Flavia Bemfica / Especial para Terra
Seco e encorpado ou doce e fresco ou o resultado de uma apurada combinação de ambos os extremos, mas sempre associado à comemoração, felicidade e prazer, o espumante é a bebida característica das festas de final de ano e vem conquistando apreciadores sem perder o “glamour”. O público, em geral, desconhece sua história, repleta de detalhes que só aumentam a fama de bebida especial.
O espumante é um vinho que apresenta borbulhas (provocadas pela existência de gás carbônico) e que, com exceção do obtido pelo método Asti, passa por duas fermentações. A história atribui sua “descoberta” ao monge beneditino Dom Pérignon, mas a fama de bebida de reis vem desde que os romanos começaram a produzir na cidade de Reims, na região de Champagne, na França, um vinho com borbulhas servido durante as coroações dos reis franceses. Atualmente existe até quem atribua sua “invenção” aos ingleses.
Na versão mais conhecida da história, no final do século 17 Dom Pérignon revolucionou o preparo de vinhos espumantes produzidos na região de Champagne, onde, não raro, a fermentação da bebida (engarrafada antes de fermentar totalmente) fazia as garrafas estourarem. Usando recipientes mais fortes e amarrando as rolhas com arame, o monge conseguiu fazer com que o vinho fermentasse dentro da própria garrafa sem estourá-la. É atribuído a ele também o “assemblage”, a mistura de dois ou mais vinhos, inclusive tintos e brancos.
A bebida, contudo, continuava a ter um aspecto pouco atraente, em decorrência dos resíduos da segunda fermentação. Coube a uma mulher, Nicole-Barbe Ponsardin, fazer com que o espumante se transformasse, de fato, em produto de consumo da realeza. Viúva desde jovem, no início do século 18 ela passou a administrar a empresa do sogro, a Clicquot (hoje uma das marcas mais famosas do mundo). Sob seu comando, a empresa desenvolveu as técnicas do “remuage” e do “degorgement”, que deixaram os vinhos espumantes mais cristalinos, e disseminou o consumo da bebida nas cortes europeias e do Novo Mundo.
“A bebida, produzida em pequena quantidade, desde o início agradou muito aos nobres. Se o champanhe é o vinho do rei, então é a bebida mais importante, a que todos querem tomar, e, como tudo o que é importante, precisa ser guardada para as ocasiões especiais. Daí sua associação aos grandes eventos”, explica Christian Bernardi, presidente da Associação Brasileira de Enologia (ABE).
Desde que o espumante caiu no gosto da nobreza até os dias atuais, tornou-se tradição estourar uma garrafa em inaugurações de navios e grandes obras, em alusão a pujança e solidez, ou a abrir com estardalhaço após competições automobilísticas. Hoje proliferam os estudos sobre seus efeitos afrodisíacos e antidepressivos. Além de a matéria-prima, a uva, sempre ter sido símbolo de fertilidade, o gás carbônico que gera as borbulhas também faz com que a absorção do álcool seja mais rápida. O certo é que, diante de uma taça, você vai pensar em prazer, vitória e felicidade.