Emicida fala sobre a MTV e a chegada da primeira filha
Confira a continuação da entrevista com o rapper Emicida e assista ao videoclipe
Triunfo, que concorre em três categorias no VMB 2009.
» Rapper Emicida fala sobre a expectativa para o VMB
Você lançou um disco e conseguiu vender bem no boca a boca em uma época em que a indústria fonográfica afunda. Você acha que o formato do CD morreu?
Como a gente quer popularizar nosso som, acho que vender barato é uma saída. O CD não morre tão cedo, apesar de ter um preço inviável. O iPod vai morrer antes, os celulares já vem com as funções dele, mas as pessoas ainda precisam de um formato físico. Quantos porcento do Brasil têm acesso à internet? 20%? 30%? Então tem muito mais gente para alcançar ainda.
No teu disco uma coisa que se destaca são as referências diversas. Nas suas letras você usa frases de outros artistas, fala de cinema, literatura, televisão, videogames. Onde você busca esses elementos?
Antes eu não escrevia rap assim. Mas eu via caras como o Marechal, SP Funk, Black Alien, e eles tinham outras metáforas, então fui buscar outras coisas. E agente está em São Paulo, então mesmo que não queira é bombardeado por informação de todos os lados. E eu sempre gostei de ler e isso vai parar nas minhas rimas. Não entendo profundamente de nada do que eu falo, a não ser de história em quadrinhos. Se você quiser discutir sobre o Batman a gente fica 3 horas aqui, edição por edição (risos).
E o que você acha de atingir um público que não é exatamente o público que ouvia rap?
É isso que tem que acontecer. A gente faz música. Eu acredito no que eu falo, então quero falar pra todo mundo, não só pra um grupo. Eu não tenho essa parada de playboy, favela. Minha mãe trabalhava de empregada no bairro onde eu moro. Desde pequeno eu convivo com essas duas realidades e comecei a ver que são pessoas. Quem nasceu aqui não pode condenar quem nasceu na favela e vice-versa. É melhor que eles se entendam, porque se fica um com medo do outro... Falta comunicação para ver que elas são muito parecidas.
E esta divulgação da MTV aumentou o assédio de fãs? Como você lida com isso?
Na real já tinha isso. Já vinha gente tirar foto. Eu vivo em um estágio bem louco, porque não sou famoso mas também não sou desconhecido. Por exemplo, eu estou no metrô lotado e tem um cara que me reconhece, mas não acredita que eu ando de metrô, ou de ônibus. Mas a TV tem esse poder mesmo, e todo mundo acha que eu estou milionário. É bom porque agora os caras não tem mais coragem de pedir show de graça. Afinal, estou na TV! (risos).
Você já ouviu que está "se vendendo" depois que apareceu na MTV e em outros veículos?
Quando eu comecei a ouvir isso não tinha nem essa parada de televisão. Ouço que sou vendido há uns dois anos. A Nike coloca 'A Rua é Noiz' no tênis, aí fazem fórum na internet A Nike fez uma edição especial de um tênis com uma das frases de Emicida, "A Rua É Noiz" estampada na lateral do calçado). E o pior é que esses caras só falam. Se eles fossem contra o capitalismo mesmo, não estavam na frente do computador, iam para o mato.
Quando você viu que conseguiria viver só de música?
Já fui pedreiro, pintor, já vendi hot-dog, já fui assistente de estúdio, já fui artesão, trabalhei um tempo com ilustração de livros infantis, hoje eu me dou ao luxo de fazer só a minha música. Chega um momento em que a vida te pergunta qual escolha você quer fazer. Eu tinha me acostumado a fazer música por hobby, porque todo mundo fala que está ruim, que está em crise. Eu pensava "Eu não vou ser o cara sortudo que vai conseguir viver de música". Eu estava estudando design e escrevia minhas rimas. Aí as datas começaram a bater, tinha show quinta, sexta, sábado domingo, aí tive que largar as outras coisas.
Você percebe que a MTV está apostando em você, afinal um artista totalmente independente com três indicações no VMB não é tão comum...
Todo mundo quer colocar a gente nas paradas agora para falar depois que deu uma força quando eu não era nada. Só que eu já não sou nada faz tempo. Mas só agora estamos aparecendo para esses caras. Ia ser complicado a Music Television não saber que o Emicida existe. Nós temos um milhão de visualizações no Youtube. No MySpace a gente perde somente para os gringos. Fazemos show toda semana. Quem movimenta a cena é a gente, o Kamau... Então não sei se é bem uma aposta. É claro que eu gosto, agradeço os caras por este espaço, se rolarem outras coisas vamos fazer, mas eu sei que meu trabalho chegou onde já chegou não foi por causa disso.
E como estão os planos para um novo disco? Ele vai ser distribuído da mesma forma?
A gente deve entrar em estúdio no final do ano. Com tudo inédito, não tem nada que já saiu. Eu fico puto quando pego um disco e tem algo que eu já ouvi. Mesmo se vazou na internet, tira essa e coloca outra. As gravadoras estão ligando, vamos ver o que vai dar para fazer. Minha maior deficiência é na distribuição, e isso para mim é interessante. Eu quero conseguir um esquema de distribuição, mas com um preço justo, de R$ 10, que não é o ideal, mas o máximo.
Você vai ser pai pela primeira vez a primeira filha do rapper nasce em fevereiro. O que isso muda na tua vida e na tua carreira?
Muda tudo. Eu estou achando bem tranquilo, se fosse em outra fase da minha vida eu ia estar bem desesperado. Mas estou em paz, estou conseguindo administrar. Queria poder curtir mais a gravidez, mas por contas das viagens não consigo estar perto dela o tempo todo.
Mas vou manter o ritmo. Trabalho com algo que eu gosto, então não vai ser algo difícil. Acho que na só acrescenta, é uma das melhores coisas que aconteceu na minha vida e vai mudar como eu vou ver as coisas. Então devem sair uns raps sobre trocar fralda (risos).
Emicida se apresenta neste sábado na Funhouse, durante festa do site Urbanaque, a partir das 23h. Os ingressos custam de R$ 5 a R$ 15.