Em questão de horas, golpistas que comemoraram a invasão de prédios públicos em Brasília, neste domingo (8), mudaram de opinião e começaram a atribuir os atos de violência e depredação a "infiltrados" de esquerda, sem provas. A tática já havia sido usada em dezembro, quando bolsonaristas tentaram invadir a sede da PF (Polícia Federal) após a diplomação do presidente Lula (PT).
O Aos Fatos identificou ao menos 22 perfis nas principais redes sociais que comemoraram a desordem instaurada em Brasília no meio da tarde e, pouco tempo depois, passaram a denunciar a presença de supostos infiltrados que estariam no local para incitar a violência.
No Twitter, por exemplo, uma usuária comentou em um vídeo de manifestantes sentados no Congresso Nacional que a "festa da Selma" — nome dado por alguns dos extremistas à invasão — estaria sendo um sucesso. Horas depois, no entanto, usou uma imagem de um manifestante que havia roubado a bandeira de um gabinete do PT como uma falsa prova de que a invasão e o quebra-quebra foram planejados por petistas (veja abaixo).
Na mesma rede, outro usuário que exaltou a depredação da escultura A Justiça, de Alfredo Ceschiatti, instalada em frente ao prédio do STF (Supremo Tribunal Federal), mudou de ideia pouco mais de duas horas depois e passou a imputar a culpa das manifestações aos "comuna". "Vamos ter que criar uma série: os infiltrados", afirmou no post (veja abaixo).
Além dos perfis identificados pelo Aos Fatos, usuários criaram teorias e falsas evidências para jogar a responsabilidade pelos atos terroristas na esquerda. Desde o final da tarde de domingo até a manhã desta segunda-feira (9), publicações com esse teor acumulavam cerca de um milhão de visualizações no TikTok e no Kwai e milhares de compartilhamentos no Facebook e no Twitter. Veja alguns exemplos:
- Em uma foto, um homem é apontado como infiltrado por usar uma máscara de caveira. "Patriota não usa isso", diz o post;
- Publicações alegam que manifestantes eram infiltrados por não estarem de verde e amarelo e por esconderem o rosto;
- Apesar de vestir amarelo, um homem mostrado em um vídeo foi apontado como infiltrado por estar quebrando uma vidraça, apesar de supostos pedidos contrários de outros participantes;
- Mesmo que se diga bolsonarista e afirme durante a gravação estar acampado diante do quartel, um homem detido pela Força Nacional foi apontado em posts como petista por usar uma mochila vermelha;
- Em um vídeo viral no TikTok, um homem e uma mulher levados à delegacia são identificados, sem provas, como integrante do MST (Movimento dos Trabalhadores sem Terra);
- Em uma galeria de fotos de supostos infiltrados, uma seta aponta para um homem negro vestido de verde e amarelo.
Colaborou Amanda Ribeiro