Flor-cadáver surpreende turistas por "falta de fedor" na Bélgica
Por apenas 72 horas, belgas e turistas tiveram a rara oportunidade de ver de perto a maior flor do mundo no Jardim Botânico Nacional da Bélgica, em Meise, vilarejo a 5 quilômetros de Bruxelas. A próxima floração da titan arum, que terminou nesta quarta-feira, só deve ocorrer de novo daqui a quatro anos. Originária de Sumatra, Indonésia, a planta é conhecida pelo mau odor e denominada bunga bangkai – em português, flor-cadáver. No Brasil é também chamada de jarro-titã.
O fotógrafo belga Peter Bodequin aproveitou a oportunidade para registrar a planta e levar a filha Myrthe, 7 anos, para um passeio educativo. O odor de carne podre e a estranha aparência do jarro-titã não assustaram a menina. “Pelo contrário, ela está reclamando que a planta não tem o mau cheiro que dissemos que poderia ter”, diz o pai.
Segundo o voluntário e estudante de Gerenciamento Verde Bart De Vuyst, 19 anos, o fedor da jarro-titã foi bastante forte na primeira noite, na segunda-feira, mas depois a intensidade diminuiu. “Foi realmente inacreditável”, afirma. Mesmo acompanhando os visitantes em turnos variados entre 8h e 22h, o jovem se mantém impressionado com os turistas. “É a nossa maior flor, com quase 3 metros de altura e um bulbo de 130 quilos”, enaltece. De Vuyst explica que, no habitat natural, o bulbo costuma atingir cerca de 70 quilos. O estudante detalha que após aberta, a flor-cadáver atrai insetos carniceiros, como besouros e moscas, e também produz frutos vermelhos “muito venenosos”.
A planta começa a vida como um pequeno tubérculo e mais tarde solta uma coluna afilada que cresce vigorosamente até 16 centímetros por dia. Trata-se, na verdade, não de uma flor, mas de uma inflorescência ou espádice. O nome científico Amorphophallus titanum em latim significa: “falo gigante sem forma”.
Em climas temperados, o cultivo do jarro-titã requer uma estufa de pelo menos 5 metros e precisa ser mantida a uma temperatura estável similar ao seu habitat, entre 28°C durante o dia e 26°C durante a noite, além de condições de umidade favoráveis. A flor gigante precisa de muita luz e sombra somente na época mais quente do ano, por volta do meio dia.
Dedo verde
O jovem agrônomo belga Koen Van Renterghem, 23 anos, é o responsável pelo cultivo bem-sucedido da “maior flor” do país. Ele a preparou e cuidou do jarro-titã por quatro anos, até a data de sua floração na segunda-feira. “Estou muito contente. É uma planta muito especial, que demanda muito atenção e nutrientes calculados”, explica Renterghem ao Terra. Outro detalhe para o cultivo bem-sucedido foi a higienização da planta, para evitar doenças e parasitas que podem infectar o tubo facilmente.
O belga S. Elshout, casado com uma americana, trouxe a esposa e os sogros de Miami para ver a estranha flor pela primeira vez. “É uma flor muito grande. O tamanho é incrível”, diz ele. A sogra, Barbara, diz que não tinha ideia de que tal planta existisse. “É simplesmente uma beleza incomum”, define. Em habitat natural, o jarro-titã é uma espécie ameaçada. De Vuyst explica que não são expostas plantas retiradas diretamente da natureza, mas derivadas de material proveniente de outros jardins botânicos. No caso belga, o exemplar nasceu de uma planta do Jardim Botânico de Bonn, na Alemanha.
O zoólogo e botânico italiano Odoardo Beccari foi o primeiro europeu a descobrir a planta em 1878 e levou sementes e tubos de Sumatra a Florença. Os tubos morreram, mas as sementes germinaram pela primeira vez em 1889. Desde então, o vegetal passou a ser cultivado em alguns jardins botânicos, costuma viver 40 anos, oferecendo raras germinações pelo mundo.