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Por que nudez masculina ainda é rara e um tabu na TV e no cinema

A presença da nudez frontal masculina em todas as três temporadas de 'The White Lotus' gerou uma série de reações e comentários. Por que mostrar um pênis na tela ainda tem a capacidade de chocar?

24 mar 2025 - 08h01
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Por que mostrar um pênis na tela ainda tem a capacidade de chocar?
Por que mostrar um pênis na tela ainda tem a capacidade de chocar?
Foto: Warner Bros Discovery / BBC News Brasil

No quarto episódio da terceira temporada da série The White Lotus, que se passa na Tailândia, o milionário Tim Ratliff (Jason Isaacs), cada vez mais nervoso, senta para tomar café da manhã usando um roupão com um laço frouxo. Sua família não sabe que Tim é procurado pelo FBI, a polícia federal americana, por transações financeiras ilegais, e que provavelmente vai acabar atrás das grades — ou que vem tomando Lorazepam, um medicamento ansiolítico, como se fosse bala.

Aviso: Esta reportagem contém linguagem que pode ser considerada ofensiva por alguns leitores

"Todos no clube...!", ele murmura para si mesmo, horrorizado, e, imaginando seus conhecidos descobrindo sobre seus crimes, ele coloca as mãos sobre a cabeça, expondo acidentalmente seus órgãos genitais. "Meu Deus, pai!", seus três filhos quase adultos gritam com repulsa. "Suas bolas!"

Pode ter sido um mero lampejo da genitália masculina na série de enorme sucesso de Mike White, que acompanha super-ricos de férias, mas imediatamente se tornou um momento bastante discutido nas redes sociais.

"Jason Isaacs, você estava escondendo o jogo", postou uma pessoa no X (antigo Twitter), enquanto outra acrescentou: '[o] nu frontal me fez derramar minha sopa, eu não estava preparado'. Outros relacionaram a nudez de Isaacs a outro personagem famoso que ele interpretou, Lucius Malfoy, nos filmes de Harry Potter. "Eu não esperava que White Lotus mostrasse a varinha de Lucius Malfoy esta noite, mas aqui estamos nós...", brincou um usuário.

Mas esta não foi a primeira vez que a anatomia masculina roubou a cena nesta série. No primeiro episódio, o filho de Isaacs em cena, Saxon (Patrick Schwarzenegger), apareceu exibindo o pênis e os glúteos enquanto anunciava ao irmão mais novo que iria se masturbar com pornografia no banheiro que compartilhavam; e as duas temporadas anteriores também foram repletas de homens nus.

O vislumbre de uma genitália masculina na terceira temporada de The White Lotus repercutiu imediatamente nas redes sociais
O vislumbre de uma genitália masculina na terceira temporada de The White Lotus repercutiu imediatamente nas redes sociais
Foto: Warner Bros Discovery / BBC News Brasil

Na verdade, virou um tema recorrente: todos os episódios de abertura das três temporadas de The White Lotus apresentam um pênis. Na primeira temporada, ambientada no Havaí, Mark Mossbacher, interpretado por Steve Zahn, pediu à esposa para examinar seus testículos, pois acreditava estar com câncer.

No primeiro episódio da segunda temporada, que se passa na Sicília, Cameron (Theo James), um cara convencido da área de finanças, vai até o quarto da parceira do seu amigo no hotel para pegar emprestado uma sunga e, em seguida, troca de roupa à vista de todos, dando a ela e aos espectadores um vislumbre do seu pênis.

"O que você acha? Um pouco apertado, né?", diz ele sobre a sunga, se dirigindo a Harper (Aubrey Plaza), mais uma vez direcionando o olhar para baixo.

Voltando à temporada atual, um dos episódios mostra Vlad, um dos amigos russos do funcionário do resort Valentin, se despindo e balançando a genitália em uma noitada, enquanto em outras cenas ao longo das três temporadas, outros personagens masculinos apareceram nus, seja se masturbando ou fazendo sexo, como o ator Adam DiMarco como Albie, e Will Sharpe como Ethan (ambos na segunda temporada); e as temporadas um e dois tiveram cenas de sexo exclusivamente masculinas de cair o queixo.

Na primeira temporada, houve uma sessão de sexo regada a drogas (com Armond, o gerente do hotel [Murray Bartlett], e o membro mais jovem da equipe do White Lotus, Dillon [Lukas Gage]), enquanto a grande revelação da segunda temporada foi a relação sexual entre dois homens, Quentin (Tom Hollander) e Jack (Leo Woodall), que alegavam ser tio e sobrinho, mas na verdade eram cliente e garoto de programa.

Não há dúvida de que Mike White usa a nudez masculina e as cenas de sexo para provocar. E isso funciona: a terceira temporada está com uma média de audiência de 12,2 milhões de espectadores por episódio — um aumento de 78% em relação ao mesmo período da segunda temporada —, e repercute com frequência nas redes sociais, sobretudo quando aparece alguma cena de nudez masculina.

Mas o fato de cenas como essas ainda ganharem destaque no noticiário ao redor do mundo mostra que, embora a nudez masculina possa estar se tornando um pouco mais comum, ela ainda é vista como um tabu e digna de comentários, o que, por si só, diz muito sobre o quanto muita gente se sente confortável (ou desconfortável) em ver homens nus na televisão.

'A exceção, e não a norma'

Tradicionalmente, o cinema e a televisão europeus têm adotado uma abordagem mais relaxada em relação à exibição de nudez frontal masculina e feminina nas telas. Nos EUA e no Reino Unido, a história é bem diferente. As diretrizes rígidas da Ofcom, órgão regulador britânico de mídia, têm uma regra de que nenhuma nudez é permitida antes das 21h (horário local).

E, embora isso possa significar que bumbuns eram exibidos de vez em quando na TV tarde da noite, os pênis só apareceram de fato na década de 1990, com o Eurotrash, um programa noturno de variedades no Channel 4, que apresentava as façanhas das pessoas estranhas e maravilhosas da Europa, e mostrava casualmente pênis e vulvas; ou as aventuras sexuais dos homens gays no inovador Queer As Folk em 1999. Mas mesmo agora, ver a genitália masculina na TV do Reino Unido ainda é a exceção, e não a norma.

Nos EUA, acredita-se que o primeiro pênis exibido na TV tenha sido uma cena de uma fração de segundo de um tratador de cavalos nu na minissérie Lonesome Dove, de 1989, baseada nos romances de faroeste de Larry McMurtry.

Mas com o advento da TV a cabo e de emissoras como a HBO e Showtime, os limites da nudez masculina começaram a se expandir; na série Contos da Cripta, da HBO, de 1992, um personagem pula depois de fazer sexo, exibindo seu pênis; depois, as representações do corpo masculino totalmente nu continuaram em séries como Oz (de 1997) e Game of Thrones (de 2011), até a exibição de 30 pênis na cena do vestiário masculino de Euphoria, em 2019, e um pênis falante em Pam & Tommy, em 2022.

"Eu diria que o corpo masculino nu se tornou mais normalizado nas telas nos últimos anos", diz Santiago Fouz-Hernandez, professor de estudos cinematográficos da Escola de Línguas e Culturas Modernas da Universidade de Durham, no Reino Unido, especializado em gênero, sexualidade e corpo na tela.

"Mas a reação do público às cenas de The White Lotus prova que isso ainda não é visto como 'normal', não é algo comum, e é isso que Mike White está explorando um pouco em sua decisão de dedicar repetidamente tempo de tela a isso."

Mas se houve um aumento da genitália masculina nas telas, por que a televisão se esquivou dela no passado? "Há a ideia da 'mística fálica'", sugere Fouz-Hernandez, "sobre a qual [o professor de estudos cinematográficos] Peter Lehman escreveu no início dos anos 1990, e é uma perspectiva fascinante. O pênis e o falo são duas coisas muito diferentes".

"O falo não é uma forma educada de se referir ao pênis, é um conceito, é simbólico; é a ideia do poder masculino, e o privilégio que advém de ter um. Lehman, entre outros, como Susan Hunt ou Susan Bordo, argumentou que o patriarcado se baseia em manter o pênis fora de vista, caso contrário, se ele fosse visível ou normalizado, essa ideia de poder poderia ser desmascarada, e os homens perderiam seu poder. O falo é o que significa ser masculino, e o que significa ser homem".

Na segunda temporada, Cameron (Theo James) vai ao quarto de Harper (Aubrey Plaza) no hotel para pegar emprestado uma sunga — e troca de roupa na frente dela
Na segunda temporada, Cameron (Theo James) vai ao quarto de Harper (Aubrey Plaza) no hotel para pegar emprestado uma sunga — e troca de roupa na frente dela
Foto: Warner Bros Discovery / BBC News Brasil

Isso certamente se reflete na vulnerabilidade de dois dos homens de The White Lotus, Mark e Tim. "O pênis é um órgão muito vulnerável por si só", explica Fouz-Hernandez — e talvez, como homens mais velhos passando por algum tipo de trauma, eles já não se importam em manter a noção do falo poderoso. Seja acidentalmente ou de propósito, eles estão se expondo totalmente aos outros. Diante de problemas maiores, a necessidade de manter seu status fica em segundo plano.

O oposto parece ser verdadeiro para os personagens hipermasculinos de Cameron e Saxon, que ativamente exibem seus pênis para os outros, quer queiram vê-los ou não. Eles se posicionam como machos alfa, tão bem dotados e excessivamente autoconfiantes que não precisam se preocupar em manter o simulacro de manter o falo coberto.

"O que eu tenho a esconder?", eles parecem insinuar. Mas há também uma conotação predatória e ameaçadora nestes dois homens exibindo seus pênis para afirmar autoridade sexual; os destinatários destas exibições totalmente frontais são uma mulher que Cameron acabou de conhecer, e que se encontra sozinha com ele em um quarto de hotel; e o irmão mais novo de Saxon, que também está em uma posição vulnerável quando Saxon o intimida e zomba dele por ser virgem, dizendo repetidamente que pretende fazer ele "transar" nas férias. Como Evan Romano escreveu na revista Men's Health, em 2022, sobre Cameron, estão "transformando a nudez masculina em uma arma".

Todas essas revelações genitais na tela são preparadas para ser um momento de "choque", algo que Peter Lehman identificou como um lugar-comum quando se trata de nudez frontal masculina em filmes, destaca Fouz-Hernandez.

"Eles estabeleceram o conceito chamado 'pênis melodramático', no qual, quando há um momento de nudez frontal na tela, ele não é simplesmente casual ou 'normal', pois geralmente é acompanhado de um choque ou drama em torno dele. Há um dualismo em ter isso na tela. É normalizado, mas também não é, pois há um drama relacionado a ele. Isso é verdade nas exibições em The White Lotus: quando vemos os órgãos genitais, isso é acompanhado por um caso de câncer em potencial [em uma ocasião], enquanto outro personagem teme que sua vida esteja prestes a ser exposta e, em outro, parece haver um triângulo amoroso se desenrolando."

'Dois pesos e duas medidas'?

Cada caso de nudez em The White Lotus ajuda a afastar as representações na tela do olhar masculino, que tradicionalmente usava a câmera para olhar "voyeuristicamente" para o corpo feminino.

David Opie escreveu no site Digital Spy que muitas cenas de nudez masculina em The White Lotus eram "importantes", à medida que elas "existem para desconstruir a masculinidade em relação ao sexo, status e misoginia, ao mesmo tempo em que invertem o roteiro em um mundo onde as mulheres ainda são mais objetificadas do que os homens".

Enquanto isso, Isaacs disse ao site Decider que acha que Mike White está "tentando compensar a quantidade de mulheres nuas que eu vi quando era criança em todos os programas de televisão e filmes. Nudez é a coisa", ele acrescentou.

"Ele usa isso às vezes para comédia, às vezes para sexo, às vezes para manipulação. É um bom momento na TV."

Não podemos esquecer do uso da nudez por Mike White para efeitos cômicos: no quinto episódio da terceira temporada de The White Lotus, Vlad exibe seu pênis à beira da piscina de uma forma que dificilmente significaria algo além de capturar um momento engraçado de embriaguez. Parte do apelo do programa, diz Henry Wong, editor de cultura da revista Esquire, é a capacidade de White de saltar do divertido para o sério nessas cenas de exposição:

"Para mim, qualquer tentativa de equilibrar a balança entre a nudez masculina e a feminina parece um efeito colateral lúdico, em vez de um objetivo principal. Talvez a nudez deva ser ameaçadora — tenho certeza de que muitos espectadores podem se imaginar em situações semelhantes e sinistras — ou sexy ou engraçada, ou todas essas coisas ao mesmo tempo. White não é muito definitivo sobre isso, e é melhor assim."

Na primeira temporada, ambientada no Havaí, Mark Mossbacher, interpretado por Steve Zahn, pediu à esposa para examinar seus testículos, pois acreditava estar com câncer
Na primeira temporada, ambientada no Havaí, Mark Mossbacher, interpretado por Steve Zahn, pediu à esposa para examinar seus testículos, pois acreditava estar com câncer
Foto: Warner Bros Discovery / BBC News Brasil

No entanto, Wong observa: "Acho interessante como os atores com frequência precisam mencionar que se trata de uma prótese nas coletivas de imprensa. Será que isso demonstra um desconforto ou estranheza persistente em relação à nudez masculina e, especificamente, ao pênis?"

De fato, toda vez que um ator de White Lotus faz uma cena de nudez, ele é questionado sobre isso. "Eu nem precisei fazer essa parte", Zahn disse à revista The Hollywood Reporter. "É outra pessoa usando uma prótese. Mais absurdo impossível, né?".

Theo James também usou uma prótese, dizendo à Variety que pediu à maquiadora: "Eu só queria que não fosse uma distração. Precisa ser um 'cara normal'. Porque a cena, você sabe, não é sobre o pinto, é sobre jogo de poder e sexo... Ela diz: 'Entendi. Sim, te entendi. Um cara normal'". No entanto, quando viu a prótese, ele acrescentou: "É como se ela tivesse roubado de um burro no campo! A coisa é gigantesca". Os filhos de Isaacs em cena, Sarah Catherine Hook e Sam Nivola, confirmaram ao TV Insider que a cena que gravaram com o ator foi filmada com uma prótese no lugar.

Mas, em uma entrevista ao programa CBS Mornings, Isaacs se ofendeu com as perguntas sobre nudez. "Acho interessante que haja dois pesos e duas medidas para os homens, mas quando as mulheres aparecem nuas, como Margaret Qualley em A Substância, ninguém sonharia em falar com ela sobre sua genitália ou seus mamilos ou qualquer uma dessas coisas. Portanto, é estranho que haja dois pesos e duas medidas...

Enquanto continuava a ser questionado sobre o assunto, Isaacs acrescentou: "Qual é a sua obsessão? Mike White é um roteirista brilhante, é a melhor série da televisão há muito tempo. E qual é a obsessão com pênis? É uma coisa estranha."

Alguns dias depois, Isaacs esclareceu seus comentários, dizendo à Variety: "Eu disse as palavras erradas da maneira errada. Usei a expressão 'dois pesos, duas medidas', que não era o que eu queria dizer. Há dois pesos e duas medidas [de maneira diferente] — as mulheres têm sido monstruosamente exploradas, e os homens não".

Mas ele acrescentou: "Fui perguntado tantas vezes no mesmo dia por jornalistas: 'Você está usando uma prótese? O que significa: 'Eu vi seu pênis de verdade? É muito importante para mim saber se eu vi seu pênis'. Isso me parece um pouco estranho, e um pouco obsessivo. Achei que poderia me divertir rebatendo isso, mas rebati muito mal."

Há outras questões relacionadas com o uso de genitais falsos nas telas, diz Fouz-Hernandez. "Por um lado, é ótimo que Mike White esteja dando visibilidade e normalizando a nudez masculina", ele afirma.

"E eu entendo a ideia dos contratos, e que os atores talvez não queiram mostrar seus órgãos genitais reais de perto, mas o uso de próteses e efeitos digitais é decepcionante, pois, de certa forma, eles anulam o propósito ao contribuir para perpetuar o próprio imaginário fálico que a nudez frontal masculina poderia desmascarar, criando uma representação irrealista. Seria bom ver uma diversidade mais realista de tamanhos e formas... A série está perpetuando, portanto, a mística fálica ao revelar um pênis que nem sequer é real, o que é problemático."

Sobre os atos sexuais — e, supostamente, sobre a representação da nudez masculina também — na série, White disse à revista The New Yorker que gosta de retratá-los como transgressivos, não para condená-los, mas para conectá-los à ideia de onde todos nós evoluímos:

"Nem tudo é inofensivo. Mas não é inerentemente prejudicial. É inerentemente bastante natural. Somos animais".

Leia a a versão original desta reportagem (em inglês) no site BBC Culture.

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