'É preciso manter distância crítica entre autor e personagem', diz Lee Child sobre Jack Reacher
Escritor britânico conversou com o 'Estadão' sobre a nova temporada de 'Reacher', do Prime Video
Lee Child é um escritor que não tem do que reclamar. Além de ter vendido mais de 100 milhões de exemplares de seus livros no mundo e ter sido traduzido para mais de 40 idiomas, de acordo com dados divulgados pelo Grupo Editorial Record, ele já teve as suas histórias adaptadas para as telonas e as telinhas - nas duas vezes, com razoável sucesso.
O motor por trás desses bons números de Child, aliás, tem nome e sobrenome: Jack Reacher. São as histórias desse personagem, uma espécie de máquina de combate como Rambo, que fazem com que o escritor tenha feito números tão bons em sua carreira.
Agora, após filmes estrelados por Tom Cruise, Reacher chega em sua terceira temporada como série no Prime Video. No lugar do astro norte-americano, o protagonista dessas novas histórias é Alan Ritchson, um brutamontes que caiu como uma luva no papel e que, segundo o próprio Child, agradou seu criador.
Nesta nova temporada, que estreou na última quinta-feira, 20, a escolha foi adaptar o livro Acerto de Contas - o sétimo do personagem. Na história, Reacher reencontra um homem investigado em seu tempo no Exército, dado como morto dez anos atrás. Ao vê-lo vivo, perambulando pelas ruas, Reacher só tem uma certeza: a justiça ainda não foi feita e, agora, precisa enfrentá-lo.
"Escolhemos essa história porque queríamos trazer esse Reacher lobo solitário. E acho que funcionou muito bem. Lembro-me de escrever o livro e da atmosfera que queria transmitir. Essa atmosfera foi muito bem traduzida para a tela", diz Lee em entrevista ao Estadão.
A seguir, confira a conversa completa do Estadão com Lee Child, que falou sobre a nova temporada de Reacher, seu trabalho como produtor e como vê o futuro do personagem.
Sr. Child, como você descreveria esta nova temporada de Reacher?
É uma das histórias clássicas de Reacher, onde ele é um lobo solitário. Ele está completamente sozinho, sem ajuda, sem suporte, trabalhando disfarçado e correndo perigo a cada minuto. Não tem em quem confiar, a não ser em si mesmo. Ele precisa de muita determinação, porque está lidando com vilões realmente perigosos. Há uma conspiração maligna, um guarda-costas gigante e um local extremamente desafiador. Ele enfrenta problemas sérios do início ao fim. Parte do fascínio é ver como ele vai conseguir sair dessa situação desta vez.
Como produtor, quão desafiadora foi essa nova temporada para você?
Escolhemos essa história porque queríamos trazer esse Reacher lobo solitário. E acho que funcionou muito bem. Lembro-me de escrever o livro e da atmosfera que queria transmitir. Essa atmosfera foi muito bem traduzida para a tela. Ficou exatamente como eu imaginava, e estou muito satisfeito com o resultado. A equipe fez um trabalho incrível. Quando você chega ao fim do último episódio, tem aquela sensação de "sim, essa foi uma grande história". E fico feliz que tenha sido assim. Tenho certeza de que é isso que o público também vai sentir. Como escritor do livro e produtor da série, posso dizer que foi um trabalho muito bem feito.
Falando sobre o processo de adaptação do livro para a tela, como você lida com isso? Sabemos que os fãs são muito protetores com os livros e os personagens. Mas e para você, como é essa experiência?
Os fãs são incrivelmente protetores e estão prontos para reclamar se virem algo que não gostam. Mas o que é preciso lembrar é que, para levar uma história da página para a tela, muitas coisas precisam mudar. O segredo é fazer essas mudanças de uma forma que o leitor do livro não perceba. Essa é a chave do sucesso: apresentar uma nova cena de forma tão natural que o fã não note como ela chegou ali. Acredito que conseguimos fazer isso nesta temporada. Muitas coisas tiveram que ser alteradas porque não é mais um livro, é uma série de TV. Mas, desde que as mudanças não quebrem a imersão do público, todos ficam felizes.
Em entrevistas anteriores, você mencionou que tenta manter Jack Reacher um mistério, até para você mesmo. Isso ainda é verdade após três temporadas da série e os filmes com Tom Cruise?
Sim. É preciso manter uma certa distância crítica entre o autor e o personagem. Caso contrário, o escritor se torna excessivamente protetor e o personagem acaba ficando bom demais, doce demais, perfeito demais. Você não pode gostar dele demais. Se você protege demais um personagem, ele perde sua autenticidade. Além disso, na vida real, nunca conhecemos completamente outra pessoa. Você pode conviver com sua família, seu parceiro, e mesmo assim nunca saberá tudo sobre eles. O mesmo acontece com qualquer personagem. Ele sempre terá um certo grau de mistério para qualquer um que o conheça.
Você acha que ainda há espaço para explorar mais o universo de Reacher, não apenas na TV e nos livros, mas também no cinema?
Não sei. Acho que a vantagem do formato de streaming é muito atraente para um romancista. Um livro tem muito conteúdo, e em um filme é preciso cortar quase tudo, deixando apenas o essencial. Já em uma temporada longa de TV, você pode incluir praticamente tudo. Eu amo o cinema como forma de arte, sem dúvida. Mas acho que é muito melhor transformar uma história curta em um filme do que tentar comprimir uma história longa nesse formato.
Então, com isso, posso perguntar: o que podemos esperar da quarta temporada?
A quarta temporada será ainda melhor que a terceira. E a terceira foi ainda melhor que a segunda. Em algum momento, vamos atingir o limite, mas espero que isso não aconteça antes da vigésima temporada.