Além de fatores genéticos, hereditários, químicos e ambientais, as alterações hormonais também estão associadas à doença mental
Um estudo realizado pelo Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) analisou a relação entre os fatores de risco para a depressão e os desajustes hormonais e metabólicos, que atuam diretamente na modulação do humor feminino. A pesquisa comprovou que, quando os níveis hormonais estão em desequilíbrio, há uma disfunção estrutural nas reações fisiológicas, desencadeando sintomas típicos da depressão, como mudanças de humor, fadiga, distúrbios do sono, baixa libido, falta de motivação, entre outros.
"O grande problema é que nem sempre os níveis hormonais da mulher passam por avaliações. O médico receita psicofármacos sem considerar que estes sintomas também podem ser decorrentes de disfunções hormonais. Ou seja, as medicações podem atenuar o quadro depressivo, mas o tratamento será comprometido, caso a raiz do problema seja hormonal", afirma a psiquiatra Danielle Admoni.
Alterações hormonais que comprometem a saúde mental
O sistema endócrino é formado por glândulas que produzem e secretam hormônios, substâncias químicas responsáveis por regular diversos processos no organismo, que vão desde a fome até a libido. "Quando há desregulação na produção dos hormônios, a exemplo do envelhecimento ou da menopausa, fases em que o corpo passa a produzir menos hormônios, começam a aparecer os problemas emocionais", afirma Claudia Chang, membro da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM).
Veja quais os hormônios que podem causar sintomas de transtornos depressivos quando estão desequilibrados:
Tireoide
A tireoide é uma glândula situada na parte anterior de nosso pescoço, responsável pela produção dos hormônios T3 (triiodotironina) e T4 (tiroxina). Além de controlar o metabolismo, produz uma série de neurotransmissores, como dopamina, serotonina e GABA (ácido gama-aminobutírico), todos envolvidos na regulação do humor. A disfunção tireoidiana faz com que a glândula produz menos hormônio (hipotireoidismo) ou mais hormônio (hipertireoidismo).
No caso do hipotireoidismo, a baixa produção hormonal gera sintomas como cansaço, sonolência, ganho de peso e falta de ânimo. Já o aumento da produção dos hormônios no hipertireoidismo causa aceleração dos batimentos cardíacos, perda de peso, ansiedade e insônia. "Nas duas condições, há também quadros de irritabilidade, mudanças repentinas de humor e fadiga crônica", diz Claudia Chang.
De acordo com a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, a disfunção tireoidiana está diretamente ligada a um terço de todas as depressões. Sendo o hipotireoidismo a causa mais comum da doença, atingindo cerca de 50% das mulheres.
Estrogênio/Estradiol
O estrógeno é secretado principalmente nos ovários, mas também é produzido em outras partes do corpo, como nas glândulas adrenais. Já o estradiol é produzido nas células dos tecidos ovarianos por ação de outro hormônio, o folículo estimulante (FSH). O estradiol é a principal forma de estrogênio presente nos anos reprodutivos da mulher. Segundo um estudo publicado na revista Menopause, da Sociedade da Menopausa da América do Norte (NAMS), estes hormônios reprodutivos desempenham um papel importante no risco de depressão entre as mulheres. Principalmente na menopausa, quando os níveis hormonais diminuem.
Os fatores psicológicos e fisiológicos mais relacionados com a menopausa incluem nervosismo, insônia, irritabilidade e alterações de humor. Além disso, destaca-se a labilidade emocional, os problemas de memória, as ondas de calor, a diminuição da libido e a predisposição ao estresse. Ademais, segundo o ginecologista Carlos Moraes, quando a perimenopausa — fase caracterizada por maiores alterações hormonais — se estende além do período considerado normal, a vulnerabilidade da mulher tende a aumentar, o que, por sua vez, eleva o risco de desenvolver depressão. Por outro lado, em mulheres que já enfrentaram episódios depressivos, o transtorno pode retornar, agravando ainda mais a situação.
Cortisol
Conhecido como o hormônio do "estresse" ou da "luta ou fuga", o cortisol é um esteroide produzido pelo córtex adrenal, localizado na glândula adrenal, que por sua vez está situada na parte superior dos rins. Sua liberação ocorre, sobretudo, em resposta a situações de estresse e também quando há uma baixa concentração de glicose no sangue. Por outro lado, em níveis normais, o cortisol é essencial para promover a sensação de bem-estar, desempenhando um papel fundamental como regulador do sono. No entanto, quando seus níveis estão desequilibrados, o cortisol pode gerar uma série de consequências, como cansaço, fraqueza, dificuldades de raciocínio e aprendizagem, compulsões alimentares, diminuição da imunidade e, além disso, pode sinalizar doenças como a depressão.
"Normalmente, quem apresenta altas concentrações de cortisol tende a desenvolver quadros de transtornos depressivos. Por outro lado, a hipoatividade do cortisol pode desencadear tanto uma depressão moderada quanto uma crônica", explica a psiquiatra Danielle Admoni. Ainda de acordo com ela, em mulheres que já convivem com a depressão, o cortisol frequentemente atinge o pico no início da manhã. E, diferentemente do padrão esperado, não reduz ao longo do dia.