Há duas décadas, 'Anos Rebeldes' abordava a ditadura na TV
- Geraldo Bessa
Idealizada para contar o período de ditadura militar no Brasil, Anos Rebeldes promoveu um encontro inédito até então entre a teledramaturgia e a história política recente do País. Ambientada no Rio de Janeiro entre 1964, ano do golpe que instaurou o governo militar, e 1979, ano da lei da Anistia, a minissérie foi inspirada nos livros 1968 - O Ano Que Não Acabou, de Zuenir Ventura, e Os Carbonários, de Alfredo Sirkis. Escrita por Gilberto Braga, a produção mesclou de forma romântica e amenizada fatos da época, como censura, torturas, movimento estudantil, moda, música e todo o fascínio em torno dos anos 60. "Não queria dar aula de História e evitei o tom didático e partidário. A base da trama era a convivência entre os que estavam na luta armada e os alienados políticos. Ironicamente, o lançamento deste trabalho foi no momento mais propício", explica Gilberto.
Coincidência ou não, lançada em julho de 1992, a minissérie de 20 capítulos estreou em meio à crise do governo de Fernando Collor de Melo, primeiro presidente eleito por voto direto em quase trinta anos e que, no mesmo ano, viria a renunciar para não sofrer um "impeachment". "A política era o principal assunto nacional. Foi emocionante. A minissérie estava em total sintonia com o público", analisa Ricardo Linhares, colaborador da trama.
Espécie de continuação de Anos Dourados, minissérie de 1986 que retratava os anos 50, Anos Rebeldes bisou a participação de Malu Mader no posto de protagonista. Na trama, Malu era Maria Lúcia, jovem traumatizada pelas histórias de seu pai, Orlando, de Geraldo Del Rey, um famoso jornalista ligado ao partido Comunista. No entanto, ela acaba apaixonando-se pelo inquieto João Alfredo, de Cássio Gabus Mendes, jovem da classe média carioca totalmente envolvido com as questões político-sociais do país. "Essa paixão é o grande contraponto da trama. Ela não quer saber de ideologias políticas e militância. Quer apenas uma vida tranquila e pacata", destaca Malu.
A partir da história de amor, a minissérie entrelaça outros personagens importantes, como Heloísa, de Cláudia Abreu, Galeno, de Pedro Cardoso, e Edgar, de Marcelo Serrado, amigos de escola de Maria Lúcia e João. Todos às vésperas de se formarem no antigo científico do Colégio Pedro II. "São jovens em fase de transição para a vida adulta. Além dos anseios profissionais e sentimentais típicos do período, a postura política também era uma decisão importante", ressalta Cássio Gabus Mendes.
Do grupo de jovens, o destaque ficou para Cláudia Abreu e a transformação de sua Heloísa. Filha do banqueiro Fábio, de José Wilker, e da dona de casa Natália, de Beth Lago - em seu primeiro trabalho como atriz -, a jovem fútil e mimada tornou-se símbolo da rebeldia contida no título da minissérie. "De repente, ela encontrou uma causa pela qual valeria a pena lutar. É uma personagem de caracterização e cenas muito fortes. Por isso, ainda está bem viva na memória do público", acredita Cláudia. Na época, recém-saída de Barriga de Aluguel, a atriz já estava escalada para protagonizar outra novela na emissora, mas declinou do convite para participar de Anos Rebeldes.
Com direção-geral de Dennis Carvalho, a maior dificuldade técnica da minissérie foi retratar com rigor a década de 60 em figurinos, caracterização e cenários. "Foi minha primeira vez em uma produção de época. Sabia da importância do projeto e queria que tudo desse certo. Para minha sorte, o público se identificou, a emissora investiu e tínhamos um elenco afinado com a história", relembra Dennis. A relação de alguns atores de Anos Rebeldes com os anos de ditadura era mesmo forte. Nomes ligados aos movimentos de esquerda, como Bete Mendes, e os finados Francisco Milani e Gianfrancesco Guarnieri, chegaram a ser presos pelos militares, acusados de subversão. "Era necessário falar sobre a ditadura. A minissérie se tornou uma referência sobre a época e repercute ainda hoje em suas reprises", valoriza Bete.