Mercado espera manutenção da Selic, mas crescem as incertezas sobre início do ciclo de queda da taxa
Com discussões em torno do aumento de gastos pelo governo no próximo ano, alguns analistas já veem até possibilidade de uma alta dos juros
O mercado ainda espera que o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central mantenha a taxa Selic estável, em 13,75% ao ano, na reunião desta quarta-feira, 7. Mas essa avaliação já não é unânime. Desde a pesquisa pré-reunião do Copom feita pelo Estadão/Broadcast em outubro, todos os analistas projetavam juros sem mudanças nesta reunião e na de fevereiro. Mas os movimentos feitos pelo novo governo para ampliar gastos a partir do ano que vem aumentaram as incertezas fiscais e fizeram com que um novo aumento na Selic agora entrasse no radar - pelo menos duas instituições (Austin Rating e Barra Peixe Investimentos) projetam um aumento de 0,25 ponto nesta quarta-feira, 6. Além disso, cresceram as incertezas em relação ao início do ciclo de redução dos juros.
"Precisamos de mais informações com relação ao que o próximo governo irá fazer em termos de política econômica, ainda não temos informações de quem será o ministro da Fazenda", diz o economista-chefe para Brasil do Rabobank, Maurício Une, que conservou, por ora, o cenário de manutenção da Selic estável até junho de 2023, quando prevê o início do ciclo de cortes. "Por mais que a PEC de Transição sinalize que podemos ter fragilidades fiscais à vista, ainda estamos sem novidades em relação a quaisquer outras medidas que podem ser tomadas para mitigar esse impacto."
O Rabobank espera a Selic a 11% no fim de 2023 e a 8% em 2024, até o momento sem viés. "Só indicará viés se continuarmos sem ver uma contrapartida de medidas mitigantes", diz. Caso isso ocorra, Une pontua que seria mais prudente o BC manter a taxa de juros no nível atual por tempo prorrogado, ao invés de retornar os aumentos. "Até porque não temos visto uma deterioração significativa das expectativas inflacionárias."
Na Tendências, o economista-sênior Silvio Campos Neto espera juros estáveis até julho do ano que vem. Para ele, o nível "bastante elevado" da Selic e a esperada desaceleração da atividade econômica no próximo ano, além da recessão global, indicam que o trabalho da política restritiva já estará concluído em 2023.
O economista avalia que o risco de elevação da taxa para além do nível atual é pouco provável e só aconteceria se a PEC da Transição passasse como tinha sido enviada ao Senado, com gastos acima do teto de quase R$ 200 bilhões. A incerteza quanto ao texto final a ser aprovado no Congresso fez com que a Tendências prorrogasse a expectativa para o começo do ciclo de redução dos juros, de junho para julho, e elevasse a projeção para a Selic ao fim de 2023, de 11,5% para 12%.
Para 2024, a projeção de Selic a 8,5% tem viés de alta, segundo o economista da Tendência. "O fiscal mais frouxo deve levar a uma política monetária mais apertada.
O economista da Pezco Helcio Takeda alterou a projeção do início do corte de juros do primeiro trimestre de 2023 para o quarto, com manutenção do juros prevista até novembro. Takeda não descarta, porém, a possibilidade de altas entre 0,25 ponto porcentual e 0,50 ponto entre a primeira e a segunda reunião do Copom em 2023. O desenrolar, segundo o economista, vai depender do desfecho da PEC de Transição, com a quantidade de recursos alocados fora do teto de gastos.
Takeda mantém, por ora, projeção de juros a 12,75% no fim de 2023 e 11,25% no fim de 2024, ambas com viés de alta, em razão de uma potencial deterioração das expectativas de inflação em decorrência do possível aumento do gasto público.