Tarifaço de Trump irá além do comércio e incluirá estratégia militar, diz ex-secretário do Planalto
O presidente dos EUA está propondo um redesenho da geografia do comércio internacional, ao mesmo tempo que acena internamente para a sua base eleitoral, segundo Kalout
No anúncio do tarifaço global, na quarta-feira, 2, o presidente americano, Donald Trump, afirmou que estava ajustando a relação comercial dos Estados Unidos com os inimigos e os amigos, "que muitas vezes são até piores no comércio". No entanto, é difícil imaginar que, à medida que as negociações evoluírem, apenas os aspectos transacionais sejam considerados, e não também os geopolíticos e militares, afirma o cientista político e doutor em relações internacionais Hussein Kalout.
Ex-secretário especial de assuntos estratégicos da Presidência da República entre 2016 e 2018 (no governo de Michel Temer) e conselheiro consultivo internacional do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), o especialista vê o tarifaço também como um aceno para a base eleitoral de Trump. A seguir, os principais trechos da entrevista:
O que significa para o comércio global o anúncio do tarifaço de Trump?
Trump está propondo um redesenho da geografia do comércio internacional. Esse redesenho se mistura com seus objetivos internos, em particular, com as propostas políticas de sua campanha eleitoral. O seu objetivo interno é preservar a sua promessa, a sua popularidade, e fortalecer a plataforma industrial de sua base de apoio. Esse é o seu objetivo no contexto interno. Já, externamente, a aplicação dessas tarifas recíprocas tem como objetivo desencadear um processo negociador país por país. Alguns vão concordar, e outros vão discordar. Mas vai haver negociações segmento por segmento, produto por produto, e país a país. Num outro contexto, vai ampliar a arrecadação.
O Brasil pode ter uma boa posição para negociar?
O Brasil exporta muitos produtos não acabados, até para a indústria automobilística. Se formos mais tarifados, será colocado o produto final à venda a um preço mais alto para o consumidor americano. Creio que há uma margem para negociação para o Brasil. Não necessariamente vai acontecer amanhã, ou logo, ou que algo prioritário para os EUA. Entendo que ocorrerá em algum momento ao largo dos próximos meses, em função da complementariedade do que o Brasil produz para a base industrial americana. O Brasil não ficará no final da fila do processo negociador. Haverá um diálogo positivo no contexto técnico. E acredito que os 10% impostos ao Brasil sejam um número razoavelmente satisfatório que se chegou para se iniciar uma negociação. Seria surpreendente se fosse menos.
Trump indica, em suas falas, que vai tratar os países de forma puramente transacional. Isso deve acontecer mesmo?
Creio que a negociação vai acabar se depurando. Claro que tem um grau de politização muito acentuado nessa preconização da nova geografia tarifária. Ela instrumentaliza o comércio como pêndulo político da relação dos países. Não me parece que foi algo baseado num anarquismo tarifário totalmente descalibrado. Claro que, com alguns países, especificamente com a China, a coisa vai ser de maior complexidade nas negociações. E pode ter uma flexibilização no contexto geopolítico, como em relação ao Japão e à Austrália, que são parceiros estratégicos.
Então, os interesses geopolíticos vão entrar nas negociações em algum momento?
A conversa pode abarcar outras variáveis. Para alguns países, o paradigma negociador pode ser outro. Não seria muito prudente da perspectiva geopolítica tratar o Japão com uma perspectiva puramente comercial, frente ao interesse militar na região.
O Brasil está bem preparado para fazer as negociações?
O MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços) e o Itamaraty estão preparados. Não só tecnicamente. Os negociadores brasileiros são qualificados. O Brasil acumulou muita expertise nas negociações do Gatt (Acordo Geral de Tarifas e Comércio) e da OMC (Organização Mundial do Comércio). Existe muita qualidade técnica, na dinâmica das negociações. O Itamaraty tem muita experiência nisso, e um quadro muito qualificado, que conhece muito bem setores da indústria brasileira, está em contato com todas as associações e federações empresariais, e são subsidiados com números estruturados. O governo brasileiro estará unido, terá amparo consistente de dados e de números, e o setor empresarial será ouvido e participará do processo.