Região portuária é elo entre Rio de Janeiro 2016 e Barcelona 1992
- André Naddeo
- Direto do Rio de Janeiro
Que o prefeito Eduardo Paes adora abusar do seu jeito despojado, em alguns momentos beirando o estilo "fanfarrão", a mídia está cansada de noticiar. Mas ao fazer a abertura do segundo seminário Conexão Rio-Barcelona - As Olimpíadas e a Cidade, no Palácio da Cidade, na manhã da última terça-feira, o comandante municipal resumiu em mais uma de suas tradicionais quebras de protocolo o objetivo da capital fluminense para os Jogos Olímpicos de 2016, ao apresentar da seguinte forma o ex-prefeito da capital catalã, Pasqual Maragall: "sabe aquela velha máxima 'do eu quero ser você amanha?' Eu quero ser esse cara", disse. Com tapinhas nas costas e tudo.
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Pasqual Maragall foi o prefeito que comandou a revolução urbanística de Barcelona para os Jogos Olímpicos de 1992, com importantes intervenções que deixaram um legado inestimável para a população e transformaram a cidade em referência europeia. "Tem dois tipos de Jogos Olímpicos: os Jogos que se utilizam da cidade, e a cidade que se utiliza dos Jogos. Esse passou a ser o nosso mantra. Por isso esse contato permanente com Barcelona, que é absolutamente fundamental para a história que a gente quer construir", explicou Paes.
A quatro anos de sediar a primeira Olimpíada na América do Sul, o Rio de Janeiro, em paralelo aos encargos de Parque Olímpico e demais estruturas exigidas pelo COI, corre contra o tempo para cumprir tal missão. Já colocou em prática a primeira parte dos corredores de ônibus (os BRTs) para acelerar a mobilidade urbana, tem seu plano traçado para dobrar sua capacidade hoteleira, dentre outros projetos. Mas nenhuma das intervenções vai seguir tão a risca o legado catalão como a revitalização da região portuária do Rio de Janeiro.
"O que eles fizeram no porto de lá é o principal exemplo que temos que seguir. Eles se preocuparam desde o início em transformar a cidade", afirmou Maria Silvia Bastos, presidente da Empresa Olímpica Municipal. "Vinte anos depois Barcelona ainda se beneficia disso. É dessa atitude que a gente quer se beneficiar", reforçou.
"No caso deles, era ainda mais grave. Dentro da cidade, era a única zona que eles tinham para se olhar o mar. O elevado da Perimetral deles era uma linha de trem. As pessoas não conseguiam chegar perto do mar, você tinha um obstáculo físico muito forte. Eles fizeram algo parecido com o que a gente está fazendo aqui, um túnel que permitiu que o trem passasse por baixo, e o acesso se transformou completamente", completou o prefeito Eduardo Paes.
De fato, Barcelona remodelou não só apenas para encontrar o mar. O porto olímpico se transformou em área de lazer, com shoppings, bares, e restaurantes. Uma nova zona turística, que passou a contar há 20 anos com novos ancoradouros para as embarcações, e um centro de vela administrado pela Federação Catalã de Vela.
"Recuperar o porto foi muito importante para voltarmos a ter o contato permanente com o mundo. O porto de Barcelona foi sempre o que Madri nunca teve", relembrou o ex-prefeito Maragall, apontando ainda vantagens do Rio de Janeiro para recuperar a região. "Aqui vocês têm uma abundância de território e de vegetação. Nós temos uma cidade muito densa e compacta. Aqui há mais espaço para as intervenções", explicou.
São cinco milhões de metros quadrados, que nas últimas décadas estiveram à mercê do descaso. Lixos nas ruas e comércio praticamente inexistente eram exemplos de um verdadeiro deserto urbano no coração da metrópole fluminense. Neste domingo, porém, o porto do Rio começa a ganhar nova cara: será inaugurada a fase 1 do projeto. Na ordem de R$ 139 milhões investidos pelos cofres municipais, as principais ruas da região ganharão "nova roupagem": obras de drenagem foram realizadas, e sistemas de energia, esgoto, gás natural e rede subterrânea, refeitos.
"É uma mudança muito radical na história da cidade. Mobilidade é fundamental, sem isso é uma cidade inviável, coisa que a gente ainda vê muito no Rio de Janeiro. Há um longo caminho a percorrer", explicou Eduardo Paes, já falando sobre a fase 2 das intervenções, que consumirão, via parceria público-privada (PPP), uma soma infinitamente maior: R$ 8 bilhões. A começar pela derrubada do viaduto da Perimetral, ligação entre zona sul, centro e zona norte da cidade, com o mesmo problema da antiga linha férrea catalã: fecha a vista para o mar.
"A cidade vai deixar de ter esse obstáculo", conta Paes, sonhando com as quatro faixas de rolamento, em cada sentido, que cruzarão o trecho via túneis subterrâneos, abrindo a vista turística para a região revitalizada, que ainda contará com parte da vila de mídia dos Jogos Olímpicos de 2016, a outra metade ficará na Barra da Tijuca.
Além das obras de mobilidade, o projeto "Porto Maravilha", da Prefeitura do Rio, contará ainda com o Museu do Amanhã, numa espécie de península na Baía de Guanabara, que ao custo (triplicado do valor inicial) de R$ 200 milhões, será a "âncora" de toda modernização da região.
Questão de atitude
Transformar o porto em zona turística é a primeira medalha de ouro que o Rio de Janeiro pode conquistar para seus habitantes, na opinião do ex-prefeito de Barcelona. Pasquel Maragall, no entanto, chama a atenção para um ponto crucial de qualquer projeto urbanístico extenso, que causam transtornos com obras que parecem nunca chegar ao fim.
"Os Jogos Olímpicos em Barcelona foram caros, mas não tão caros porque muita gente ofereceu seu trabalho, sem cobrar nada. Tivemos intervenções em que foi preciso desalojar muita gente, mas isso não foi feito pelas empresas, e sim pelos próprios voluntários. Houve uma vontade coletiva", explica. Se pensar que a derrubada do viaduto da Perimetral ainda divide muitas opiniões, o recado é mais do que pertinente.
"É essa atitude que a gente quer se beneficiar. Tem os ensinamentos do 'Barcelona Guapa', que foi a recuperação dos prédios históricos, que a gente está olhando, justamente por ter a ver com o projeto (já existente) 'Rio: Eu amo, Eu Cuido'. A gente está de olho nisso também", explicou Maria Silvia Bastos, da Empresa Olímpica Municipal.
Lacunas
Por mais que o porto seja referência e o espírito catalão, premissa fundamental, um exemplo de Barcelona 92 ainda está longe de ser um modelo passível de implantação. Num trecho de Barcelona, os dutos de recolhimento de lixo esvaziaram as ruas de caminhões de lixo e promoveram um trabalho seguro de reciclagem.
"É muito caro e muito complicado, um investimento muito grande, foi o que me disseram. Eu acho que seria bacana fazer apenas em um pedaço da cidade. A gente não tem nem coleta seletiva no Rio de Janeiro. Tem um ponto que é fundamental, que a gente não chegou lá ainda que é o engajamento da população. As pessoas acham que o lixeiro tem que voltar para pegar o lixo que você acabou de jogar no chão", diz Maria Silvia Bastos, reforçando o tema.
Barcelona também foi modelo na construção de hotéis por toda a cidade para despontar de vez como um dos principais pontos turísticos da Europa. Enquanto isso, o Rio de Janeiro corre contra o tempo para dobrar os 20 mil quartos hoje existentes na cidade. Nove mil leitos já estão em construção, e outros dez mil, sob análise, como explica a autoridade olímpica municipal.
"Até 2016 dobraremos nossa capacidade. Foi feito um pacote e uma legislação específica de incentivos fiscais e urbanos, com data para acabar, até dezembro de 2013, para se dar tempo de se construir os novos hotéis. E estes novos hotéis têm o compromisso de reservar 90% para a Olimpíada. Temos também o plano dos navios-cruzeiros, que estão sendo considerados", explicou Maria Silvia.
Londres 2012 no Terra
O Terra, maior empresa de internet da América Latina, transmitirá ao vivo e em alta definição (HD) todas as modalidades dos Jogos Olímpicos de Londres, que serão realizados entre os dias 27 de julho e 12 de agosto de 2012. Com reportagens especiais e acompanhamento do dia a dia dos atletas, a cobertura contará com textos, vídeos, fotos, debates, participação do internauta e repercussão nas redes sociais.