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'Qualquer retaliação ao Brasil vai soar injustificável', diz Haddad sobre tarifas de Trump

Em conferência em Paris, ministro afirma que Europa deveria ter um olhar político sobre o acordo Mercosul-UE e volta a defender a tributação dos 'super-ricos'

31 mar 2025 - 17h13
(atualizado às 17h22)
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Ministro da Fazenda Fernando Haddad em conferência na Europa.
Ministro da Fazenda Fernando Haddad em conferência na Europa.
Foto: Divulgação/Ministério da Fazenda

PARIS E BRASÍLIA - O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, disse acreditar que o Brasil está numa posição privilegiada na guerra comercial travada pelo presidente americano Donald Trump.

"Nós temos uma balança estável e equilibrada; apesar da vantagem dos Estados Unidos em relação ao Brasil, ela está relativamente equilibrada. Nós que teríamos mais espaço para crescer no comércio com eles", disse o ministro à imprensa, nesta segunda-feira, 31, ao final de sua conferência na universidade Sciences Po, em Paris.

"E eu acredito que qualquer retaliação ao Brasil vai soar injustificável à luz dos dados e à luz das décadas de parceria entre Estados Unidos e Brasil", disse Haddad. "Mas é bom ouvir os nossos pares, mundo afora, para entender melhor os efeitos dessas decisões sobre economia global e, de novo, poder posicionar o Brasil de forma madura, de forma ativa, de forma eficiente, para buscar um melhor entendimento."

A declaração ocorre na semana que Donald Trump pretende implementar uma nova rodada de barreiras comerciais. O presidente dos Estados Unidos vem anunciando que a próxima quarta-feira, 2 de abril, será o "Dia da Liberação", com tarifas de 25% sobre todos os carros importados e tarifas "recíprocas" país por país - o que pode afetar produtos brasileiros exportados aos EUA como o etanol, por exemplo.

Mercosul

Haddad afirmou que a Europa deveria ter um olhar político sobre o acordo Mercosul-União Europeia, em vez de discutir "item por item". Ele assegurou que, no acordo, os países chegarão a um consenso benéfico para todas as partes.

"Eu acredito que a Europa deveria ter um olhar político sobre esse acordo também, e não apenas ficar discutindo item por item onde você vai ganhar, onde você vai perder. Se você vai perder no açúcar, você tem que ganhar na carne… Nós não vamos chegar a uma conta que vai ser 100% benéfica para um dos lados, porque senão não seria um acordo, seria outra coisa; seria uma imposição de um lado ao outro. Mas não é isso que nós estamos procurando", disse Haddad.

"O Mercosul também, se fizer a conta mais mesquinha, vai encontrar uma série de razões para não fazer (o acordo), para não agregar, para não somar com a Europa. Mas, se fizer uma conta mais ampla, vai ver que talvez os líderes que estão de um lado e de outro, defendendo a aproximação, talvez estejam chegando um pouco mais longe", emendou.

Haddad afirmou que quanto mais um país aposta no multilateralismo, menores as chances de vivenciar um período de pós-guerra no mundo. Ele reiterou que o Brasil, por exemplo, teria muita dificuldade em se tornar um "satélite" de uma outra nação, como China ou Estados Unidos. "O meu medo é que a dinâmica internacional da geopolítica force essa situação, como se você tivesse que escolher um entre dois lados e não poder agir para distensionar o mundo com relações mais abertas", comentou.

Haddad comentou ainda que o mundo vem discutindo há 60 dias práticas protecionistas que estão em completo desacordo com as práticas ambientais, como, por exemplo, a retomada de produção manufatureira com energia fóssil. "Esse protecionismo que nós estamos discutindo, que é um protecionismo meramente comercial, para levar mais riqueza para quem já é rico. Nós podemos voltar para o mundo bipolar, que é o que também, aparentemente, se pretende, abandonar o multilateralismo e criar o espantalho necessário para manter sua posição de poder", disse.

O ministro afirmou que a defesa de um mundo multipolar e a criação de novas cadeias produtivas que incluam mais países em desenvolvimento são o caminho mais adequado para o momento atual. "A aposta que o Brasil faz, na minha opinião, é mais sustentável para quem tem apreço pela democracia, para quem tem apreço pela liberdade, para quem tem apreço pelo desenvolvimento sustentável, é a melhor aposta que nós podemos fazer", defendeu.

Super-ricos

Haddad voltou a falar sobre a tributação dos chamados "super-ricos". Ele defendeu que é preciso levar em conta o componente social porque desconsiderar esse aspecto acabaria acarretando em um imposto mais alto para as populações mais pobres, para os quais elas não estão preparadas.

Esse tema foi uma das bandeiras brasileiras durante a presidência do G-20 e está em discussão no País com a proposta do governo para ampliar a faixa de isenção do Imposto de Renda compensada por uma tributação mínima daqueles que recebem mais de R$ 100 mil mensais, mas com degraus para cobrança a partir de renda mensal de R$ 50 mil.

O ministro avaliou que esse tipo de questão tributária precisa ser avaliada de maneira holística, embora muitos economistas tentem buscar soluções fragmentadas, o que seria menos eficiente. Nesse sentido, ele citou um exemplo internacional que tem gerado preocupação.

"Muitos países têm usado o chamado Adjustment Border, que é a taxação do carbono para as importações. Então, eu vou importar aqui no país, eu vou levar em consideração o carbono que está contido naquelas mercadorias que vão sendo exportadas para o país. E, às vezes, você pode usar esse expediente, não para proteger o meio ambiente, mas para fazer guerra comercial", disse.

Na avaliação do ministro, a tentativa de organizar um sistema coordenado de redução de emissões. Isso é muito comum. A distância entre fazer o certo, que é organizar um sistema coordenado para que as emissões se reduzam, pode se transformar numa forma de proteger o seu mercado interno. "Se isso for adotado, estariam jogando fora um instrumento que poderia ser bem utilizado, não em fins protecionistas do comércio, mas em fins protecionistas do meio ambiente. E isso poderia favorecer países que têm condições de gerar energia limpa e produzir bens manufaturados mais verdes", disse.

"Na defesa da tributação dos super-ricos, um imperativo moral diante do avanço das oligarquias dentro das democracias, França e o Brasil mostraram o caminho da coordenação Norte-Sul que pode ajudar o sistema internacional a sair do impasse", disse o ministro.

"Sem o apoio de intelectuais como Gabriel Zucman e Esther Duflo, o primeiro passo para uma tributação coordenada dos super-ricos não teria sido alcançado com a Declaração sobre Cooperação Tributária Internacional e o documento final da Cúpula do G-20 no Rio, em novembro passado. Esperamos poder reeditar essa parceria franco-brasileira na COP com outras bandeiras", emendou.

Durante sua fala inicial, Haddad avaliou que o timing do convite para palestrar hoje no evento em Paris não poderia ser melhor. Segundo ele, o mundo mudou muito desde a cúpula do G-20 e passa por um momento de inflexão sobre o papel e o posicionamento global da América Latina e da Europa. "É nesse contexto que o Brasil se prepara para a COP-30?, disse.

Ele reiterou ainda a importância de trazer as finanças para o "coração do debate" sobre o clima e disse que a COP-30 entrará na história como a "COP da implementação" - diante do potencial que o Brasil tem de liderar por meio de exemplo, promovendo uma agenda climática inclusiva e focada na implementação de soluções concretas.

Estadão
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