Por que EUA vivem maior índice de "quase colisões aéreas" dos últimos tempos?
Número das chamadas "close calls" mais do que duplicou na última década
Incidentes em que aviões quase colidem uns com os outros a centenas de quilômetros por hora têm aumentado expressivamente nos EUA, conforme mostrou uma recente reportagem do The New York Times.
De acordo com a investigação, que teve acesso a registros da Administração da Aviação Federal (FAA, na sigla em inglês) e da Nasa, problemas do tipo têm acontecido várias vezes por semana. Em julho de 2023, foram ao menos 46 registros de naves que, por pouco, não se chocaram nos ares ou durante operações de pouso e decolagem.
Segundo o NYT, o número de "quase-batidas", chamadas de close calls, mais do que duplicou na última década.
Os dados podem ser influenciados por uma simples melhora nos registros, o que faria com que casos que já ocorriam com uma certa frequência começassem a ser registrados com mais regularidade.
A apuração, entretanto, entrevistou mais de 50 pilotos e operadores de tráfego que se diziam "perturbados" pelo que estavam vendo acontecer nas pistas dos principais aeroportos do país.
Por que ocorrem?
As close calls são frequentemente associadas a erro humano, como erros cometidos por controladores de tráfego aéreo e pilotos.
Um relatório governamental divulgado em junho concluiu que 77% das bases de controle de tráfego aéreo estavam em falta de profissionais qualificados. Esse déficit estaria fazendo com que os funcionários estivessem extremamente sobrecarregados, com acúmulo de funções e turnos exaustivos.
Em entrevista ao portal Insider nesta quarta-feira (27), Kevin Karpé, ex-controlador de tráfego e dono de uma consultoria que atua no ramo, afirma que o problema tem raízes antigas.
Ele cita demissões em massa que ocorrem no setor desde os anos 80, a aposentadoria precoce de trabalhadores com de 20 a 25 anos de serviço e a exigência de que os controladores devam começar o treinamento aos 31 anos de idade — com a idade de aposentadoria obrigatória de 56 — como causadores do "déficit constante".
"Mesmo que contratássemos 11 mil controladores de tráfego aéreo este ano, ainda existe um extenso programa de formação que acompanha isso e, dependendo do tipo de instalação, pode levar de três a quatro anos até que possam trabalhar num grande aeroporto como o John F. Kennedy, [em Nova York]", diz.