Empresários investem milhões na compra de terras para formar 'corredor' de preservação no Pantanal
Entre aquisições e parcerias com fazendeiros, grupo denominado 5P já conseguiu reunir um total de 5,3 mil km² nos quais estão proibidos culturas que degradam solo e rios, como a soja
Enquanto a preservação da fauna e da flora não faz parte dos projetos prioritários dos governos brasileiros, grupos de pessoas que incluem empresários, banqueiros, médicos e até um ex-piloto de corrida tentam, por conta própria, garantir a conservação do Pantanal comprando fazendas na região para preservá-las. O foco são áreas estratégicas para o bioma que estão sob algum grau de ameaça.
Com compras diretas, doações para aquisições por terceiros e adesão de fazendeiros locais, que assumem compromissos de preservação, o grupo contabiliza, até agora, 536 mil hectares (5,3 mil km²) onde não entram culturas que degradem solo e rios - como o plantio de soja -, pesca predatória, caça de animais e desmatamento. Também há o compromisso de criar brigadas para evitar ou combater incêndios.
A área equivale a três vezes e meia a cidade de São Paulo. De todo o Pantanal, representa uma fatia de 3,5%. A conservação desse território envolve dois grupos organizados que compram ou administram propriedades privadas. Um deles é chamado de Aliança 5P (de pantanal, preservação, parcerias, pecuária e produtividade), que atualmente reúne 12 fazendas formando um dos maiores corredores privados de vida selvagem do mundo.
Raquel e seu marido, o administrador Irllau Machado, já tinham histórico de comprar áreas para fins de preservação. Em 2008, eles adquiriram um sítio em Porto Feliz (SP). Ela conta que ficou chocada ao tomar posse da área e encontrar um papagaio preso em uma gaiola, deixado pelo antigo proprietário.
Buscou ajuda no Ibama e construiu um local amplo para que a ave pudesse voar. Acabou virando uma mantenedora (pessoa ou entidade que recebe animais do Ibama para guarda e recuperação para soltura.
"Começamos com papagaios, depois vieram periquitos, tucanos, araras, macaco prego e bugio, cachorro do mato, anta e ratão do banhado, grande parte recuperada de traficantes de animais" Hoje o sítio não tem espaço para receber mais animais. Para que o projeto seja mantido, foi criado, há dois anos, o Instituto Raquel Machado.
Paralelamente, o casal compraram duas áreas em Bonito (MS), chamadas de Santuário e Saci, e as transformou em RPPNs. Raquel também tem duas fazendas adquiridas no ano passado no sul do Pará . Uma delas, a Reserva São Benedito, com 1,2 mil hectares (12 km²) de mata fechada e preservada, teve toda sua extensão atingida por um incêndio no início do mês.
Segundo ela, o vizinho da área colocou fogo na propriedade dele, provavelmente para formar pasto, mas o fogo se espalhou e atingiu sua reserva. "Esse fazendeiro foi autuado em 2020 pelo mesmo motivo, mas voltou a repetir a ação", diz Raquel, que tem registros do início do fogo na área vizinha. "A minha área queimou inteira; um sonho acabou, virou pó".
Crédito de carbono
Na Serra do Amolar, que teve mais de 90% de sua área atingida pelo incêndio de 2020, o maior já ocorrido no Pantanal, o IHP adquiriu ou administra sete fazendas, a maior delas pertencente a Teresa Bracher.
Também inclui cinco RPPNs - uma delas é uma fazenda que pertenceu ao empresário Eliezer Batista e foi doada ao instituto. Ao longo de cinco anos (até 2013), o empresário Eike Batista, filho de Eliezer e dono da EBX, contribuiu com doações anuais de cerca de R$ 3 milhões ao IHP, antes da falência do grupo.
Além de doadores privados que ajudaram na aquisição de fazendas transformadas em RPPNs, o IHP conta com patrocínios de empresas como JBS e General Motors e captação de recursos por meio de editais. Recentemente, lançou um programa de ecoturismo sustentável e foi certificado para a venda de créditos de carbono.
Em 2008 foi criada a Rede Amolar, parceria entre o IHP, Instituto Acaia Pantanal, Fazenda Santa Tereza, Fundação Ecotrópica, Instituto Chico Mendes e Polícia Militar Ambiental com o propósito de defender a biodiversidade local.
"A extinção de espécies ocorre por destruição do hábitat, por isso o grande desafio é assegurar corredores que permitam não só a sobrevivência, mas evite a consanguinidade (cruzamento de animais da mesma família), que também leva à extinção", afirma Rabelo. Com grandes áreas para habitação, isso é mais difícil de ocorrer.
Soja se aproxima
Outra iniciativa para preservação do Pantanal e de outros biomas ao seu redor vem do Instituto Delta do Salobra (IDS), criado em 2019 pelo documentarista Maurício Copetti. A ONG pretende unificar várias áreas para a formação de um grande corredor verde.
A família de Copetti tem uma propriedade na região do Delta do Rio Salobra e, em 1997, ele construiu a Pousada Refúgio da Ilha, onde promove o turismo sustentável, mas percebeu que não adianta preservar sua propriedade se no entorno há destruição.
O objetivo do IDS é criar soluções para o desenvolvimento sustentável da região e, ao mesmo tempo, descobrir possibilidades de obtenção de renda, como o ecoturismo, pois é preciso ter uma economia para manter quem vive na área.
Copetti explica que já existe no local um corredor natural que precisa ser consolidado com a garantia de preservação. Para isso, o IDS, em parceria com a Embrapa Pantanal, têm conversado com proprietários locais para se unirem em projetos de preservação. "Nossa instituição é muito pequena, vive de algumas doações e taxas de conservação dos visitantes, mas está empenhada em conquistar essas áreas aos poucos", diz.
A junção do Delta do Salobra a outros projetos como os da Aliança 5P e Rede Amolar, passando pela Serra da Bodoquena e a terra indígena Kadiuéw, criaria um corredor com cerca de 1,2 milhão de hectares (12 mil km²) que vai além do Pantanal. "Teríamos um território com diversidade de cultura, com serras, diferentes pantanais, mata atlântica e chaco", afirma o documentarista.
O receio é a chegada mais intensa da soja, já presente na região "e que afeta diretamente na transparência da água, turvando-a totalmente", diz Copetti. O cultivo ocorre em maior escala em Bonito (MS), importante ponto turístico.
Leonardo Gomes, diretor de Estratégias do SOS Pantanal, conta que, na área de planície do Pantanal no Mato Grosso do Sul foram identificados recentemente 600 hectares de plantação de soja. A suspeita, porém, é de que pode ser ainda maior. "Está ocorrendo principalmente em áreas que não alagam há uns dois ou três anos por causa das mudanças climáticas."
"Se a soja chegar ao Delta do Salobra será um grande problema", diz Copetti, que tem visto aumentar a seca na região. Neste ano não houve as tradicionais enchentes de janeiro a março. "Em 24 anos eu nunca tinha visto isso. Há lugares em que a canoa não entra mais, é preciso descer e empurrá-la; as ariranhas não reproduzem mais lá porque o rio está seco e não tem peixe". A famosa cachoeira Boca da Onça também está seca.
Segundo Copetti, o movimento de compra de terras para conservação começa a chegar ao Delta. "Há pelo menos uma negociação em andamento". Também há investidores estrangeiros interessados em patrocinar projetos envolvendo as comunidades locais.