A influência esquecida da Escócia na origem do futebol brasileiro
Muito além de Charles Miller, pesquisadores apontam que escoceses ajudaram a popularizar o futebol no Brasil e a difundir um estilo de jogo que transformaria o esporte.As cinco estrelas no peito da camisa parecem credenciar o Brasil a ser realmente o país do futebol - mesmo que não vença um mundial há 24 anos. As influências que tornaram essa afirmação mundialmente conhecida, no entanto, ainda são debatidas, mas possuem raízes profundas na Escócia, a próxima adversária do país na Copa do Mundo de 2026 nesta quarta-feira (24/06).
Segundo especialistas ouvidos pela DW, a maior contribuição escocesa para o esporte do qual o Brasil é referência mundial foi o desenvolvimento do chamado combination football, um estilo baseado em passes, movimentação coletiva e construção de jogadas, considerado precursor do futebol moderno.
"Esse sistema de jogo não foi a invenção do passe no futebol. A simples ideia de chutar uma bola de um jogador para outro remonta a séculos. No entanto, o jogo de passes curtos era uma forma sistemática de futebol que combinava dribles com passes curtos e precisos para conduzir a bola para frente", diz Richard McBrearty, pesquisador e curador do Museu do Futebol Escocês.
E não para por aí. Além da influência no modo de jogar, houve uma contribuição grande na popularização do esporte no Brasil. Em 1894, o operário escocês Thomas Donohoe organizou partidas de futebol em Bangu, no Rio de Janeiro, e até hoje é apontado por alguns historiadores como um dos pioneiros do esporte no país - mesmo que o inglês Charles Miller ainda seja mais conhecido.
Combination football escocês
No início da década de 1870, o futebol praticado em Londres era marcado pelo predomínio da habilidade individual. O esporte era praticado principalmente pelas classes profissionais e pelos filhos da aristocracia, e uma lógica individualista era privilegiada dentro de campo. Embora passes e cruzamentos das laterais para a área já fossem utilizados, o jogo era conduzido majoritariamente por ações individuais baseado no físico, segundo McBrearty.
"Para os jovens cavalheiros que haviam frequentado Eton ou Harrow, duas das escolas mais elitistas do Império Britânico, passar a bola em campo aberto era um ato de covardia, literalmente, uma forma de se eximir da responsabilidade. Esses jovens cavalheiros eram treinados para 'honrar o nome da família' e provar sua capacidade como atletas em uma época amadora. Essa filosofia pode ser vista nos primeiros jogos internacionais", afirma o pesquisador.
Enquanto isso, os jogadores do Queen's Park Football Club, de Glasgow, passaram a privilegiar a troca de passes e a movimentação coletiva em vez das arrancadas individuais que dominavam o futebol da época. O estilo ajudou a popularizar o chamado combination football e influenciou gerações posteriores de jogadores. Não à toa, tais jogadores passaram a ser chamados de "professores escoceses" levando o estilo ao sul, para Inglaterra.
"O futebol evoluiu enormemente desde o final do século 19. Os escoceses foram claramente pioneiros em sua época e elevaram o padrão em termos da evolução do esporte. De fato, pode-se argumentar que o jogo poderia ter sido diferente se os escoceses não tivessem transformado a maneira como era jogado durante o período crucial da década de 1870", diz McBrearty.
Thomas Donohoe em Bangu
Décadas depois de ajudar a transformar a forma de jogar futebol, a presença escocesa também chegaria ao Brasil por meio da imigração. Um dos exemplos mais conhecidos é o de Thomas Donohoe, operário nascido na Escócia que organizou partidas em Bangu e se tornou personagem central do debate sobre as origens do futebol brasileiro.
Para Anderson Gurgel, professor de comunicação e esporte do Mackenzie, uma das principais formas de conexão do Império Britânico com o restante do mundo ocorria por meio da influência cultural, mecanismo que atualmente seria descrito como uma forma de soft power - incluído aí seus esportes, como o futebol.
"É um momento em que o Brasil está construindo suas bases, vai acontecer muita coisa naquele momento e chega um esporte moderno com que acaba tendo uma série de anseios, até mesmo do espírito daquele tempo, do zeitgeist daquele tempo", explica.
Enquanto o imigrante inglês Charles Miller chegou em 1894 carregando bolas de futebol ao Brasil, apresentando o esporte a alguns expatriados na cidade, a trajetória de Donohoe, que chega ao país no mesmo ano, apresenta um contraste interessante: suas partidas ocorreram fora dos círculos de expatriados e das elites paulistas.
Na avaliação do historiador, ambos podem ser considerados pioneiros do futebol no Brasil. Enquanto Miller teria introduzido a versão regulamentada do esporte, com equipes de 11 jogadores e regras formalizadas, sua prática estaria inicialmente voltada a um círculo restrito de expatriados residentes na cidade.
"Donohoe não vinha de uma família rica e tradicional, ele nasceu na Escócia em circunstâncias humildes e era filho de imigrantes irlandeses. Em 1894, ao chegar a Bangu, não conseguiu apoio de sua fábrica e teve que organizar as chamadas peladas. No entanto, essa atividade era inclusiva, parece que qualquer pessoa era bem-vinda para jogar, e é notável que, quando Donohoe ajudou a fundar o Bangu Athletic em 1904, o clube já contava com jogadores negros brasileiros em seu elenco desde o início", diz.
Para Gurgel, a inclusão do esporte de Donohoe também fez com que esse universo esportivo se espalhasse pelo mundo principalmente a partir da Inglaterra, impulsionado pelas conexões políticas, econômicas e culturais que o país mantinha naquele período.
"Essa força que o futebol ganhou tem relação com a paixão que o esporte desperta desde o início, com suas regras simples e com uma forma de jogar acessível, capaz de encantar as pessoas. Além disso, a própria dinâmica do futebol é extremamente fascinante", diz.
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