Eletrobrás deve pagar dividendos retidos nos anos 70 e 80
A Eletrobrás deve pagar neste ano aos acionistas dividendos retidos nas décadas dos anos 1970 e 80, afirmou o presidente da estatal, José Antonio Muniz.
"Estou apostando que neste ano pagamos esse dividendo", disse Muniz em entrevista exclusiva à Reuters na noite de quinta-feira, na sede da companhia. "O dinheiro para pagar os dividendos está em caixa. Estamos trabalhando para pagar neste ano", reforçou, após ser novamente perguntado sobre o tema.
A Eletrobrás reteve dividendos que deveriam ter sido pagos aos donos de ações ordinárias, para a realização de investimentos. Cerca de um quinto dos dividendos refere-se à parcela de acionistas minoritários.
Muniz descartou que a emissão de bônus global em andamento - uma operação de US$ 600 milhões a US$ 1 bilhão - seja para pagar os dividendos, afirmando que o dinheiro irá para o fundo de investimentos das subsidiárias da holding.
Segundo o diretor financeiro e de Relações com os Investidores da Eletrobrás, Astrogildo Quental, dos cerca de R$ 10 bilhões em dividendos retidos, de R$ 4 bilhões a R$ 5 bilhões serão pagos em dinheiro e o resto em ações.
"Queremos equacionar o problema este ano. A intenção é resolver o quanto antes, nos próximos dois meses de preferência", comentou Quental. Se a capitalização ocorrer, o free float da Eletrobrás subirá de cerca de 20% atualmente para algo em torno de 25%, segundo Quental.
O Tesouro Nacional e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico Social (BNDES) possuem 80% do capital da holding do setor elétrico. Segundo o diretor, o BNDES já concordou em receber os dividendos devidos em dinheiro e em ações. A empresa negocia agora com o Tesouro.
"O BNDES poderá colocar essas ações que vai receber para serem vendidas no mercado", observou Quental.
Superávit
Muniz defendeu a retirada da Eletrobrás do cálculo do superávit primário brasileiro, ou pelo menos a flexibilização da contribuição da estatal para a economia que o país faz para o pagamento de juros da dívida pública.
Ele disse que está em conversas com o governo e que há boas chances de a empresa conseguir "pelo menos uma flexibilização", para poder lançar mão dos recursos em caixa - que no final de 2008 somavam R$ 13 bilhões.
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, já se manifestou contrário a ideia de retirar a Eletrobrás do cálculo do superávit. "O Mantega disse que precisamos melhorar a gestão, melhorar resultados, isso nós já estamos fazendo, então entendemos que devemos sair do superávit", afirmou Muniz.
O presidente da estatal destacou que a liberação da Eletrobrás do superávit é fundamental também para os investimentos de subsidiárias da holding. "Estamos trabalhando em mais de 40 mil megawatts no Brasil e vamos participar das grandes usinas que serão licitadas, como Belo Monte e Tapajós."
Muniz disse que gostaria de ver o Sistema Eletrobrás coeso nos próximos leilões de hidrelétricas, mas admitiu que se o acionista majoritário - a União - quiser, as geradoras do grupo poderão participar de vários consórcios, "até quatro", para garantir competitividade nas licitações.
Ele espera que o preço da energia do próximo leilão programado, da usina de Belo Monte, previsto para 30 de setembro, fique abaixo dos R$ 70 por megawatt. Ainda no Brasil, a Eletrobrás pretende escolher no segundo semestre a cidade do Nordeste que receberá duas usinas nucleares de 1 mil megawatts cada, ao custo unitário de US$ 5 bilhões.
Exterior
A Eletrobrás também tem planos no exterior, mas Muniz ressalta que os projetos ainda estão em estudo. O negócio mais avançado, segundo ele, é a usina hidrelétrica de Garabi, no rio Uruguai, em parceria com a Argentina.
"Estamos revisando a viabilidade. Por questões ambientais e problemas sociais, estamos evoluindo para um conceito de construir duas usinas que vão dar 2.900 megawatts, este é o mais avançado de todos", informou.
A construção de hidrelétricas no Peru, que enfrentam críticas locais por algumas estarem em regiões indígenas, ainda depende de estudos de viabilidade.
"O governo peruano tem que criar condições para darmos sequência a esses projetos", explicou, afirmando que "não existe pressa" para a construção das usinas. "Ninguém vai começar obra para depois parar", completou.
Uma usina de 160 megawatts na Nicarágua também está nos planos da estatal brasileira, um pedido do governo daquele país ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.