“Sou apaixonado por arrocha”, diz vocalista da Holger
5 jan
2013
- 22h28
(atualizado às 22h28)
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Eles se conheceram na época da escola. Fãs de música, mas principalmente de indie rock, começaram a tocar meio que despretensiosamente. Alguns anos depois, já eram uma das bandas mais bem sucedidas da nova cena paulistana. E aí foi um pulo para que ultrapassassem as fronteiras do estado de origem e se tornassem referência em outras partes do Brasil e no exterior - o que inclui passagens por grandes festivais, como o brasileiro Planeta Terra e o gringo South by Southwest, nos Estados Unidos.
Agora a Holger acaba de lançar seu segundo disco, Ilhabela, e, de certa forma, mostra uma guinada na curta carreira. No álbum que sucede Sunga, de 2010, o quinteto privilegia as canções em português e mostra uma sonoridade bem brasileira, com influências que vão da arrocha a Fábio Jr. Mas arrocha? Sim, pelo menos é o que garante Marcelo Altenfelder, ou simplesmente Pata, que toca baixo, guitarra, percussão e canta na banda - completam o quinteto Arhtur Britto, Bernardo Rolla, Pedro Pepe e Marcelo Tché, todos multiinstrumentistas. “Há um mês eu estive em Maceió e comprei 40 CDs de arrocha. Sou bem apaixonado”, confessou o músico de 25 anos enquanto comprava maçanetas e era entrevistado por telefone pelo Terra em uma tarde de quinta-feira.
Segundo ele, Ilhabela, que pode ser baixado gratuitamente na internet, tem ainda influências que passam por bandas de metal independente, Clube da Esquina, Tom Zé, Guilherme Arantes e Chiclete com Banana, entre outras. “É muita coisa para a qual primeiro a gente torceu o nariz e depois viu o quão rico era”, disse. E privilegiar o português também faz parte desse processo de “libertação”. “Português é muito real, você canta o que você fala. Não tem nenhuma barreira, então é como se você estivesse nu”, refletiu. Para ele, a banda cresceu com as experiências na estrada, e o segundo álbum é reflexo disso. Durante a entrevista, ele disse até que não é um grande fã do primeiro disco: “não é uma coisa que me atrairia muito. Hoje em dia eu sou muito mais fã do trabalho novo”.
Estudante de medicina, Pata revelou ainda que não tem muitos planos para o futuro da Holger. “A gente quer dar o nosso melhor e deixar as coisas acontecerem. Conforme vai tendo resposta de público, a gente vai dando um passo pra frente. Não temos pressa de crescer”, garantiu. E disse ainda que pretende diminuir o ritmo de shows. “Quero gravar mais, quero que a gente componha mais, quero que a gente lance um EP só de música eletrônica esse ano, quero estar mais focado em produção e criação”, explicou.
Na entrevista a seguir, Pata fala das mudanças por que a Holger passou, do novo álbum, do processo de composição, da importância que a Casa do Mancha (espaço na Vila Madalena onde Mancha, agitador cultural conhecido no circuito independente paulistano, promove shows) teve e tem para a banda, das experiências no exterior e do "plano" de tocar no Faustão - a banda disse uma vez no Twitter que o disco novo iria levá-los para o programa dominical. Confira.
Quais são a inspirações do Ilhabela?
Esse novo álbum é inspirado no que a gente viveu, no que a gente cresceu na estrada e também como pessoa, no que a gente cresceu na vida mesmo. Foi um passo a mais pra gente assumir o que a gente é e buscar uma identidade nossa.
Que identidade é essa?
Eu não saberia dizer exatamente, mas na verdade só o fato de a gente estar cantando em português já tira uma barreira de tradução, em que eu poderia talvez esconder alguma coisa. É muito mais real. A gente quis ousar, tentar dar um tiro maior, porque a gente pensou “se a gente tá fazendo música, isso tem que valer a pena” e, pra valer a pena, a gente tem que se arriscar. Não dá pra ficar sempre na zona de conforto.
Por que compor em português é se arriscar? É mais difícil?
Eu não diria que é mais difícil. Acho que é muito relativo se é mais fácil ou mais difícil, mas em português é muito real, você tá cantando o que você fala. Não tem nenhuma barreira, então é como se você estivesse nu.
Então por que vocês optaram pelo inglês no primeiro álbum?
A gente fez a banda pra tocar o som que a gente ouvia no fone de ouvido no colégio. A gente ouvia muito rock, indie rock, só que isso mudou com o tempo e a gente começou a ouvir muita música brasileira. E, quando a gente viu, não fazia tanto sentido a gente cantar em inglês, sendo que a gente tava ouvindo mais coisas em português. Foi quando a gente tentou essa mudança.
O que vocês têm ouvido de música brasileira?
Putz, tanta coisa de gêneros diferentes... Metal independente, coisa antiga do Clube da Esquina, Guilherme Arantes, Tom Zé... São as influências mais variadas, passando até por Lulu Santos, Fábio Jr., Fagner, Chiclete com Banana...
Axé também?
Sim, sim, axé foi uma parte bem importante ao se fazer o disco. A gente pesquisou muito, procurou sugar o máximo daquilo. São coisas para as quais a gente primeiro a gente torceu o nariz e depois a viu o quão rico eram.
E a experiência na estrada, como influenciou o disco?
Na estrada, acontece que você vê muita banda, toca com muita banda. E esse contato tem grande influência. Fora as experiências que você vive, de ter uma vida nômade, com menos regras, viajando, essas experiências novas.
Como foi a experiência de tocar em grandes festivais?
Foi uma experiência muito enriquecedora e, principalmente, divertida. A gente se divertiu a cada instante, conheceu gente legal, viu paisagens lindas, leu, ouviu, música... Tudo isso é muito forte, e é uma convivência durante quatro meses no dia a dia com as mesmas pessoas.
Compondo em português, vocês não temem que possa diminuir essa atenção que vinham tendo fora do Brasil?
O público gosta de ver coisas quando são feitas de verdade, feitas com o coração. Se a gente fizer o que o nosso instinto tá mandando durante o processo de composição, acho muito mais provável que o público abrace isso do que se a gente fizesse algo que nós mesmos não ouviríamos. Nosso público cresce com a gente, e a gente cresce com o nosso público.
Você não ouviria o primeiro álbum da Holger?
Ouviria. Mas não sei, não é uma coisa que me atrairia muito hoje. Hoje em dia eu sou muito mais fã do trabalho novo.
Como foi o processo de composição?
A gente se juntava diariamente por 12 ou 14 horas e ficava fazendo música, a maioria das vezes ou na minha casa ou na Casa do Mancha. E a gente ficava fazendo jams de horas e horas. Depiois a gente se juntava, ia no computador e selecionava as partes que a gente achava mais interessantes. As letras vieram depois. Mas assim, quando a sua cabeça adquire o ritmo de criar todo dia, o corpo inteiro muda, tudo fica voltado para aquilo. E foi diferente do Sunga, que a gente criou em um ano. Esse a gente criou em menos de dois meses. E era todo dia criando. Então a gente começava a tirar influência das conversas, de tudo.
Então a Casa do Mancha teve um papel importante nesse processo de composição...
Teve. Teve e tem. Tanto o Mancha como a Casa acompanham a gente desde antes de a gente lançar nosso primeiro EP. A Casa do Mancha é o lugar em que a gente mais tocou, o lugar em que a gente compôs o disco novo. É um lugar onde a gente encontra banda, onde a gente vê banda, é um lugar fundamental pra gente.
Como vocês conheceram o Mancha?
Eu nem lembro direito, acho que faz uns cinco anos. Ele tinha acabado de abrir a casinha pra shows, quando ele ainda morava lá, e veio um convite pra gente tocar lá. A gente tocou, conhecemos ele por cima, depois tocamos de novo, conhecemos um pouco melhor e, a cada vez que a gente tocava, a gente ia virando mais amigo. Hoje em dia a gente é super íntimo.
Qual foi o melhor momento da banda, na sua opinião?
Espero que ele não tenha acontecido ainda. Sempre espero que ele venha, mas tivemos ótimos momentos... Momentos em que a gente tava criando, quando a gente tocou no Planeta Terra, há dois anos, momentos em turnê fora do Brasil... Eu não sei, eu acho que todo momento em que a gente tá junto, a gente tenta fazer o melhor momento. Então é com bastante carinho que eu guardo cada show, cada viagem...
E como é essa convivência intensa durante as viagens? Não rolam brigas?
Rolam, rolam. Ao mesmo tempo em que é uma delícia, é sufocante, né. São quatro namoradas que você não escolheu, cada uma com a sua mania e a sua loucura. E o pior de tudo é que a gente vai dormir junto, provavelmente. Se estiver em turnê fora do Brasil, a gente divide a mesma cama. Então a verdade é que a gente se gosta muito, porque senão a gente já teria brigado muito mais feio. Mas é uma convivência muito intensa, e isso acaba refletindo na nossa música e no nosso show. A gente é muito amigo, se gosta muito, é como se fosse família.
Onde vocês mais gostam de tocar?
Na Casa do Mancha, sem dúvida. Mas é sempre legal em festivais grandes de música, como o Lollapalooza do ano que vem, que a gente vai tocar, e o Terra em 2010.
Depois do segundo álbum, quais são os planos de vocês?
Ah, continuar divulgando o álbum. Mas, na verdade, a gente quer que as coisas aconteçam naturalmente, a gente não quer forçar a barra de nada. A gente quer dar o nosso melhor e deixar as coisas acontecerem. Conforme vai tendo resposta de público, a gente vai dando um passo pra frente. A gente não tá com pressa de crescer, a gente quer fazer as nossas coisas, só isso.
E o plano de ir pro Faustão?
Ah, isso é uma brincadeira! Mas, se pintar o convite, a gente super topa, não tem por que não. A gente quer que nossa música atinja pessoas diferentes. A gente quer que um avozinha ouça e aquilo toque ela de alguma maneira e alguém que toque guitarra ouça e saque o trabalho que a gente teve fazendo as guitarras do disco. A gente quer que seja um disco bastante universal. Então, se vier um dia o convite pra tocar no Faustão, seria uma ótima maneira de testar o som para uma massa maior. Não é um sonho, mas eu adoraria.
Você já falou de várias referências antigas, como Chiclete com Banana e Fábio Jr. Das novas bandas, o que você curte?
Tem o Dorgas, o Garotas Suecas, todo o pessoal da Avalanche Tropical... E eu tenho que confessar que tenho ouvido mais rap e música eletrônica ultimamente, então... House novo house... Mas eu acabo diversificando muito, porque ouço muito rádio no carro. Sou paulistano, então pego muito trânsito.
Que rádio você ouve?
Eu gosto de Antena 1, Iguatemi Prime e rádios de esporte.
Pra que time você torce?
São Paulo. Ah, mas eu também gosto de ouvir pagode no rádio, arrocha. Há um mês eu estive em Maceió e comprei 40 CDs de arrocha. Sou bem apaixonado. Gosto de Garota Safada, Cavaleiros do Forró...
E seus amigos não reclamam quando pegam carona?
Dependendo da pessoa, reclama. Mas é tão contagiante que, depois de dar uma recriminadinha, a galera já começa a balançar. E é isso que eu quero: música pra balançar. Tamanha a ignorância de quem não consegue ver valor nisso tudo. É um baita movimento musical e tem gente que ignora completamente, o que é uma pena. Mas tem também muita gente não ignora. Seria muita prepotência achar que a massa ignora, porque não é assim. Isso é gigante e por mim tem que ser maior ainda.
Qual foi o melhor show que vocês já fizeram?
Ah, não sei. Não sei. A gente já fez muito show que deixou a gente feliz... Em Pindamonhangaba, anos atrás, teve milhares de show na Casa do Mancha... É tão difícil, porque cada show é uma experiência tão forte, tão marcante. Pelo menos essa é a maneira que a gente vê, e a gente quer ver mais. A gente só quer fazer se for nos enriquecer muito de alguma maneira. Talvez a gente diminua um pouco o ritmo de shows, mas a gente quer fazer shows com impacto muito grande.
Por que diminuir o ritmo?
Não sei. Porque tem um monte de coisa pra fazer também. Quero gravar mais, quero que a gente componha mais, quero que a gente lance um EP só de música eletrônica esse ano, quero estar mais focado em produção e criação. A gente quer executar os shows, lógico, mas queremos fazer outras coisas também.
Você estuda medicina. Pretende ser médico ou músico?
Sei lá, eu vou levando dia a dia, fazendo o que der pra fazer. Mas ser médico eu já tô quase sendo, músico eu já sou há alguns anos. Daqui pra frente, não sei, deixa acontecer naturalmente.
Que especialidade você pretende seguir na medicina?
Psiquiatria.
Você está em casa agora?
Não, estou na rua. Comprando maçanetas.
Ah, acho que podemos terminar então. Tem algo mais que você gostaria de dizer?
Ah, espero que quem ouvir o disco se divirta. Ouçam na estrada.
É um disco para ouvir na estrada?
Acho que na estrada ou no fone. Ou num churrasco. Em algum momento gostoso.
Fonte: Terra