Aluna da USP suspeita de golpe na formatura: MP se manifesta contra pedido de prisão preventiva
Promotor pediu retorno do inquérito para delegacia por entender que crime cometido foi de estelionato e não apropriação indébita
O Ministério Público do Estado de São Paulo (MP-SP) se manifestou contra o pedido de prisão preventiva da estudante Alicia Dudy Muller Veiga, aluna da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) suspeita de desviar quase R$ 1 milhão arrecadado pelos colegas para a festa de formatura da turma que terminará o curso em 2023.
O pedido de prisão havia feito pela Polícia Civil após a conclusão do inquérito na qual a jovem foi indiciada por apropriação indébita pelos nove saques que fez da conta da empresa de formatura contratada pelos estudantes para fazer a arrecadação.
O MP-SP, porém, teve entendimento diferente da Polícia Civil sobre o tipo de crime cometido. Para o promotor Fabiano Pavan Severiano, as condutas de Alicia configuram crime de estelionato e não apropriação indébita. Em nota divulgada nesta terça-feira, 31, o MP esclarece que, nos casos de estelionato, a lei exige representação criminal das vítimas para que seja feita a denúncia à Justiça contra o autor do crime.
Por isso, o MP-SP diz ter se manifestado nos autos do inquérito policial solicitando o retorno do inquérito à Delegacia de Polícia "para que se proceda a colheita de representação criminal das vítimas em desfavor da averiguada, bem como para que discrimine de forma individual o prejuízo suportado por cada uma delas."
Questionada sobre a conduta do MP-SP, a Secretaria de Segurança Pública, à qual a Polícia Civil está subordinada, informou que "o 16º Distrito Policial (Vila Clementino) foi informado sobre a decisão judicial e que "a equipe da unidade aguarda o retorno do inquérito policial para o cumprimento das requisições solicitadas pelo Ministério Público".
Entenda o caso
Presidente da comissão de formatura da turma 106 da FMUSP, Alicia informou os colegas no dia 6 de janeiro que perdeu todo dinheiro que vinha sendo arrecadado desde 2019. Inicialmente, ela disse que havia aplicado a quantia na corretora de investimentos Sentinel Bank e levado um golpe da instituição financeira.
Ela teve acesso ao dinheiro da turma ao solicitar a transferência para sua conta pessoal do recurso que estava sob gestão da empresa Ás Formaturas, contratada pelos estudantes para cuidar da arrecadação.
Os saques começaram em 2021. Os estudantes dizem quem ela deveria ter comunicado outros membros da comissão sobre as transferências, o que não foi feito.
Dias depois do anúncio, os alunos descobriram que ela era investigada pela Polícia Civil por lavagem de dinheiro e estelionato após um suposto golpe em uma lotérica da zona sul. De acordo com a investigação, ela teria gasto mais de R$ 400 mil em apostas na Lotofácil entre abril e julho de 2022. Na última data que esteve na lotérica, tentou apostar mais de R$ 800 mil de uma vez, mas não pagou. Ela deu prejuízo de R$ 192 mil para o estabelecimento, que registrou a ocorrência.
No dia 19 de janeiro, em depoimento à Polícia Civil, a estudante afirmou que, na verdade, fez aplicações em ações no Nubank e Banco do Brasil, mas que teve prejuízo e, no desespero, usou o restante do valor para jogar na loteria e tentar reaver o dinheiro perdido. Admitiu ainda que parte da quantia foi gasta com despesas pessoais, como aluguel de apartamento, locação de carro e compra de um iPad. A reportagem tentou contatar Alicia para comentar as acusações e indiciamento, mas não obteve retorno.