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Ex-líder de torcida do Inter: "eu quero ser atacado"

Jorge Martins, o Hierro, fala sobre a atual Popular, a vinda das barras argentinas para o Mundial e seus planos para "voltar à ativa"

4 abr 2014 - 14h54
(atualizado em 4/4/2014 às 17h15)
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Jorge Roberto Gomes Martins, o Hierro
Jorge Roberto Gomes Martins, o Hierro
Foto: Luís Felipe dos Santos/Terra

Jorge Roberto Gomes Martins, o Hierro, tem 41 anos de idade e um projeto: ser reconhecido pelos colorados não como uma figura violenta, mas como uma liderança que agrega jovens, famílias e torcedores de todas as idades pelo bem do clube. Pelo menos é essa a imagem que ele persegue com o projeto que ele está iniciando neste 2014: uma banda musical de colorados, com oficinas para crianças aprenderem a tocar, além de doação de donativos, futebol, churrasco e confraternização, em várias cidades do interior do Rio Grande do Sul.

Bem diferente da imagem que ele tinha no final de 2011. Na despedida de Fabiano Souza, atacante que fez sucesso nos anos 90 no Inter, Hierro estava envolvido em um confronto que acabou com três pessoas esfaqueadas dentro do Estádio Beira-Rio. O episódio foi o ápice da briga entre a Guarda Popular (comandada por Hierro) e a Popular do Inter (liderada por dissidentes). No dia seguinte, ambas as torcidas foram excluídas do clube. Em depoimento, Hierro negou que tenha esfaqueado qualquer pessoa; mesmo assim, teve sua prisão preventiva decretada e foi detido em março de 2012. Em maio daquele ano, Hierro recebeu liberdade provisória, sob as seguintes condições: ficou proibido de participar de torcidas e de frequentar estádios de futebol - permanecendo a uma distância de ao menos 100 m de cada estádio. Também não deve sair de casa entre 19h e 7h, e deve apresentar mensalmente à Justiça emprego e residência fixa. 

Distante da liderança da Popular, que lhe deu projeção na mídia, Hierro voltou às manchetes quando anunciou que estava negociando com torcedores das Hinchadas Unidas Argentinas - coletivo de torcedores ligados às barras de diversas equipes do país - para abrigá-los em Porto Alegre na Copa do Mundo. Em dezembro, no dia em que saiu o sorteio da Copa garantindo pelo menos uma partida da seleção de Lionel Messi em Porto Alegre, Hierro anunciou que os argentinos teriam hospedagem, transporte e assistência jurídica no Mundial.

O histórico de violência das barras argentinas é conhecido: na Copa de 2006, torcedores argentinos brigaram entre si na República Checa, episódio que acabou com a detenção de 38 pessoas. Em 2010, torcedores foram deportados devido a confrontos, e um torcedor do Rosario Central morreu - em um episódio no qual nenhuma evidência direta levou às Hinchadas Unidas Argentinas. Hierro, porém, garante que não está com eles por esse motivo. "Eu estou usando a parte boa deles. Virei um homem de negócios". Nesta entrevista, Hierro também falou sobre como começaram essas relações, sobre seus projetos relacionados a ativismo social, sobre sua ideologia e, claro, sobre a atual Popular do Inter, que é liderada pela dissidência que tomou o poder após os conflitos de 2012. "Eu quero ser atacado, eu quero ser ameaçado, porque as medidas legítimas que deveriam ser tomadas quanto a isso já foram tomadas. As próprias críticas que eu faço, eles têm que entender como críticas construtivas. Eu estou apontando os erros, as falhas. Eu quero que o Inter tenha uma torcida forte, bonita. Se tudo que eu fiz até 2011 não serviu para nada, então tudo bem".

Torcida da Argentina na Copa da África do Sul; com distância menor, barrabravas devem invadir Brasil em 2014
Torcida da Argentina na Copa da África do Sul; com distância menor, barrabravas devem invadir Brasil em 2014
Foto: Getty Images

Leia a entrevista:

Terra - Por que você está trazendo os argentinos para cá?

Hierro - Não estou trazendo eles; eles vão vir, com Hierro ou sem Hierro. Eles vão estar aqui no Brasil. Já foram em outros continentes, com o Brasil do lado é quase impossível impedir eles de vir. 

Terra - Qual é teu interesse?

Hierro - Eu estou trabalhando. Tudo pra mim é trabalho. Eu preciso de trabalho. A própria Justiça me determina que eu trabalhe, e isso pra mim é um trabalho. Eu tenho estrutura para fornecer alojamento e tudo mais, isso é uma fonte de renda que eu vou garantir durante a Copa.

Terra - Como você conheceu os argentinos?

Hierro - Eu sempre tive relação nesse ambiente barrabrava. É sabido que eu já tive em outras torcidas, as torcidas já me conheciam lá. Conseguiram chegar até a gente através da final da Recopa de 2011. Começamos a manter contato diariamente por rádio e fomos acertando as coisas. Eles manejam a parte econômica muito igual a mim. Existe uma diferença enorme do jeito que eles lidam com as torcidas lá, através de muita violência, aqui não tem como a gente fazer isso. Não queremos a violência, mas estamos usando a mesma escola econômica deles para manejar os nossos negócios por aqui. Dentro da legalidade, porque lá eles têm muita coisa ilegal, todo mundo sabe.

Terra -Por lá eles têm uma relação direta com a polícia...

Hierro - Eu estou usando a parte legal deles, a parte boa. Eu virei um homem de negócios e estou usando isso tudo. 

Terra -A vinda deles envolve transporte também, pois a seleção argentina estará em Minas Gerais.

Hierro - Sim, envolve transporte terrestre. Vamos para uma empresa de ônibus, vamos finalizar essa parte do transporte.

Terra -E isso dá dinheiro?

Hierro - É para dar. Se não desse eu não estaria. Toda a matemática está sendo feita para ter lucro, está sendo investido um valor.

Terra - Qual é esse valor?

Hierro - Eu tenho parceiros que estão junto comigo, foram projetos apresentados para eles. Esse é um dos projetos. Desde quando eu voltei para a ativa, eu fiquei um tempo no limbo, sem contato, sem nada. Desde outubro de 2013, eu voltei para a ativa e tinha projetos prontos. Esse é um, o Projeto Mundial. Foi apresentado para alguns parceiros, na hora eles toparam.

Terra -Esses parceiros você conheceu da época do Inter?

Hierro - São colorados, mas gente conhecida desde a infância. Gente de confiança mesmo.

Terra -É uma forma de orquestrar, patrocinar, a tua volta para a arquibancada em Porto Alegre?

Hierro - Depende do que tu está afirmando como volta. Um dia eu vou voltar para a arquibancada, sou torcedor, sou colorado. Eu vi o Inter ser bicampeão e tricampeão brasileiro. Eu vou voltar a ver o Inter ganhar de novo dentro do Beira-Rio. A Justiça me liberou, no primeiro dia que tiver jogo eu estarei dentro do estádio assistindo ao jogo. Sou colorado.

Terra -O que falta cumprir na Justiça?

Hierro - Estou respondendo processo em liberdade, estou cumprindo cinco determinações de uma medida cautelar.

Terra - Que determinações são essas?

Hierro - Proibido frequentar estádios, recolhimento em determinado horário, não fazer parte de torcidas, apresentação mensal no fórum - mensal, é uma coisa que não é comum, normalmente é trimestral, ou semestral, a determinação do juiz foi um pouco cruel comigo - e comprovar residência. Claro que, como estou cumprindo horário, eu preciso estar recolhido das 19h às 7h. Isso me impede de qualquer viagem. Estou trancado dentro de Porto Alegre, preciso estar na minha residência.

Terra -Até quando?

Hierro - Essas determinações podem durar até 3 anos. Eu não sou advogado, estou indo pelo que ele me diz. Desde maio de 2012, quando a liberdade foi concedida. Não que as medidas tenham durar 3 anos, a determinação pode cair a qualquer momento. Daqui a pouco eu faço um pedido, o juiz aceita e me libera.

Terra -Então, a volta é para 2015? Quando falo em volta digo não apenas como torcedor, mas também como líder de uma torcida.

Hierro - Essa parte de torcida, é uma coisa que se eu deixar rolar acontece naturalmente. O clamor pela minha volta é gigante. Não posso acessar uma rede social, o email é cheio de mensagens todos os dias, jornalistas do Brasil inteiro me perguntando, só que isso é uma coisa que eu vou deixar ir rolando. Eu não estou preparando isso, uma volta para a liderança da torcida. Isso ocasionaria alguns problemas que eu não quero ter.

Terra -Que tipo de problemas?

Hierro - Conflitos, novos conflitos, problemas com justiça...tudo o que for alguma coisa que me traga problema com a justiça, eu vou sair de perto. Logo, voltar para a liderança da torcida vai me trazer problemas com a justiça, então não vou ficar perto disso.

Terra - Mas ao mesmo tempo, você acha que isso vai acontecer.

Hierro - Sim, vai acontecer, eu acredito que vá acontecer naturalmente. Não tem como...algum tipo de conflito que possa acontecer será mínimo, no momento em que tudo ocorrerá naturalmente. E esse conflito não vai chegar em mim porque eu não vou dar chance para isso. Não vou dar chance para que ele chegue em mim.

Terra - Como esse pessoal que assumiu a barra agora está vendo isso?

Hierro - Eu tenho todas as medidas legítimas contra esse tipo de coisa. Eu hoje sou a pessoa que mais quer que aconteça alguma coisa contra mim, por parte dessas pessoas. Eu quero ser atacado, eu quero ser ameaçado, porque as medidas legítimas que deveriam ser tomadas quanto a isso já foram tomadas. Estou só aguardando que aconteça alguma coisa.

Terra - Que tipo de medida?

Hierro - Documentos protocolados nos órgãos responsáveis, registros em áreas da segurança pública...eu poderia tomar outro tipo de medida, que é fortalecer a minha segurança, mas eu não faço isso, nem vou fazer, porque estou esperando, eu quero que me ataquem.

Torcida do Internacional em partida do Campeonato Brasileiro
Torcida do Internacional em partida do Campeonato Brasileiro
Foto: Getty Images

Terra - Você acha que isso seria bom?

Hierro - É a prova que eu preciso para mostrar que eu sempre fui atacado. Se me atacarem agora, não vai ser de hoje, vinha desde muito antes.

Terra - Por que?

Hierro - Por causa da liderança da torcida.

Terra - Foi apenas isso? Apenas o poder?

Hierro - É, apenas o poder. Todo tipo de ataque que eu sempre tomei foi por disputa do poder.

Terra - Como você vê a Popular hoje?

Hierro - Não existe. Aquela popular que nasceu em 2004, que se manteve até 2011, não existe mais. O que existe lá hoje é uma filial da Nação Independente. Só falta cantar funk. É a cara da direção atual, completamente amadora.

Israel, braço direito de Hierro, descreve os fatos: Houve amadorismo da atual torcida. O Hierro, que é uma lenda viva, sabe: quando tu vais para uma cidade, tem que ter um papel avisando a polícia local do equipamento levado e um outro documento com o que entra no estádio. Foi uma várzea, eles não mandaram documentos para Curitiba, achando que nada iria acontecer. Tentaram entrar com instrumentos e não deu, a Polícia barrou. O que seria o certo? Pegar qualquer membro, ou novo, ou numa escala média, botar dentro de um táxi e mandar para um hotel. "Tá aqui o dinheiro, fica lá com os instrumentos". Mas não: esconderam os instrumentos debaixo de um ônibus. Tinha uns caras do Coritiba que eu já estava estranhando, usavam camisa do Inter no meio da torcida, mas nunca tinha visto. Viram a entrada dos outros no estádio e roubaram os instrumentos."

Terra - Quantos instrumentos?

Israel: Um bumbo e uma murga. Aí ficaram loucos pela retaliação, a Polícia deles bateu na gente, ficaram querendo pegar eles de alguma forma quando tivesse o jogo de volta, que é a lei da torcida da rua, existe desde os primórdios. Não tinha um projeto de banda, nada; o projeto era a violência pura. Ao invés de brigarem com a torcida do Coritiba, porém, brigaram com a Polícia, para promover a nova liderança (o pessoal do Comando Trem, região Metropolitana). Foi dada a volta no estádio, rolaram conflitos, teve prisão, o cara que foi o mentor de tudo isso não brigou...

Hierro: Uma coisa que eu não deixava acontecer. No meu tempo, ninguém iria subir escadas por que brigava. Hoje, a hierarquia da torcida é o terror. É o de praxe em todas as torcidas do mundo, não é? Só que eu fiz diferente. Fim de jogo no Beira-Rio: 20, 30 pessoas querendo chamar mais gente para brigar e chamar a torcida adversária. Eu dizia: 'não, tu não vai, nem tu, nem tu, deixa eles irem lá, apanharem, serem presos, e vamos ficar aqui trabalhando'. Era essa a minha dissidência, que sempre queria confusão. Eu dizia: 'não vai subir escada brigando. Quer subir brigando? Vamos eu e tu então, dá em mim que tu sobe'. Ele (Israel) te deu a descrição aqui da pura ignorância e bestialidade. Pegaram nós lá, temos que pegar eles aqui. Coritiba pegou nós lá também, pegaram o meu ônibus, roubou bumbo, em 2011. Rolou o jogo de volta, o que eu fiz? Não, não tem, não vamos fazer nada. Esse é o óbvio, é o que tu, jornalista tá esperando. Não vou dar margem para isso. Aí, o que acontece? Falavam 'tu é bunda-mole, os caras te roubaram lá tu não fez nada'. 'Tá bom, sou bunda-mole mesmo, dá em mim então'. Só que não davam. Eles são machos, porque iam se juntar em 50 para pegar os caras. Bater em mim sozinhos...

Terra - Esse morde-e-assopra acabou dando no que aconteceu em 2011, com aqueles episódios de violência ocorridos na despedida do Fabiano. Você se arrepende de alguma coisa daquela época?

Hierro - Eu não me arrependo de nada. Eu até agradeço. (Isso eu não posso falar). Essa parte da retaliação das bandeiras tu pode até colocar, que depois daquele jogo, daquela polêmica (das bandeiras comunistas). Depois daquele jogo, o Inter começou a colocar dois caras para revisar nosso material. a Brigada fazia a revista, e depois o Inter conferia para ver o que autorizava. O Inter tava com medo. Eu era um problema que eles não conseguiam administrar. Mas era um problema para eles, porque para a torcida em geral...é novidade, é coisa diferente, todo mundo curte. Claro, tem as cornetas que acham que não deve misturar política com futebol. Eu cansei de falar isso: então vai lá, vão aumentar o ingresso para R$ 500, tu vai vir aqui pagar, botar teu cabresto na cara e aceitar quietinho?

Terra - Você é envolvido com algum partido? De onde vem o teu lado político na arquibancada?

Hierro - Eu sempre fui, estudei filosofia...

Terra - Onde?

Hierro - Na UFRGS, mas eu fiquei dois semestres e larguei, porque já estava louco.

Terra - Que época?

Hierro - Oitenta e poucos. Mas eu entrei na estatística, foi o primeiro vestibular que eu fiz. Pulei para a filosofia e foi a maior cagada que eu fiz na minha vida, daí abandonei. Minha mãe teria se matado. Larguei a universidade de graça!

Terra - Conte um pouco da sua história.

Hierro - Morei um pouco em Viamão, mas o domicílio eleitoral sempre foi em Porto Alegre. Nós fundamos o Partido Verde em Viamão. Eu não tinha como ser da diretoria em Viamão por ter domicílio em Porto Alegre. Eu era filiado em Porto Alegre. Em 1989 fui morar em Viamão, foi no início dos anos 90. O primeiro candidato que disputou uma eleição pelo PV em Viamão era da minha trupe. Não se elegeu. Hoje em dia o Partido Verde tá bem em Viamão, ainda que não tenha tanta expressão no Sul. Eu estudei no Julinho. Naquela época do calendário rotativo, as passeatas que aconteceram nessa época, eu estava no Grêmio do Julinho. Eu saía de Porto Alegre, pelo Julinho, para chamar as escolas de Viamão. Eu chamava as escolas de Viamão para as passeatas.

Terra - Lembro que quando você se tornou o líder da Popular, não falava com a grande mídia, a não ser por questões políticas (pedágio de Viamão, boné do MST). Isso criava um problema?

Hierro - Sim, com o clube, com a Brigada Militar, que me enxergava com outros olhos...chegou o momento em que me foi proposto pela Brigada Militar: "para com isso que nós te damos isso".

Terra -"Para com a política que nós te damos as barras verticais"?

Hierro - Mais material, exatamente. "Em vez de liberar 10 sinalizadores te libero 100". Chegou o momento em que eu tive que fazer essa negociação , o Inter tava disputando os principais campeonatos...e eu disse, galera, vamos dar um tempo na nossa luta, que a nossa luta aqui dentro ela fica em segundo plano, o primeiro é o Inter, e vamos ser campeões de tudo. E foi o que aconteceu.

Terra -Esses projetos sociais têm a ver com questão partidária ou com ideologia tua?

Hierro - É ideologia minha mesmo. Eu tô afastado de qualquer política partidária. Eu quero retribuir àquelas pessoas que estiveram junto com a gente.

Terra -Como são esses projetos?

Hierro - Antes do Natal, tínhamos feito um torneio de futebol onde reunimos 300 pessoas. Ali foi uma confraternização só entre nós. Se a gente reuniu 300 ali, se a gente cobrasse 2 kg de alimento de cada um a gente teria 600 kg para distribuir. Então, vamos fazer alguma coisa para alguém, nós temos condições. Nós estamos nos divertindo, reunindoo amigos, nós temos condições para isso. Marcamos aquela data no Natal, conversamos internamente e no mesmo momento um empresário, contato meu, sem saber de nada veio e me procurou. "Tu mora lá na vila, eu quero fazer uma doação de brinquedos aqui". Pô, a gente tá pensando justamente nisso. Eu sei que a gente não iria conseguir mais que 80, 90, individual. Mas quando uma empresa te doa 350 brinquedos...

Terra -Que empresa é essa?

Hierro - Ele quis se manter anônimo. Assim como tem essa empresa, tem outros contatos que sempre dizem: procura a gente, se o projeto for interessante a gente abraça. A banda teve um custo, está tendo um custo, era um custo alto. Alguém está bancando isso. São as empresas que estão bancando o projeto.

Terra -Pretende deixar isso transparente, declarado em algum lugar?

Hierro - Enquanto eles quiserem ser anônimos, vão continuar sendo anônimos. Se quiserem, eu divulgo.

Terra - É apenas uma retribuição ou é uma ideia maior?

Hierro - As coisas vão acontecer naturalmente. Eu acredito que todos os colorados vão me enxergar sendo muito mais torcida fora do estádio do que os que estão lá dentro. Quando eu falo nas coisas acontecerem naturalmente, vai ser nisso. Eu não sou torcida, eu não posso ser torcida enquanto a Justiça não me permitir. Aqui fora, o que a gente tá fazendo é projeto social. A gente não é torcida. Eu sei que todo mundo vai enxergar dessa maneira. "Os caras tão melhor que a torcida que tá dentro do estádio". Mas eu não vou dar essa resposta pra ele. "Daqui a pouco, quando a Justiça me liberar, eu vou estar aí dentro". Não, isso eu não vou dizer. Quem vai dizer é o próprio tempo, é o jeito que as coisas vão andar. Eu não estou aqui querendo criar conflito. As próprias críticas que eu faço, eles têm que entender como críticas construtivas. Eu estou apontando os erros, as falhas. Eu quero que o Inter tenha uma torcida forte, bonita. Se tudo que eu fiz até 2011 não serviu para nada, então tudo bem. Se tiverem um pouco de inteligência, não vão ficar me respondendo, me ameaçando em rede social. Vão ouvir as minhas críticas e vão se consertar. É um caminho que eles têm.

Terra - E a história do check-in? (no dia do primeiro evento-teste do Beira-Rio, restrito para sócios, Hierro escreveu no twitter "check-in feito", o que causou uma celeuma entre os colorados nas redes sociais, pois ele está impedido de ir ao estádio). Aquilo aconteceu?

Hierro - O check-in foi feito, ele aconteceu.

Terra - Mas você é sócio?

Hierro - Nenhum momento disse que era meu. Disse que o check-in foi feito. Usei os meus contatos para fazer. Os caras que estão sentados lá dentro, trabalhando...tu é funcionário do Inter, que está trabalhando com um chefe que quando chegou lá tu já estava. Tu não gosta da política dele, tu sabe que a política dele está errada. Eles estavam conduzindo as coisas erradas para outros, eu fui junto. Bota o meu aí também. Tava com a ordem, "faz check-in nessa lista". Botou a minha junto. O cara vai fazer.

Terra -Aquilo então era uma forma de protesto?

Hierro - Sim. As coisas erradas ficam sempre escondidas. Eu mesmo faço coisas erradas que não divulgo, ninguém vai descobrir. São outras pessoas que descobrem e divulgam. O que eu souber de errado eu vou divulgar. Eu sei que aqueles check-ins foram todos errados, aquilo não era para acontecer. Check-in para os compadres! Então, aquilo ali foi uma forma de dizer para a torcida: tá errado. Me usem de bode expiatório, podem me usar.

Terra -A imprensa foi atrás de você.

Hierro - A imprensa tá de olho em todos os meus passos. Qualquer coisa que eu faço. Com essa história de rede social, é super fácil de tu conseguir manipular as coisas. Eu tento manipular a imprensa. Levo eles para um caminho que é totalmente o contrário meu. Tanto é que eu não falo com ninguém. Tem muita coisa que eles ficam deduzindo lá mas não sabem se é verdade, pq eu não falo.

Terra -Os argentinos vindo pra cá, vem a imprensa deles também, e vem os 400 para ficar no Partenon. Você vai receber esses caras no Partenon?

Hierro - Tem me procurado diariamente. Não falei, não falo com ninguém. Se eles quiserem, receber, eles vão tratar. Eu acredito que eles não vão querer receber.

Terra - Como é que você trabalha com eventuais riscos que podem acontecer? Por exemplo, o que aconteceu na República Checa em 2006, ou o cara do Rosario Central que morreu na África do Sul. Daqui a pouco você pode ser responsabilizado por estar com esses caras. Está preparado para isso?

Hierro - Toda a minha estrutura, de logística, jurídica, está sendo montada da seguinte maneira: só vamos trabalhar dentro da legalidade com eles. O que for ilegal, é problema deles, eles vão levar as pauladas.

Terra -Mas pode acontecer do ônibus ir de Porto Alegre para Minas Gerais e matarem um cara no meio da estrada, e você acaba sendo chamado para depor...

Hierro - Um ônibus de 40 pessoas, foi alguém que matou.

Terra -Mas você contratou...

Hierro - Não vou contratar. Vou facilitar a negociação.

São eles que vão pagar?

Hierro - Sim, são eles que vão pagar e ter a responsabilidade.

Terra -Seu trabalho é facilitar a negociação, então?

Hierro - É o que eu disse antes. O canal tá aberto para quem quer que seja fazer essa negociação de tratativa com eles dentro do País. Eu sou um elo. Eu tenho uma imposição, pq sou uma voz que eles escutariam. Eles estão dentro do meu território e seguem muito a questão de hierarquia. A maneira de conduzir as coisas é semelhante, eles vão ir dentro do que eu traçar. Eu vou traçar um plano completamente legal.

Terra -Se barrarem os caras na fronteira, isso pode prejudicar o negócio.

Hierro - Mas não vão barrar todo mundo. Tem alguns que já estão aí, vieram de veraneio e já estão no Brasil.

Terra -  Na Europa já entraram em contato contigo?

Hierro - Sim, estamos negociando com os europeus. Os sérvios estavam em contato conosco. Como eles não vêm para a Copa, me indicaram torcedores gregos. Dentro do plano de logística para os argentinos, tem uma semana de estadia no Rio. Do jogo do Rio até um dia antes do jogo de BH. Eu tenho uma parceria no Rio e estamos montando alojamento lá também. O Rio é o fervo, é onde tudo vai acontecer. Minha maior preocupação com os argentinos nem é Porto Alegre, é o Rio, não posso deixar eles soltos lá por que é conflito certo. Então, o que eu fiz: nós vamos enclausurar eles no subúrbio. Não vamos deixar eles saírem para a Zona Sul, no meio do fervo. Eles vão ficar dentro de uma comunidade que vai ser só lá. Dali, vai para o jogo do Maracanã, volta para a comunidade, da comunidade fica do último dia até antes de ir para BH. (N. do R.: Hierro não fala o nome da comunidade). As lideranças vão sair, dar uma volta, mas não vai ser aquela trupe. Cinquenta argentinos na Zona Sul, encontram cinco ingleses, é conflito certo. Então, eu quero evitar, fugir dos problemas. Como vamos ter esse alojamento durante a semana para os argentinos no Rio, quero usar eles para os europeus depois, para os gregos. Os gregos querem o Rio e se locomover no transporte aéreo. Mas não vão ficar junto com os argentinos, senão é treta. É simples, dá para montar uma estratégia para as coisas acontecerem com menos problema, basta deixá-los à vontade. Se tiver boa vontade, me ajudam, daqui a pouco vão me enxergar com outros olhos, ao invés de achar que sou mais um bandido.

Fonte: Terra
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