Galípolo diz que BC não tem 'bala de prata' para tornar política monetária mais efetiva

Para presidente do Banco Central, 'é óbvio que é desejável' normalização da política monetária para redução do nível de juros, mas cenário depende de 'série de reformas contínuas'

22 abr 2025 - 12h27

BRASÍLIA - O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, disse nesta terça-feira, 22, que, em reuniões no exterior, é comum haver questionamentos sobre como o Brasil tem juros altos e uma economia dinâmica, o que indica que os mecanismos de transmissão da política monetária aqui são menos fluidos.

Uma normalização da política monetária, para aumentar sua efetividade, demandará reformas contínuas, porque não existe uma "bala de prata" para solucionar o problema. Galípolo participa de uma audiência pública da Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado Federal nesta terça-feira.

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Ele disse que o questionamento que surge não é simplesmente sobre o patamar dos juros, mas como a economia se mantém dinâmica, tendo inclusive desemprego baixo e maior nível de renda das famílias.

"Talvez, os mecanismos de transmissão da política monetária no Brasil não apresentem a mesma fluidez que a gente consegue observar em outros países. Talvez existam alguns canais entupidos de política monetária, o que acaba demandando com que as doses do remédio sejam mais elevadas para que você consiga atingir o mesmo efeito", disse.

Segundo Galípolo, inflação do Brasil está acima da meta de 3% e 'bastante disseminada'
Segundo Galípolo, inflação do Brasil está acima da meta de 3% e 'bastante disseminada'
Foto: Wilton Junior/Estadão / Estadão

O presidente do BC avalia que "é óbvio que é desejável" uma normalização da política monetária para redução do nível de juros, a um patamar mais semelhante ao dos pares, mas de maneira que a potência da política monetária seja aumentada.

"A normalização da política monetária vai demandar uma série de reformas contínuas, muitas vezes reformas que não estão simplesmente dentro da alçada do Banco Central e que não vamos ter uma bala de prata disponível, vai demandar bastante debate com a sociedade, discussão, para que a gente possa conquistar isso", disse.

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Inflação disseminada

O presidente do BC disse que a inflação do Brasil está acima da meta de 3% e bastante disseminada, não sendo pressionada por alguma razão pontual. "Quando olhamos para o IPCA para os segmentos mais voláteis, administrados ou alimentação domicílio, conseguimos enxergar uma inflação que está bastante acima da meta, fora inclusive da banda superior da meta, disseminada por diversos produtos, sejam bens industriais, sejam serviços, seja através do IPCA ou administrados ou alimentação a domicílio", afirmou.

"As expectativas de inflação passam, então, a sofrer uma desancoragem, isso é um elemento muito importante na gestão da política monetária, o manejo das expectativas de inflação", alertou.

Galípolo disse que Bancos Centrais emergentes frequentemente precisam deixar os juros mais altos, de forma a aumentar os prêmios e atrair investimentos ? e, desta forma, evitar uma desvalorização das suas divisas. É por causa deste processo, explicou, que se tornou menos atrativo apostar contra o real no fim de 2024, dado o processo de elevação da Selic.

"Muitas vezes você vê autoridades monetárias de países emergentes, mesmo num momento de desaceleração econômica, tendo de manter a taxa de juros mais elevada para oferecer um prêmio maior para quem decidir investir no país e aí conter um processo de desvalorização da sua própria moeda", disse.

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Na sua apresentação no Senado, o banqueiro central destacou que, para países emergentes, movimentos do cenário internacional ? como as decisões de política monetária dos Estados Unidos ? têm impacto.

Na sequência, ele afirmou que o carry trade da moeda brasileira, por exemplo, se tornou vantajoso em relação ao peso mexicano no fim de 2024, quando a autoridade monetária aumentou a Selic em 1 ponto porcentual e sinalizou mais duas altas da mesma magnitude, em janeiro e março.

"O processo que foi feito no final do ano, de elevação da taxa de juros, direcionou para que você pudesse ultrapassar o prêmio para quem estava apostando, por exemplo, em moeda mexicana e tornar menos atrativo apostar contra a moeda brasileira", disse.

Galípolo destacou que o valor do real é importante para a inflação brasileira, chamando atenção para o fato de que 60% a 70% da produção de alimentos do País tem ao menos alguma correlação com o preço do dólar.

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O presidente do BC ainda repetiu que a meta de inflação é definida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), e que cabe à autoridade monetária definir os juros de forma a cumprir o alvo.

Segundo ele, a autoridade monetária está tentando chegar a um nível em que o juro esteja restritivo, mas com alguma segurança. "O Banco Central, quanto mais ele conseguir ser objetivo, transparente, técnico nas suas decisões, melhor para a estabilidade monetária do país. Mas, neste processo de você analisar razões para você ter um aperto do ponto de vista da política monetária, quando você vai somando todos esses indicadores que mostram que a atividade econômica está, olhando para a série histórica, em patamares bastante acelerados, foi isso que levou o Banco Central a migrar para um patamar de taxa de juros que possa estar restritivo com alguma segurança", disse.

Questionado sobre a taxa de juros do Brasil estar em nível elevado, Galípolo ponderou que, no atual momento, em que é preciso frear a economia, a taxa de juros precisa estar acima do nível neutro. "O que o Banco Central está fazendo é migrar para um patamar que ele tenha alguma segurança de que está em um patamar restritivo, e a gente está tateando agora nesse ajuste, se a gente está num patamar restritivo suficiente, ou qual é esse patamar restritivo suficiente, ao longo desse ciclo de alta que nós ainda estamos fazendo", reiterou.

Política anticíclica

O presidente do Banco Central disse que, em virtude do cenário de aquecimento da economia brasileira com inflação alta, cabe à autoridade monetária exercer seu papel de fazer a política anticíclica.

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Galípolo destacou que o Brasil cresceu pelo quarto ano seguido acima do que modelos indicam ser o PIB potencial e que esse crescimento está bastante disseminado em diversos setores da economia. Ele destacou alguns indicadores, como o desemprego na mínima histórica e com queda acentuada, e o aumento do crédito bancário. Ele disse que o crédito, ao redor de 55% do PIB, está num dos maiores patamares da série histórica.

Diante desse cenário da economia brasileira mostrando "dinamismo excepcional" e bastante aquecida, Galípolo disse que cabe ao BC ser o "chato da festa".

"A vida do banqueiro central sempre é uma vida de estar meio no contrapé, porque o que o Banco Central tem de fazer, se conseguir fazer bem feito, é estar numa política anticíclica ou contracíclica. Eu usei já a metáfora do chato da festa algumas vezes, mas não é o chato da festa quem tem algum tipo de satisfação em ser chato, e simplesmente porque o seu papel é, quando a economia está aquecida, tentar fazer uma política anticíclica", disse.

Ele frisou que o aquecimento da economia pode gerar pressões inflacionárias, que indicam a necessidade de freá-la. "Você deveria tentar segurar a economia, refrear um pouquinho a economia para que essa pressão inflacionária não virasse uma espiral e, a partir daí, não se perdesse o controle da estabilidade monetária", disse.

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Cenário internacional

Galípolo disse que o cenário internacional tem sido o principal vetor para determinar os preços de mercado e que atualmente se está em uma nova fase que é a leitura do mercado sobre o governo de Donald Trump.

Ele frisou que a leitura que ele faz é a de como o mercado entende o governo, e que essa interpretação do governo Trump se deu em três etapas. Na primeira, correspondente ao último trimestre de 2024, havia uma leitura de que a nova gestão do republicano seria mais pró-mercado, com redução de impostos e regulamentação sobre empresas. Já no primeiro trimestre de 2025, a interpretação de que o impacto das mudanças tarifárias poderia desacelerar a economia americana e, por consequência, a economia global, foi ganhando força.

O presidente do BC explicou que essa corrente estendeu o entendimento para a possibilidade de desaceleração das tarifas, num cenário de muita incerteza sobre o que vai ocorrer, em virtude das idas e vindas das decisões do governo americano e seus desdobramentos.

"Você tem dúvidas sobre o que vai ocorrer e quais são os efeitos sobre aquilo que vai ocorrer. Esse cenário foi ganhando força ao longo desse primeiro trimestre, o que sinalizou já uma ideia de um dólar mais fraco e uma atividade econômica mais fraca nos Estados Unidos", disse.

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No atual momento, Galípolo pondera que impera a interpretação que oscila entre a desaceleração em função da incerteza e um cenário de possível aversão ao risco, indicando uma escalada na disputa tarifária com consequências mais abruptas.

"Num cenário como esse, é comum que os investidores busquem se proteger com ativos mais líquidos e ativos que ofereçam menos risco. O que costuma já ser absolutamente desafiador para economias emergentes, quando isso acontece, não é positivo do ponto de vista da dinâmica econômica. Porém agora está num cenário ainda mais complexo, porque nós estamos falando de um cenário de aversão a risco, onde aquilo que é conhecido como o ativo de última instância, ou o ativo mais seguro da economia, está sendo um pouco questionado. Ou seja, historicamente, quando você tem um cenário de aversão de risco, o que você costuma fazer é correr para o dólar, ou correr para títulos soberanos norte-americanos", explicou.

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