Anne Bourgeois inova na cenografia de 'Amor Eterno Amor'
- MARIANA TRIGO
Mais difícil que criar cenários de época é inovar em ambientes contemporâneos. Esta é uma frase corriqueira para boa parte dos cenógrafos de televisão, como Anne Bourgeois, que assina a cenografia de Amor Eterno Amor, da Globo. Uma das principais características da profissional, contratada pela emissora há mais de 18 anos, é tentar entender exatamente as necessidades dos diretores. Como trabalha com o diretor Rogério Gomes - Papinha - há tempos, ambos decidiram criar tetos nos cenários para ficarem mais realistas e poderem ser enquadrados, além de fechar as bocas de cena. Ou seja, em um cenário quadrado, por exemplo, um dos lados não tem parede. Esse lado, chamado de boca de cena, é onde ficam as câmaras.
Com várias paredes fechadas, os diretores podem fazer o enquadramento que quiserem, de diversos ângulos. Além disso, nos ambientes de tramas atuais, a decoração precisa se destacar de acordo com a personalidade e o estilo de cada personagem. É o que ocorre por todos os cenários da produção e se estende pelos núcleos mais pobres, como o Edifício São Jorge, construído na cidade cenográfica da trama. "Mais difícil ainda é desenvolver as plantas, os apartamentos pequenininhos do edifício São Jorge e os cenários grandes, sem boca de cena", explica Anne.
No robusto edifício São Jorge, xodó da cenógrafa, a inovação esteve presente desde o início da construção, em novembro do ano passado. Inspirado no conjunto habitacional Minhocão, um gigantesco prédio de design sinuoso que fica em cima do Túnel Acústico da Gávea, na Zona Sul do Rio de Janeiro, o prédio da trama de Elizabeth Jhin também tem referências a um edifício da China habitado por 5 mil pessoas. Na construção no Projac, o Edifício São Jorge foi erguido com materiais verdadeiros. No prédio, Anne usou pastilhas, mármores e acabamentos reais, o que não costuma ocorrer em construções cenográficas. Na frente do edifício existe um imenso painel de "chroma key", onde são projetadas imagens do bairro da Glória, também na Zona Sul carioca. "Normalmente usamos muita plotagem no lugar de materiais de acabamento, como azulejos. No prédio, tudo é de verdade. Lá os moradores fazem churrasco na varanda e levam a casa para fora do espaço dela", destaca Anne.
Nos demais cenários da história, Anne pincelou ambientes integrados e com tendências contemporâneas, como as cozinhas que são contínuas aos livings e a espaçosa redação da fictícia revista "Cena Contemporânea". Na casa da vilã Melissa, de Cássia Kiss, a cozinha e a área de serviço é toda integrada com a sala, o que também facilita para os diretores encontrarem diversos locais para colocar câmaras e cria um volume entre os ambientes. "Sempre fui mais uma profissional de projetos, de desenhar. Minha especialidade são as plantas. Nem sei quantas novelas eu fiz porque pulava de uma para outra projetando as plantas dos cenários", diverte-se Anne.
Na trama, que começou com 45 cenários definidos e agora são mais de 50, a cada semana a cenografia é convocada para produzir novos espaços, como delegacias, hospitais, quarto de um novo personagem que entra na história, etc. "Fazemos estes projetos com uma velocidade que nenhum escritório de arquitetura consegue. Tudo é muito dinâmico. Um dia estamos talhando uma igreja barroca e, no outro, fazendo um edifício", valoriza a cenógrafa que compõe cada ambiente em parceria com o diretor de fotografia de cada novela. "Se eu não tiver muito afinada com ele, com a luz que ele está imaginando, pode acontecer um empecilho no meu trabalho ou no dele", observa Anne, que por anos foi assistente de Mário Monteiro, principal cenógrafo da emissora.