F1 Academy: uma categoria que escolhe se esconder
Montada como mais uma iniciativa para a promoção feminina no esporte a motor, a F1 Academy opta por uma exposição limitada de suas disputas
Quando a F1 Academy foi anunciada no início deste ano, este espaço recebeu com moderado otimismo (ver aqui). Afinal, a W Series estava numa situação de quase morte (a administração judicial foi confirmada dias atrás) e uma iniciativa para promover a participação e a preparação feminina no esporte a motor sempre é bem-vinda.
A base da F1 Academy soou mais sólida e realista do que a da W Series. Primeiro, tem o patrocínio direto da F1 e a categoria passa a fazer parte oficial da “escada” de acesso e o monoposto teve como base a F4, buscando trazer as mulheres do kart; as equipes que fariam parte do certame tem tradição na “base” e sabem trabalhar com jovens: ART, Rodin Carlin, MP, Campos e PREMA. Para comandar tudo, foi chamada Susie Wolff, ex-pilota e com passagem por postos importantes no automobilismo, como CEO da equipe Venturri na F-E.
Entretanto, quando os detalhes começaram a aparecer, se concretizou o velho ditado que “de boas intenções, o inferno está cheio”.
Chamou a atenção que, quando do anúncio da categoria este ano, o calendário não seria junto com a F1, com exceção de Austin; depois, veio a informação mais incrível: a categoria não teria transmissão em nenhum canal da F1, mesmo no streaming oficial que mostra as demais disputas “da base”. Nem filmagem dos boxes seriam permitidas. O máximo seriam resumos no canal do You Tube da F1 após as corridas
Sobre este ponto, não houve nenhuma explicação da opção. Algum tempo depois, a organização (que é a mesma das F2 e F3) informou que faria filmagens próprias para a montagem de um documentário a ser mostrado mais à frente. Sobre o calendário, o CEO da F1 confirmou que a F1 Academy correrá junto com a F1, mas a partir de 2024.
Soou estranha a escolha de não mostrar a categoria. Atualmente, várias categorias trabalham muito com as redes sociais como plataforma de divulgação e as usam para exibição das provas. Afinal, é importante criar espaço para divulgar o trabalho dos pilotos e as marcas de apoiadores dos pilotos. Só que a F1 Academy vai ao campo oposto.
Nem se entra na questão de fazer uma categoria exclusivamente para mulheres. Neste ponto, sigo com a mesma opinião sobre a W Series: é válido, desde que não vire um fim em si mesmo. O mais interessante é sim buscar a mistura para que as mulheres possam se achar em ritmo do que os homens. Porém, tem que se manter a oxigenação da categoria.
Aqui, fica também uma observação: a FIA anunciou o lançamento da 4ª edição do Girls On Track, programa organizado em conjunto com a Academia de Pilotos da Ferrari para a escolha e formação de pilotas no kart e em monopostos. Só que confirmou que esta será a última edição. Uma possibilidade é que a iniciativa da F1 Academy de recrutar jovens pilotas no kart possa tomar este espaço. Anunciado no início de junho, o programa começará no Reino Unido com pilotas entre 8 e 12 anos.
E como acompanhar a evolução das pilotas se não tem informação? O máximo que se vê são postagens nas redes da categoria e alguns abnegados que acompanham a base dando relatos. Fora isso, é um verdadeiro jogo de gato e rato.
A impressão que a F1 Academy passa é que a intenção real da Liberty Media seria lançar a categoria em 2024. Só que as dificuldades da W Series e a necessidade de dar uma mensagem inclusiva ao público acabou levando um início muito falho e com respostas muito longe de satisfazer àqueles que se interessam pelas categorias de base.
Se a intenção era trazer as mulheres para o automobilismo por conta da F1 Academy, a Liberty Media dá uma tremenda bola fora. É o cisne que resolve ser um patinho feio por escolha própria.