F1: Quando a ordem de equipe não foi cumprida por um dos pilotos
44 anos atrás, Carlos Reutemann não seguia a ordem dada pela Williams para troca de posições no GP do Brasil. E detonou uma série de coisas
Ordens de equipes no esporte a motor são coisas que existem desde que começou a se competir. Talvez se for ver as corridas de bigas na Roma Antiga deveria existir também (maldosos dirão que vi isso acontecer de perto, mas está muito longe disso...). Volta e meia o assunto vem à tona com toda a força e teve mais um capítulo no último GP da China com a decisão da Ferrari de inverter posição entre Hamilton e Leclerc.
Mas e quando as ordens de equipe não são cumpridas?
Exatamente 44 anos atrás, no GP do Brasil, aconteceu um dos mais clássicos casos em que as orientações vindas da mureta foram solenemente ignoradas e causou um belo cataclismo dentro do time...
29 de março de 1981. Era dia do GP do Brasil em Jacarepaguá, 2ª etapa daquela temporada que já começou quente com a possível cisão entre FOCA e FISA (atual FIA) e o cancelamento do GP da Africa do Sul. Naquele momento, as coisas estavam um pouco mais leves, embora ainda se houvesse muita discussão sobre os famoso 6cm de altura dos carros e como a Brabham fazia para manter a altura regulamentar...
Neste dia, Jacarepaguá estava lotada e caiu uma belíssima chuva antes da largada, o que embaralhou muito as coisas. Nelson Piquet largava na pole position e optou por sair de pneus para pista seca, acreditando que o tempo melhoraria ao decorrer da prova. A seguir, vieram os dois protagonistas da prova: Carlos Reutemann e Alan Jones, ambos de Williams.
Àquela altura, a Williams tinha um dos melhores carros do grid e tinha o campeão da temporada anterior, Alan Jones. O argentino Reutemann vinha para seu segundo ano na equipe e tinha a reputação de ser um grande talento, mas faltar algo para poder ser efetivamente campeão. Após passar por Brabham e Ferrari (onde entrou após o acidente de Niki Lauda em Nurburgring em 1976), Reutemann julgava ter acertado quando fechou com a Lotus para a temporada de 1979. Porém, o modelo 80 não cumpriu o que se esperava e sobrou fechar um acordo com a Williams para 1980, onde Jones tinha prioridade.
Não foi necessário nenhuma ação efetiva de pista durante a temporada e Alan Jones venceu o campeonato. Em 1981, os acordos seguiam válidos. Mas naquele momento, a temporada começava, Jones havia sido campeão e não seria necessário qualquer tipo de intervenção. Esta era a visão de Reutemann.
Com a pista alagada e Piquet de pneus inadequados, a dupla da Williams pulou na frente, com Reutemann na frente e Jones vindo logo atrás. Até aí, tudo certo, os dois carros na frente e Frank Williams queria saber de seus carros na frente, não importando muito a ordem. Pelo menos era isso que se pensava...
Ao longo da prova, uma placa começou a aparecer na mureta dos boxes e mostrada para os pilotos. Ela mostrava a indicação “Jones x Reut”. Naquele tempo, já existia a comunicação via rádio, mas era restrita quando o piloto parava nos boxes. O principal modo de contato da equipe com os pilotos eram as placas.
Naquele momento, a equipe estava pedindo a troca de posições. Além de Jones ser o campeão do time (o primeiro), o australiano tinha vencido a primeira etapa válida em Long Beach, com Reutemann em segundo. Se fóssemos ir atrás, Reutemann havia vencido a etapa em Africa do Sul, que originalmente seria a primeira prova do campeonato 1981, que foi cancelada graças à confusão citada antes entre as principais entidades...
Mesmo com a insistência, Reutemann mantinha a liderança e ficou até o final, mesmo com o time insistindo com a placa de troca de posições nas últimos voltas. O argentino venceu, mas o clima era de enterro na Williams. Afinal de contas, a ordem não havia sido cumprida...
Reutemann entendia que as ordens não eram necessárias. Mas o fato é que o relacionamento dele com Jones foi para vinagre (o que até motivou uma "colorida e amistosa" troca de palavras posteriormente) e a Williams também começou a encarar o argentino de outra forma. Só que a história havia sido marcada e na corrida seguinte, na Argentina, a torcida fez uma placa “Reut x Jones”, que foi devidamente mostrada pelo piloto.
A fratura foi feita e em dois GPs, Austria e Itália, Jones estava na frente de Reutemann e não houve pedido algum para troca de posições. Isso fez falta no final do campeonato, quando Piquet venceu o título do argentino por um único ponto em Las Vegas.
Não há garantias de que se Reutemann tivesse seguido as ordens da Williams, a história poderia ter sido diferente. Porém, dada a crença do argentino nas "coisas do além", não dá para excluir a possibilidade...A questão aqui é que não há um ponto absolutamente correto ou errado em terem as ordens de equipe. Porém, dirão aqueles que o "combinado não sai caro"...