Werner Herzog conversa sobre 'Vício Frenético'
Desde sua surpreende decisão de se radicar em Los Angeles, 10 anos atrás, o cineasta alemão Werner Herzog vem sendo muito produtivo. Suas mais recentes realizações: uma versão em inglês de Conquest of the Useless, o diário que ele mantinha durante a filmagem de Fitzcarraldo, chegou à quinta edição, ele criou uma escola de cinema e dois novos longas devem estrear em breve.
O primeiro é Vício Frenético, com uma atuação radical de Nicolas Cage no papel-título. Além do mesmo protagonista, um policial servo das drogas, o filme pouco tem em comum com Bad Lieutenant, dirigido por Abel Ferra em 1992 (que Herzog alega nem ter assistido).
O novo filme está repleto de humor delirante, com misteriosos iguanas, almas dançarinas e outros toques característicos de Herzog.
O segundo filme novo do alemão é My Son, My Son, What Have Ye Done?, indicado para um Leão de Ouro no festival de cinema de Veneza - como Bad Lieutenant.
Herzog falou por telefone, de Los Angeles.
Vício Frenético parece ser um filme fora dos seus padrões. Qual foi a reação?
Nenhum dos meus outros filmes teve impacto tão direto e espontâneo sobre a audiência. Nunca. Pelo volume de risos, pode-se dizer que é um trabalho hilariante. Nunca se sabe de onde vem esse humor escuro e subversivo. Mas não é tão distante assim do meu trabalho precedente - eu nunca me acomodei. Nos últimos 11 meses, fiz três filmes, encenei uma ópera na Espanha sob a regência de Lorin Maazel e lancei a versão em inglês de Conquest of the Useless. Creio que o livro sobreviverá a todos os meus filmes. Suspeito que eu seja melhor escritor que cineasta.
Esse filme é engraçado de um jeito alucinado; mas você diz não compreender ironia.
Não compreendo. Creio que o humor (de Vício Frenético) seja algo mais, algo de subversivo. Disse a Nicolas Cage que precisávamos buscar uma coisa: o êxtase do mal. Assim, quando mais vil, quanto mais degradado você se tornar, mais terá de apreciar.
Você fotografou pessoalmente os iguanas, e os espectadores parecem estar vendo as coisas do ponto de vista deles. Você equipou os iguanas com câmeras?
Não, mas a impressão é quase essa. Eu tinha uma câmera minúscula, menor que uma caixa de fósforos, e tinha de mover a câmera a milímetros da pele dos iguanas, perto de seus olhos, e sabia que eles pareceriam muito estúpidos, e muito perplexos.
Ao dirigir a cena em que Nicolas Cage corta o oxigênio de uma velha, você instruir o ator a "soltar o porco".
Na verdade, eu disse "soltar o porco bravo". (Risos.) Ele sabia que, até determinado ponto a cena estava roteirizada, e depois precisaria improvisar, como no jazz. Foram momentos maravilhosos, porque eu sempre podia confiar em Nicolas Cage.
Você dirigiu um filme produzido por David Lynch, My Son, My Son, What Have Ye Done, que tem por base um caso real de matricídio.
Na verdade a produção não é dele; ele apresenta o filme e tem crédito como produtor executivo... Fui apresentado ao pessoal de uma empresa criada com base na produtora de David Lynch, e queria fazer o filme. David soube disso. E nós respeitamos muito o trabalho um do outro. Ele me perguntou quais eram meus planos e eu respondi que achava que deveríamos fazer filmes de baixo orçamento mas com ótimas histórias e os melhores atores. É assim que se deve agir em momentos de crise, quando as finanças estão degringolando. E ele foi muito encorajador. Disse que gostaria de participar do processo, ainda que não tenha influenciado (o filme). Lynch foi um companheiro muito agradável, um simpatizante.
Você está criando uma escola de cinema.
A Escola do Cineasta Renegado. (Risos.) Claro que não tem nada em comum com uma escola de cinema convencional. É mais uma questão de atitude. O objetivo é mais encorajar as pessoas a sair em busca de seus sonhos. E eu as encorajo a ler. Minha lista de leitura recomendada inclui Geórgicas, de Virgílio, e poesia islandesa do século 12.
Você vive e trabalha em Los Angeles, mas não está integrado ao sistema de Hollywood. Tem uma forma paralela de operar.
Na verdade, eu vivo e trabalho nos locais de filmagem. (Risos.) Mas adoro estar em Los Angeles, porque creio que seja a cidade com mais substância nos Estados Unidos. Todo mundo pensa sobre o glamour e brilho de Hollywood, mas isso não importa. A cidade tem muita substância. Quanto à segunda coisa, eu sempre considero que faço cinema comercial, convencional. Aguirre é convencional, Fitzcarraldo, Stroszek, Rescue Dawn, Grizzly Man, pode escolher, são todos filmes convencionais. Estou no centro. Meus filmes sempre tiveram narrativas maravilhosas e personagens malucos. E até crianças de cinco anos os adoram. Não creio que eu exista em uma espécie de universo paralelo ao de Hollywood. Na verdade, creio que comparados a mim todos os demais cineastas sejam excêntricos.