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Ha três dias eu vinha tentando assistir MAGNÓLIA de Paul T. Anderson e as sessões lotadas me fizeram optar por atividades e filmes não programados. Hoje, domingo 23, consegui, em um multiplex próximo à minha casa, dois lugares em uma das salas onde estava sendo projetado um filme brasileiro. As críticas ao referido filme não vinham sendo das mais entusiasmadas, assim, eu e minha mulher, entramos na sala de projeção sem grande expectativa.
Eu havia recebido convites, dias antes, para a pré-estréia do tal filme, mas como a projeção era na cabine do hotel Maksoud Plaza, preferi esperar a reação de amigos e críticos que respeito. Não entendo como produtores e realizadores aceitam exibir seus filmes no teatro do Maksoud. O som é péssimo e a projeção sofrível. Lembro de ter visto, durante uma das Mostras Internacionais do Leon Cakoff, um filme em cinemascope (La Pirate, de Jacques Doillon) com metade da imagem na tela, ou seja, num écran panorâmico que não aceitava a imagem larga. Duas horas depois, encerrada a sessão na sala do multiplex, alguns sentimentos assolaram a mim e minha mulher. Primeiro, a emoção de ter acabado de assistir um filme de extrema dignidade. Segundo, a perplexidade diante da absurda má vontade dos analistas de plantão com uma obra que, se não prima pela invenção, esbanja elegância e profissionalismo. Merda! Vivem cobrando do cinema nativo o diálogo com o público; perde-se fosfato e gramática com filmécos vazios, que não acrescentam nem informam nada; quando um filme arrisca trazer a tona a obra e a vida de um gênio brasileiro, sem nenhum prurido de mostrar o lado mais frágil de sua personalidade, e por isso mesmo, tornando-o mais humano e relevante, o que se lê é que, apesar de bem feito e intencionado, o filme não emociona. Não emociona à quem? O que eu vi foi um cinema lotado soluçando em vários momentos, rindo em outros, permanecer sentado durante os infindáveis créditos finais e sair da sala com uma expressão única e lívida de satisfação, valorizando cada centavo gasto nos doze reais do custo do ingresso.
Pois bem, ilustres bombers, VILLA-LOBOS, UMA VIDA DE PAIXÃO, de Zelito Viana, pode não ser o filme brasileiro que vai mudar o rumo da história, mas é uma obra plena de integridade e que cumpre totalmente aquilo que é cobrado sistematicamente na cinematografia nacional: engenho, arte, informação e respeito ao público. Que não se espere um filme modernoso e repleto de inovações. Sei lá porque, lembrei dos melhores filmes americanos de Andrei Konchalovsky, MARIA´S LOVER (Os Amantes De Maria - 84), DUET FOR ONE (Sede De Amar - 86) e SHY PEOPLE (Gente Diferente - 87). Sei que muita gente torce o nariz, mas eu gosto deste filmes, porque representam perfeitamente a diferença entre o cinema clássico e o acadêmico. Trata-se de um cinema que corre todos os riscos de naufragar em sua dramaturgia rigorosa, quando não solene, e onde a gramática cinematográfica é submetida ao crivo da encenação.
Os revezes que acompanharam a produção de VILLA-LOBOS estimulavam um certo pessimismo em relação ao resultado final. Pesava ainda nas costas de Zelito Viana a genialidade do compositor-personagem. Um desafio crucial vencido pelo diretor ao transformar o mito em um ser humano na plenitude de suas fragilidades. Individualista, arrogante, muitas vezes rude e grosseiro, mas sempre audaz, criativo e à frente do seu tempo, VILLA-LOBOS é imantado na tela pela inspirada interpretação de Antônio Fagundes; de longe seu melhor trabalho em cinema. Assim como Konchalovsky, Zelito Viana dá espaço suficiente para que seus atores mergulhem de corpo e alma em seus personagens. Ana Beatriz Nogueira está sublime como a primeira mulher do compositor. Mas a surpresa realmente inesperada é a participação do ator José Wilker, como Donizetti, o músico andarilho. Wilker, que vinha se aprimorando no equivocado papel de si mesmo nos últimos trabalhos, irrompe na trama de tal forma despojado e possuído de raiz que faz enorme sombra aos que com ele contracenam, incluindo o, quase sempre, ótimo ator Marcos Palmeira. Aliás, é uma pena que, nem Palmeira, nem os demais protagonistas, cheguem ao nível de grandeza de Fagundes, Ana Beatriz e Wilker. Mas credite-se ao diretor a ingrata tarefa de dirigir o próprio filho numa empreitada tão complexa. Nem (ou muito menos) Villa Lobos, o genial, cabotino e irascível criador, teria feito melhor.
Eis uma vida que valeu a pena ser vivida, filmada e conhecida. Eis um filme digno, profissional, sensível, que superou as limitações de sua produção tempestuosa com bom senso e integridade. Obrigado Zelito por não ter se submetido à linguagem da televisão. VILLA-LOBOS, o filme, é cinema puro, na dimensão da tela larga, na imperfeição de seus tempos nunca óbvios e na emoção genuína do herói transformado homem.
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