julho de 1994.
Após as 17h, quando ocorre o fechamento do dólar à vista, a moeda norte-americana para dezembro negociada na B3 -- atualmente a mais líquida no Brasil e, na prática, a que serve como principal referência para os negócios -- seguiu acelerando até 18h30, quando encerrou aos 5,9595 reais, em alta de 2,53%.
Assim, a pressão de alta para o dólar seguiu até o fim das negociações na B3, com os preços traduzindo o pessimismo em relação ao pacote a ser anunciado pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, na noite desta quarta-feira.
Com o mercado futuro já fechado, o Ministério da Fazenda soltou uma nota afirmando que não procedia informação, publicada mais cedo na imprensa, de que Haddad estaria tentando adiar o anúncio da isenção do IR -- justamente o fator que mexeu com os mercados nesta quarta-feira.
A isenção -- que impactaria a arrecadação -- vem na contramão da expectativa do mercado, que esperava ações do governo para cortar despesas.
Neste cenário, a cotação de fechamento desta quarta-feira do dólar à vista, de 5,9141 reais, superou os 5,9012 reais de 13 de maio de 2020 -- no auge da pandemia de Covid-19 --, até então o maior valor na história.
Com o movimento desta quarta, o dólar à vista acumula alta de 21,9% ante o real em 2024.
A moeda norte-americana se manteve pressionada durante todo o dia, com investidores à espera do pacote de medidas de contenção de gastos a ser anunciado pelo governo.
No início da tarde, a notícia de que uma das medidas do pacote será a isenção de IR piorou o cenário e fez o dólar disparar ante o real.
Noticiada pela imprensa com informações atribuídas a fontes anônimas, a isenção de IR foi posteriormente confirmada pelo ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho. Em entrevista coletiva para comentar dados de emprego, ele afirmou que o pacote incluirá a isenção de IR e também tratará da taxação de super-ricos e dos supersalários.
Suas declarações foram dadas antes de pronunciamento sobre o pacote do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, marcado para 20h30 desta quarta-feira em rede nacional, e antes mesmo de reunião do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e Haddad com os presidentes do Senado, Rodrigo Pacheco, e da Câmara, Arthur Lira, para apresentação das medidas, marcada para esta tarde.
Até então a expectativa predominante era de que o pacote se concentraria em medidas de contenção de despesas, conforme informado anteriormente pela equipe econômica. Assim, a possibilidade de medida de isenção de IR -- que a princípio reduz a arrecadação -- foi imediatamente interpretada por parte do mercado como uma insensatez do governo.
"O mercado já estava bem ansioso com a questão do pacote. Finalmente parece que vai ser anunciado hoje, o que seria uma notícia positiva, mas veio (com a notícia de) que vai incluir a isenção. O mercado está reagindo muito mal", disse durante a tarde Daniel Leal, estrategista de renda fixa da BGC Liquidez.
Na esteira das notícias, o dólar atingiu o pico de 5,9310 reais (+2,09%) às 15h54, em um momento em que as taxas dos DIs (Depósitos Interfinanceiros) também disparavam e o Ibovespa despencava.
"O mercado esperava algo mais concreto, relevante, para impactar no corte de gastos. É o que todo mundo anseia: que o governo contenha a torneira de gastos", afirmou Lucélia Freitas, especialista em câmbio da Manchester Investimentos. "Mas o anúncio (sobre o IR) veio na contramão", acrescentou, ao justificar a disparada do dólar para perto dos 5,90 reais.
O movimento do dólar estava na contramão do exterior, onde a moeda norte-americana tinha perdas fortes ante suas divisas pares. O índice do dólar -- que mede o desempenho da moeda norte-americana frente a uma cesta de seis divisas -- caía 0,75%, a 106,040.