Exame de sangue pode antecipar diagnóstico e melhorar prognóstico de câncer

Exame de sangue PAC-MANN pode detectar precocemente o tipo mais comum e letal do câncer de pâncreas

7 mar 2025 - 06h24
Resumo
Câncer de pâncreas é uma das formas mais letais da doença no Brasil, devido ao difícil diagnóstico. Novo exame de sangue pode contribuir para a detecção precoce e melhoria dos índices de sobrevivência.
Foto: Reprodução

Ocupando a sétima posição, o câncer de pâncreas figura entre os mais letais no Brasil, segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), o que se deve, principalmente, ao seu difícil diagnóstico. “O câncer de pâncreas tem um comportamento muito agressivo e, frequentemente, só é diagnosticado em estágios avançados, quando as opções de tratamentos são limitadas. E o tipo mais letal da condição, chamado adenocarcinoma ductal pancreático (PDAC), também é o mais comum, correspondendo a 90% dos casos diagnosticados”, detalha Ramon Andrade de Mello, médico oncologista de São Paulo, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Cancerologia, Pós-Doutor clínico no Royal Marsden NHS Foundation Trust (Inglaterra) e pesquisador honorário da Universidade de Oxford (Inglaterra). 

Para preencher a lacuna do difícil diagnóstico, pesquisadores desenvolveram um exame de sangue que pode ajudar na detecção precoce desse tipo de câncer, melhorando, assim, os índices de sobrevivência. A descoberta foi publicada em fevereiro no periódico Science Translational Medicine.

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O exame apresentado no estudo, chamado PAC-MANN (sigla em inglês para análise baseada na atividade da protease utilizando um nanosensor magnético), utiliza uma pequena amostra de sangue para detectar alterações na atividade da protease, um indicador-chave do adenocarcinoma ductal pancreático (PDAC). 

“Esse tipo de câncer se origina nas células dos ductos pancreáticos e o grande problema é que, em muitos casos, só conseguimos identificá-lo quando já é muito tarde. Isso porque os testes disponíveis atualmente, como o do marcador tumoral CA 19-9, não são sensíveis o suficiente para detectar a doença precocemente, apesar de serem bons indicadores do prognóstico”, diz Ramon. 

Esse novo exame, então, ajuda a identificar o PDAC mais precocemente. O teste foi criado a partir de amostras de sangue de 350 pacientes que tinham câncer de pâncreas, apresentavam fatores de risco para a doença ou foram usados como controle. Nessas amostras, os pesquisadores identificaram proteínas, especialmente proteases, que eram mais ativas em pessoas com PDAC e, então, criaram um exame específico para detectá-las. 

Em testes, o exame PAC-MANN foi capaz de distinguir pacientes saudáveis, com câncer de pâncreas e com problemas pancreáticos não cancerosos em 98% das vezes. Além disso, ajudou a identificar o PDAC precocemente com 85% de precisão quando utilizado juntamente com o exame de CA 19-9.

Assim, o teste é especialmente útil para pessoas que apresentam fatores de risco para o câncer pancreático, pois permite um rastreamento efetivo e, ao mesmo tempo, menos invasivo do que uma ultrassonografia endoscópica ou outras biópsias líquidas que exigem grandes volumes de sangue. Com isso, o teste pode ser realizado com maior frequência para detecção precoce. 

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“Os principais fatores de risco para o câncer de pâncreas são obesidade, tabagismo e, muitas vezes, aqueles pacientes que têm pancreatite crônica. E, por ser uma doença difícil de ser diagnosticada que dificilmente apresenta sintomas precocemente, o rastreio regular é indispensável, principalmente para esses pacientes”, diz o médico.

De acordo com Ramon Andrade de Mello, a possibilidade de diagnóstico precoce proporcionada pelo teste PAC-MANN se traduz em mais opções de tratamentos e uma maior chance de sobrevivência. “A escolha do tratamento depende da gravidade do caso e se a doença é operável ou não. Caso seja operável, a cirurgia pode ser indicada, o que torna o prognóstico melhor. Outra opção é a realização de quimioterapia seguida de cirurgia e, posteriormente, retornamos com a quimioterapia. Por sua vez, se a doença já estiver disseminada pelo organismo, a quimioterapia é utilizada isoladamente. Entretanto, na doença metastática, a sobrevida é curta, podendo variar, em média, de 6 a 11 meses, dependendo do tratamento utilizado”, diz o médico,

Mas, além de ser capaz de detectar a doença precocemente, o teste também pode ser eficaz para acompanhar a evolução do tratamento, pois, após cirurgia, os pesquisadores observaram uma diminuição na atividade da protease. “Então, o teste também pode ajudar a medir a eficácia de um tratamento e a guiar estratégias terapêuticas, pois, ao monitorar a resposta do paciente em tempo real, permite uma melhor tomada de decisão, melhorando, assim, os resultados”, diz o médico.

Outra vantagem do exame, segundo os pesquisadores, é sua acessibilidade: exige apenas 0,008 mililitros de sangue e 45 minutos para ser realizado por um custo menor que um centavo por amostra. Porém, mais testes são necessários antes que o exame esteja amplamente disponível para ser utilizado, o que já está nos planos dos pesquisadores. “O exame PAC-MANN, se validado em futuras pesquisas, pode tornar-se uma ferramenta indispensável para o diagnóstico, tratamento e melhora do prognóstico do câncer de pâncreas”, finaliza Ramon Andrade de Mello.

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(*) Homework inspira transformação no mundo do trabalho, nos negócios, na sociedade. É criação da Compasso, agência de conteúdo e conexão.

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