Deputados de oposição querem convocar Lewandowski para explicações sobre encontros com ONG do PCC

Dupla de deputados do Novo quer ministro no plenário da Câmara para dar explicações sobre interação da pasta com ONG alvo de operação Fake Scream, da Polícia Civil de São Paulo. Reuniões foram reveladas pelo Estadão

23 jan 2025 - 09h40

BRASÍLIA - Deputados do partido Novo querem convocar o ministro da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Lewandowski, para dar explicações sobre a ONG "Pacto Social & Carcerário de S.P". A entidade é acusada pela Polícia Civil de São Paulo (PCSP) e pelo Ministério Público do Estado de ligação com a facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC).

Como mostrou o Estadão, dirigentes da entidade participaram de reuniões com os ministérios da Justiça e dos Direitos Humanos no governo Lula (PT), além do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

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Os ministérios confirmaram as reuniões. A ONG Pacto Social & Carcerário foi chamada para tratar de um plano para mitigar as más condições das prisões brasileiras, e também para apresentar reclamações sobre as más condições de alimentação na prisão federal da Papuda, em Brasília. Já o CNJ disse que o evento do qual a ONG participou foi aberto a "qualquer cidadão". O ministro Ricardo Lewandowski não participou de reuniões com a ONG.

O requerimento de convocação de Ricardo Lewandowski foi encabeçado pela deputada Adriana Ventura (Novo-SP) e assinado também pelo deputado Marcel Van Hattem (Novo-RS). Para que o ministro seja efetivamente convocado, o requerimento precisa ser votado e aprovado em plenário por maioria simples - metade dos votos mais um dos presentes. Geralmente, o governo trabalha para que essas convocações sejam transformadas em convites.

A presidente da ONG, Luciene Neves; o marido dela, Geraldo Salles, e mais 10 pessoas foram alvo de mandados de prisão na operação Fake Scream. Para a polícia, os dois passaram a integrar a facção criminosa. "Infere-se que Geraldo e Luciene, desde 2019, de forma contínua, estável e ininterrupta, passaram a integrar a organização criminosa armada, autodenominada Primeiro Comando da Capital - 'PCC', com a atuação transnacional, que tem como finalidade a prática de crimes", diz um trecho do relatório da Polícia Civil.

"Vale ressaltar que se trata de uma prática reincidente no Ministério da Justiça que, em 2023, recebeu uma Advogada e a esposa de um dos líderes do Comando Vermelho no Amazonas, que também chefiava ONG responsável pela defesa de interesses da facção criminosa, cena que agora se repete com o tapete vermelho estendido a pessoas ligadas ao PCC", diz um trecho do requerimento de convocação apresentado pela oposição.

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A última atividade de Luciene com o MJ foi em 16 de dezembro passado. Ela participou da audiência pública "DICAP em Rede: Participação Social e Enfrentamento ao Estado de Coisas Inconstitucional nas Prisões Brasileiras". No evento, a Secretaria Nacional de Políticas Penitenciárias (Senappen) do MJ apresentou a várias ONGs o Plano Pena Justa. Trata-se de uma diretriz elaborada por determinação do Supremo Tribunal Federal para enfrentar a "grave violação de direitos fundamentais" nas prisões brasileiras. O MJ pagou R$ 1.827,93 pelas passagens de ida e volta de Luciene de São Paulo (SP) para Brasília.

No dia 30 de abril passado, Luciene participou de uma outra audiência pública para tratar do Pena Justa - dessa vez, promovida pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), órgão de supervisão do Poder Judiciário, com o MJ. Ela estava acompanhada da advogada criminalista Janira Rocha, que foi responsável por abrir as portas do Ministério da Justiça para a ex-ongueira Luciane Barbosa Farias. Como mostrou o Estadão, Janira recebeu R$ 23.654,00 do Comando Vermelho dias antes das reuniões com Luciane no MJ.

A primeira reunião de Luciene no MJ foi na tarde de 13 de novembro de 2023, ainda na gestão do ex-ministro da Justiça Flávio Dino, hoje no Supremo Tribunal Federal (STF). O encontro foi online, segundo o Ministério da Justiça. Participaram o ex-titular da Secretaria Nacional de Políticas Penais (Senappen), Rafael Velasco Brandani; e a diretora da Senappen Mayesse Silva Parizi, que segue trabalhando no MJ. Segundo a pasta, a reunião tratou de "sistema carcerário, educação e trabalho".

A conversa com o Ministério dos Direitos Humanos também foi virtual, na manhã de 24 de julho de 2024. Luciene representou a Associação Nacional de Familiares de Presos (Anfap) no encontro com Rose Mary Cândido Plans, atual coordenadora-geral de combate à tortura do Ministério. "Na ocasião, os participantes trataram especificamente sobre as condições da alimentação de pessoas privadas de liberdade na Penitenciária Federal de Brasília - Papuda", disse o MDH. Plans é assistente social e trabalhou durante décadas em ONGs de assistência a presos.

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