Jennifer Lawrence dá verdade e força a 'Inverno da Alma'
- Carol Almeida
O elemento mais luminoso de Inverno da Alma é tudo aquilo que não é dito e que não é visto. Um homem desaparecido, violências silenciadas e personagens que nos são apresentados como restos de uma história que já passou. Vemos então o que vem depois, o posfácio de uma trama cujos segredos e virtudes estão justamente nessa sutil, inteligente e pouco explorada ideia de que todo começo parte de um final. Este filme, indicado a quatro importantes categorias do Oscar 2011 (Melhor Filme, Atriz, Ator Coadjuvante e Roteiro Adaptado), é a primeira linha após o último parágrafo de um texto que você não leu. E poucas coisas são tão fascinantes como se envolver pelo desconhecido.
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Inverno da Alma sabe usar a seu favor um passado que é estranho ao espectador. Faz do discurso lacônico de seus personagens uma forma de nos manter atados a uma trama que somente aos poucos vai se revelando, no mesmo ritmo do cenário em que ele se passa: em alguma gélida área rural americana, cheia de florestas, neve e inércia. Como condutora dessa história temos a atriz Jennifer Lawrence, 20 anos de idade e uma presença que controla a cena com uma naturalidade pouco comum. A moça carrega um olhar de quem já passou por guerras, o que dá verdade a uma personagem massacrada por um isolamento forçado, a emular o comportamento de quem vive dentro de uma trincheira emocional.
Lawrence é Ree, uma jovem de 17 anos que tomou para si a responsabilidade de cuidar não apenas dos dois irmãos mais novos, como da mãe doente. Após a notícia de que a casa onde ela e sua família moram será desapropriada caso seu pai, sumido, não compareça à Corte de Justiça em uma semana, Ree promete para o xerife da região e para si mesma que em menos de sete dias acha o homem que, pelo pouco que nos é informado, fez fama manipulando, fabricando e vendendo drogas.
Naturalmente, a peregrinação de Ree não será das mais fáceis e não vai se concluir em uma semana. Nesse ambiente onde o silêncio é ouro, suas poucas pistas rumo ao paradeiro do pai a obrigam a desempenhar uma missão quase impossível: conversar. Prática da qual ela própria é pouco familiar. Importante frisar que todo o elenco, e não apenas Jennifer Lawrence, ajuda a erguer o filme como um pequeno e sincero monumento aos sentimentos mais primitivos de sobrevivência.
A verdade sobre o paradeiro do pai de Ree leva a trama para momentos de tensão que dispensam trilhas sonoras e efeitos visuais. Destemida, a protagonista é inevitavelmente levada ao ponto do tudo ou nada. No ápice de seu drama, ela nos conta sobre como é possível abdicar da dignidade em nome do amor que tem pela família e não, não é intenção do filme nos ensinar qualquer tipo de lição. Tudo isso é construído sob a luz fraca de um inverno que atinge a todos sem distinção, personagens e espectadores.