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Autora de 'Vou Te Receitar Um Gato' fala sobre o livro e conta por que não aceitaria esse tratamento

Apaixonada por gatos, a escritora japonesa Syou Ishida virou best-seller dentro de um gênero que só cresce - o da ficção de cura. Nesta entrevista, ela fala sobre solidão, o mundo atual, seu novo livro e, claro, gatos

25 fev 2025 - 14h40
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Imagine estar com o coração partido e, caminhando pela rua, ser abordado por um médico de uma clínica misteriosa. Você acredita não precisar de nenhum tratamento, já que julga que seu problema é pequeno e comum, mas se surpreende com as orientações que recebe no local.

De lá, você sai com uma caixa, ração, areia e... um gato. Seu único dever? Registrar, em um caderno também oferecido pela clínica, "o que entra e sai" e devolver o animal uma semana depois.

É esse o mote de Vou Te Receitar Outro Gato, lançamento da Intrínseca e sequência do best-seller Vou Te Receitar Um Gato. O novo livro segue o mesmo princípio do primeiro: acompanha, a cada capítulo, personagens que se surpreendem ao receber, como tratamento, um gatinho da Clínica Kokoro.

Mas, no novo volume, vemos um aprofundamento das histórias dos próprios funcionários da clínica e o foco em temas densos, como a solidão e as relações humanas. Tudo, porém, de forma leve: afinal, é este o princípio da healing fiction - ou ficção de cura, em português -, gênero do qual o livro faz parte.

A japonesa Syou Ishida, autora dos dois volumes, é uma entusiasta do gênero. Para ela, o mérito da healing fiction é "trazer sorrisos". "Se, mesmo por um momento, você deixar suas bochechas relaxarem, eu acho que isso ajuda a enfrentar a agitação e a aspereza da vida moderna com um pouco mais de alívio", diz.

Em conversa por e-mail com o Estadão, a escritora detalhou mais o seu processo criativo para escrever dois livros sobre gatos, explicou por que recusaria se alguém lhe receitasse um gato e o significado da orientação de anotar "o que entra e sai". "Se pequenas queixas e problemas forem deixados sem resolução, eles podem se desenvolver em problemas maiores", afirma.

Como foi o processo criativo de 'Vou Te Receitar Outro Gato'? O livro já estava pronto antes do lançamento de 'Vou Te Receitar Um Gato' ou as ideias vieram depois?

A produção do segundo volume começou após o lançamento do primeiro. Embora eu tivesse uma vaga ideia de continuar a história enquanto escrevia o primeiro livro, eu não achava que uma sequência seria possível. O conteúdo específico e a estrutura foram desenvolvidos enquanto eu escrevia o segundo volume.

Sabemos que você é apaixonada por gatos e conquistou centenas de milhares de leitores que compartilham dessa mesma paixão. Por que dedicar dois livros para falar sobre gatos?

É divertido escrever histórias com animais nelas. Entre os animais, os gatos são misteriosos, fofos e seus movimentos são geralmente cômicos. Eles também são populares e é por isso que eles aparecem tanto nas minhas histórias.

Você já esteve em uma situação em que precisava que alguém lhe receitasse um gato?

Eu adoraria ter um [gato], mas provavelmente recusaria. Se me receitassem um gato, eu acabaria passando todo o meu tempo com ele, e isso causaria problemas.

Com qual dos personagens de 'Vou Te Receitar Outro Gato' você mais se identifica? Por quê?

Embora eu não ache que algum personagem seja exatamente como eu, o personagem mais próxima de mim seria Reona, do terceiro capítulo. Como ela, eu posso parecer relaxada, mas, na realidade, eu não sou bem assim.

Os temas da solidão e do distanciamento humano permeiam as histórias em 'Vou Te Receitar Outro Gato'. Por que você escolheu falar sobre esses assuntos agora?

Eu não defini temas específicos para cada capítulo, mas a dificuldade de lidar com relacionamentos é central para todos os tipos de desafios. Eu acho que é por isso que [esse tema] aparece em cada capítulo.

Capa de 'Vou Te Receitar Outro Gato'.
Capa de 'Vou Te Receitar Outro Gato'.
Foto: Intrínseca/Divulgação / Estadão

A receita da Clínica Kokoro, que diz para o paciente observar 'o que entra e sai', é uma maneira de levar os pacientes para o 'aqui e agora'? E você acha que apenas gatos podem nos levar a esse lugar?

. Se você entender que os manter dentro de si não levará a nada bom, você pode aprender a controlar o grau e a sensação desses sentimentos. Se pequenas queixas e problemas forem deixados sem resolução, eles podem se desenvolver em problemas maiores. No livro, eu expressei isso por meio da comida e da saúde dos gatos, mas eu acho que pessoas ao seu redor, ou até outras coisas, podem ajudar a trazer você para o momento presente também.

Qual é a importância de livros de healing fiction na sociedade acelerada de hoje?

Em primeiro lugar, eles trazem sorrisos. Se, mesmo por um momento, você deixar suas bochechas relaxarem, eu acho que isso ajuda a enfrentar a agitação e a aspereza da vida moderna com um pouco mais de alívio.

'Vou Te Receitar Um Gato' é um sucesso no Brasil. Como você se sente sabendo que gatos são uma cura universal?

No Japão, os gatos são profundamente amados, mas saber que eles são igualmente amados no exterior me faz realmente feliz. O desejo de amar coisas fofas é universal.

Leia um trecho de 'Vou Te Receitar Outro Gato'

"De repente, percebeu que seus pés estavam molhados.

Moe Otani olhou ao redor. Havia entrado em um beco escuro sem que se desse conta.

Pouco antes, estava andando pela movimentada avenida Kawaramachi. Alguns centros comerciais de Quioto sempre ficavam lotados de turistas e jovens, e a quantidade de pessoas aumentava ao anoitecer. Geralmente, na volta da faculdade, ela passava em algum café ou fazia compras com as amigas, misturando-se à multidão. Hoje, porém, estava sozinha.

Tinha seguido na direção leste da avenida Takoyakushi para evitar a aglomeração, mas acabou em um lugar desconhecido. O beco era côncavo, e ela não reconhecia nada à sua direita ou à sua esquerda, nem o antigo complexo de apartamentos à frente. A entrada do prédio estava aberta, e ali se via um corredor que seguia até o fundo.

— Onde é que eu fui parar? — murmurou Moe no beco deserto e sem saída.

Ela era bastante distraída. Por isso, diziam que não dava para confiar nela, ou que era imprevisível. Mas foi a primeira vez que as preocupações de Moe a distraíram a ponto de errar a rua. Ela soltou um longo suspiro, sentindo-se patética.

Será que deveria matar o tempo em algum lugar para evitar o namorado? Ou talvez ir à casa de uma amiga, desabafar e fingir que não sabia de nada? Se o telefone tocar, bastava não atender.

Sim, era melhor continuar fingindo que não havia percebido nada.

Se fizesse isso, seria possível evitar o término?

Ou poderia fazer tudo por telefone... Será que assim doeria menos?

Moe ficou parada ali, olhando para o prédio escuro.

Seria bom se as coisas mudassem enquanto estava parada naquele beco abafado. Será que não havia ninguém com poderes divinos para fazer uma mágica e ajudá-la a evitar o término? Moe aceitaria qualquer coisa. Queria fugir de tudo que era desagradável. Queria dar as costas para aquilo.

Quanto mais tentava inutilmente ganhar tempo, mais sua tristeza aumentava. Ela já não estava mais feliz com a perspectiva de reencontrar o namorado depois de tanto tempo. Pelo contrário, queria que ele não viesse.

Fungando, ela deu meia-volta para sair do beco. Então, ouviu uma voz.

— Ei, você aí.

Ela se virou, mas não havia ninguém. Ouviu novamente a voz, que vinha de longe, de algum ponto lá no alto.

Olhou lentamente para cima. Sob o céu nebuloso, observou o prédio antigo. A janela mais alta estava aberta. Seria do quarto ou quinto andar? Era bem alto. E, para sua surpresa, alguém ali olhava para baixo.

— Aqui, aqui! — chamou mais uma vez.

Moe não conseguia ver direito, pois estava contra a luz, mas era um homem. Tinha uma voz aguda e anasalada, e sua roupa parecia ser branca.

Ela tomou um susto ao vê-lo com metade do corpo para fora da janela e ficou boquiaberta.

— Isso é perigoso!

— Não, não, não sou perigoso. Sou uma boa pessoa.

Não dava para ver direito o rosto do homem, mas pelo visto ele estava sorrindo. Como não havia mais ninguém no beco além de Moe, ele só podia estar falando com ela.

— Já que veio até aqui, suba, por favor — disse o sujeito, o dialeto de Quioto ecoando lá do alto. — Estou no último andar, na penúltima sala. Entre e fique à vontade."

Vou Te Receitar Outro Gato

  • Autora: Syou Ishida
  • Tradução: Natália Rosa
  • Editora: Intrínseca (208 págs.; R$ 49,90; R$ 34,90 o e-book)
Estadão
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