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'The Killer Inside Me' mostra mundo de gentil sociopata

18 jun 2010 - 22h21
(atualizado às 22h23)
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"Por aqui, se você não é um homem e um cavalheiro, você não é nada", afirma Lou Ford, protagonista de The Killer Inside Me. Um socipata assassino, covarde, frio e particularmente brutal com as mulheres, Lou na verdade está contando a história de sua autoaniquilação. Na superfície, uma pessoa educada e honrada - um ajudante de xerife de jeito refinado e com uma camisa branca e limpa -, Lou nos guia pelo pavoroso abismo que é sua alma.

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A cidade do Texas em que vive é um lugar - pelo menos na adaptação irregular e asquerosa que Michael Winterbottom fez do pequeno e sujo romance criminal de Jim Thompson - onde cortesias tradicionais coexistem com a energia e a corrupção do boom do petróleo dos anos 1950. (O filme acontece em 1958, seis anos depois da publicação do livro, talvez para evitar anacronismos na seleção musical.) Não que Lou, interpretado por Casey Affleck, seja um símbolo de progresso econômico ou desordem social. Como concebido por Thompson e incorporado por Affleck (Stacy Keach interpretou o personagem numa versão anterior), Lou é algo mais doente e interessante.

Num momento do filme, ele alcança uma prateleira de livros com volumes de Freud e retira uma Bíblia. Enfiado entre suas páginas está um conjunto de fotos pornográficas, aparentemente tiradas pelo pai de Lou. Essa breve cena sugere um filão de patologia rica o bastante para manter uma equipe de psiquiatras ocupada por anos, ou, como vemos, para matar muita gente.

A primeira vítima é Joyce (Jessica Alba), uma prostituta que vive na periferia da cidade e se torna um objeto de desejo masoquista da luxúria sádica de Lou. Na primeira vez que se encontram, ela esbofeteia o rosto dele, e ele bate nela com seu cinto. Daí em diante, eles insistem em êxtases eróticos secretos, pelo menos até ele espancá-la até a morte com seus punhos enluvados numa cena que traz a desagradável conotação gráfica de uma ficção barata.

Winterbottom, cineasta prolífico e camaleão, demonstra com frequência interesse em encontrar um ponto onde o artifício cinematográfico colide com a literalidade. Filmes como Caminho para Guatánamo e Neste Mundo borram a fronteira entre ficção e documentário, reconstruindo histórias reais com atores não-profissionais em locações verdadeiras. Tristram Shandy: A Cock and Bull Story finge ser um filme sobre a produção fracassada de um filme, enquanto Nove Canções é, tecnicamente, mesmo que não em espírito, um trabalho de pornografia explícita.

A brutalidade explícita de The Killer Inside Me parece buscar transgressão similar, nos impressionando com uma verdade sangrenta que outros filmes apenas sugeririam. Mas é claro que a violência não é mais real - e não menos estilizada - do que todo o restante do filme. Ela também está ligada, visual e tematicamente, às cenas provocantes e libidinosas de sexo de uma maneira que sugere um diretor primariamente preocupado em descobrir o que ele consegue fazer, sem ter certeza absoluta do que está fazendo.

Jim Thompson não teve esse problema. A narrativa em primeira pessoa de seu livro transforma um suspense tenso em um estudo de caso psicológico e uma pseudobiografia franca e enlouquecedora. Na melhor tradição dos romances criminais, a obra mistura lascívia de tirar o fôlego e um moralismo chocante - você pode se excitar, mas apenas se também estiver horrorizado - ao levar seu personagem principal do sexo devasso ao homicídio violento. No caminho, há mentiras, traições, chantagens que dão errado e uma atmosfera de depravação que é perturbadora e, por meio do incomparável talento artístico de Thompson, euforizante.

O filme de Winterbottom, escrito por John Curran, é claramente apaixonado pelo romance e procura ser fiel a seu poder duradouro e um tanto estarrecedor. Mas, embora os produtores consigam evocar a atmosfera nauseante e assustadora do mundo sufocante de Thompson, eles não conseguem descobrir como duplicar suas habilidades narrativas sem remorso. O enredo pode ficar em segundo plano com os sentimentos provocados num filme como esse, mas pelo menos ele precisa ser trabalhado de forma clara. E a narrativa do filme, que deveria se intrigantemente complicada, é só uma grande confusão. Os personagens aparecem e começam a falar - um desgastado sindicalista interpretado por Elias Koteas, um poderoso empresário interpretado por Ned Beatty, um cético agente federal interpretado por Simon Baker - e suas forçadas considerações mais obscurecem do que clareiam.

Lou, que tem uma noiva respeitável chamada Amy (Kate Hudson), também tem uma história sombria, sugerida em flashbacks confusos e conversas oblíquas, envolvendo um possível assassinato, abuso sexual e outros segredos de família. Esse histórico pode ou não explicar a queda de Lou até a criminalidade - os assassinatos que comete podem ser interpretados como um plano de vingança de longa gestação -, mas ele é explorado de uma maneira tão desajeitada e incoerente que o filme confunde e distrai quando deveria ganhar impulso e força.

Affleck, com sua voz mansa e comportamento de escoteiro sorrateiro - Eddie Haskell a caminho de estrangular um filhote no jardim dos Cleavers -, acaba sendo perfeito como Lou Ford, e sua atuação é a coisa mais eficaz em The Killer Inside Me. Seu Lou, o filho de um médico que vive numa mansão onde escuta discos de ópera e dedilha livros velhos e volumosos, frequentemente parece um garotinho experimentando roupas de adulto.

Até quando diminui sua voz para um sussurro ameaçador ou solta uma baforada de fumaça confrontadora de seu cigarro, Affleck insinua uma incerteza apavorante. E quando ele está executando os atos de violência filmados sem pestanejar, que já tornaram o filme controverso, ele parece quase tão vulnerável quanto suas vítimas. É possível sentir uma pontada de compaixão por esse monstro, um estranho e vívido personagem que merece todos os tormentos do inferno, e também um filme melhor.

Tradução:Amy Traduções

Casey Affleck estrela 'The Killer Inside Me', de Michael Winterbottom
Casey Affleck estrela 'The Killer Inside Me', de Michael Winterbottom
Foto: Divulgação
The New York Times
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