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Diretor José Eduardo Belmonte faz 'revisão do Brasil' em novos projetos

Cineasta aborda questões históricas, políticas e de sociedade em seus filmes, como 'O Pastor e o Guerrilheiro', com Johnny Massaro, e 'Uma Família Feliz', com Grazi Massafera

19 nov 2022 - 05h10
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José Eduardo Belmonte trouxe à Mostra de São Paulo seu longa O Pastor e o Guerrilheiro, que já havia concorrido no Festival de Gramado. O filme teve sua estreia em 28 de outubro, logo depois que, na Cinemateca, foi lançado o livro UnB Anos 70 - Memórias do Movimento Estudantil, com depoimentos de quem viveu a turbulência das ocupações - no plural - da Universidade de Brasília, durante a ditadura. O Pastor e o Guerrilheiro surgiu como um projeto do produtor Nilson Rodrigues da Fonseca, que chamou Belmonte para a direção. Seria, ou é, um filme de encomenda, mas olhem o que ele diz. "Todo filme, para mim, se estrutura num triunvirato. Produção, direção, roteiro. Só que, por mais que a obra seja coletiva, o olhar na câmera é sempre o meu."

O Pastor e o Guerrilheiro estreia em 23 de janeiro. Conta a história de João/Johnny Massaro, que se liga à guerrilha do Araguaia e vai preso. Na prisão, e apesar das diferenças, torna-se amigo de Zaqueu, um pastor evangélico que também foi preso, confundido com um comunista. A trama é vista pelo ângulo de Juliana, filha ilegítima de um coronel que comete suicídio e que, na virada do milênio, descobre que seu pai foi torturador, durante a ditadura.

O diretor Jose Eduardo Belmonte tem novos projetos em andamento
O diretor Jose Eduardo Belmonte tem novos projetos em andamento
Foto: Daniel Teixeira/ Estadão / Estadão

Entre passado e presente, o relato chega ao réveillon do ano 2000, quando Juliana comparece ao que seria o reencontro de João e Zaqueu, agora impossível porque um deles morreu. Belmonte reconstitui a experiência da guerrilha, a ascensão do neopentecostalismo.

Para ele, o Brasil não lida bem, até hoje, com a memória da ditadura. A memória, que está no centro do livro organizado pela jornalista Maria do Rosário Caetano sobre a UnB e do próprio filme, é resistência. Belmonte admite que fez uma extensa pesquisa. Assistiu a Santa Cruz, o doc de João Moreira Salles, de 2000, que também aborda o boom das seitas evangélicas. Lá atrás, e antes de virar projeto político, a religião evangélica, com tudo o que tem de restritivo - contra o álcool, carnaval e até futebol -, foi abraçada pelos mais pobres, que nada tinham. Por que? Porque lhes vislumbrou uma possibilidade de inserção social na cidadania.

No set

Prepare-se para um choque. César Mello, que faz Zaqueu em O Pastor e o Guerrilheiro, é excepcional no papel. "Havia trabalhado com ele na série Carcereiros e sabia do que o César é capaz. Ele, além de tudo, é versátil. É ator de musicais, canta muito bem." Belmonte conversa pelo telefone, do Rio, com a reportagem do Estadão. Ele veio a São Paulo para a sessão de O Pastor e o Guerrilheiro e agora está no Paraná, onde iniciou em 31 de outubro a rodagem do novo filme, estrelado por Grazi Massafera. Uma Família Feliz é uma produção da Barry Company. Tem roteiro de Raphael Montes, que criou a série Bom Dia, Verônica, da Netflix, e também atua agora como diretor-assistente de Belmonte.

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Ao contrário do título, a família não é nada feliz. Coisas estranhas passam a ocorrer com a mulher, Grazi, depois que ela dá à luz o terceiro filho. O marido, Reynaldo Gianecchini, a acusa de colocar os outros dois filhos em risco. A personagem de Grazi sofre uma espécie de linchamento moral. Resumidamente, Uma Família Feliz é sobre o calvário da mãe. "Coisas estranhas" sugerem cinema de gênero - terror -, mas Belmonte anuncia um thriller. Suspense sem sobrenatural. "O filme é sobre a classe média enclausurada em condomínios. É sobre um mundo construído nas aparências." A escolha do Paraná como locação tem a ver com o fato de Grazi ser paranaense, mas também com o clima de linchamento de tantas reputações na chamada República de Curitiba.

Não é segredo para ninguém. Há dez anos, Grazi estreou no cinema fazendo comédia com Belmonte. Billi Pig foi fracasso de público, mas em sucessivas entrevistas Belmonte nunca se furtou a analisar a importância do filme para ele. "Pensei muito nesse fracasso, no que fiz e no que poderia e até deveria ter feito. Ganhei mais segurança." A pergunta inevitável - Uma Família Feliz salda uma dívida moral de Belmonte com Grazi? "Não pensei nesses termos, mas acho que sim. A Grazi é incrível. Além de toda aquela beleza e talento, tem uma inteligência absurda." A reportagem tenta o contato com a atriz no set. Ela está totalmente concentrada na personagem. Promete uma grande entrevista ao Estadão tão logo termine a filmagem.

'Dívidas'

Grazi merece esse filme, mas se o negócio é saldar dívida ele também tinha outra com Gianecchini. "Lá atrás, em 2008, ia fazer Se Nada Mais Der Certo com ele, mas o Gianecchini foi escalado para uma novela e não pôde. Terminei fazendo o filme com Cauã Reymond, agora volto ao Gia."

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Nos últimos anos, Belmonte tem feito o que chama de "revisão do Brasil". Aborda a Amazônia em O Pastor e o Pistoleiro, filmou As Verdades na Bahia, filma Uma Família Feliz no Paraná. Na sequência, no ano que vem, vai encarar o Brasil no mundo, filmando Almost Deserted nos EUA. O filme com Leonardo Sbaraglia é sobre um imigrante não documentado. Será rodado em Detroit, cidade ligada aos protestos raciais dos anos 1960 e à crise da indústria automobilística nos 1980.

Percorrendo novos territórios, o diretor fala no seu compromisso de mostrar ao País o brasileiro "estrangeiro". Na Globo, tem engatilhada nova série, desenrolada na Antártida. "Com o perdão do trocadilho, o projeto está congelado, mas espero que saia. É uma série que quero muito fazer."

Querem mais? "Comprei os direitos de Dentes ao Sol e O Beijo Não Vem da Boca, de Ignácio de Loyola Brandão, mas não é para agora." Belmonte começou independente, em Brasília. Virou mainstream, na Globo. A crítica passou a ter outro olhar para ele. Em Gramado, não ganhou nada, nenhum Kikito, nem para César Mello. Não é decepcionante? "É, mas é a vantagem da maturidade. Antes eu talvez me revoltasse com a injustiça. Agora estou mais sereno em relação a isso."

Estadão
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