Script = https://s1.trrsf.com/update-1768488324/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE

Peões de rodeio começam a trocar chapéus por capacetes

10 jan 2009 - 19h13
Compartilhar

Havia tantos capacetes espalhados por trás dos bretes na abertura do evento Professional Bull Riders que os peões não tinham como diferenciá-los. Cord McCoy e Harve Stewart, prestes a montar nos touros, riram quando encontraram seus capacetes idênticos lado-a-lado em meio à confusão.

Nesse momento, o duas vezes campeão mundial Chris Shivers, 30 anos, estava sentado em uma sala nos fundos, examinando uma foto digital de seu rosto tirada minutos antes. Graças à pancada de soslaio do chifre de um touro de 680 kg chamado Rebound, seu nariz entortou, na forma do Estado da Califórnia.

Um médico o endireitou, e Shivers estava sentado com gaze nas narinas, rosto ensangüentado, enquanto explicava exausto por que não usava capacete. "Parece uma boa idéia agora", disse.

Shivers, que fraturou o lado esquerdo de seu rosto no ano passado, disse que já estava velho demais para mudar. Então cuspiu sangue em uma lata de lixo.

O rodeio está a meio caminho de uma mudança cultural, que avança um pouco a cada nariz quebrado ou concussão. Os capacetes não são ainda obrigatórios, mas seu uso hoje aumenta em um ritmo que era inimaginável a alguns anos atrás.

No evento de Baltimore semana passada, 23 dos 45 peões usaram capacetes, tendo sido a primeira vez que o número de atletas com capacete superou o dos sem a proteção. Mês passado, no National Finals Rodeo, o torneio da Associação dos Cowboys de Rodeio Profissional, J.W. Harris se tornou o segundo competidor em três anos a ganhar o título de montaria em touro usando capacete.

Esse é um divisor de águas na luta contínua para persuadir os atletas a trocar os chapéus de feltro por um capacete robusto com uma grade de titânio.

"É enorme", disse Don Andrews, diretor-executivo da equipe médica que viaja com a associação de cowboys.

A montaria em touro se considera o esporte radical original. Um em cada 15 atletas no circuito principal do Professional Bull Riders - que está no Madison Square Garden neste fim de semana - acaba se ferindo, disse o doutor Tandy Freeman, diretor médico do circuito. Segundo ele, 15% dos ferimentos são concussões. O procedimento cirúrgico mais comum é a reparação facial.

"Faz sentido usar um capacete", disse Freeman. "Mas nem tudo que esses caras fazem é sensato".

Estudos mostram que tentar se manter sobre um touro pulando e girando por oito segundos é mais perigoso que jogar futebol americano ou hóquei, esportes cujo uso de capacete é obrigatório. Para aventuras radicais mais recentes, como snowboarding e skate, o uso do capacete quase nem é mais discutido. A maioria sempre usa um.

"É uma coisa de cowboy", disse Ty Murray, 39 anos, o peão mais condecorado da história dos rodeios, que se aposentou dos campeonatos. "É a América, a idéia toda do ícone cowboy com um chapéu - em qualquer outro esporte, as pessoas diriam, 'é, eles deveriam usar um capacete'".

Murray nunca usou um. Há poucos anos, apenas um número reduzido de atletas usava capacete, e geralmente só depois de ter se ferido na cabeça. Só agora os capacetes são encarados como precaução, não reação.

A carreira de Murray terminou com tutores em seus joelhos surrados. "Se tivesse que recomeçar minha carreira, teria usado os tutores antes de me machucar", disse. E provavelmente usaria um capacete.

Em meio ao grande debate, o Professional Bull Riders e a Associação de Cowboys de Rodeio Profissional, entre outras organizações de rodeio mais jovens, não tornaram o capacete obrigatório. Isso se deve em parte à relutância em exigir o uso de capacetes em um esporte e cultura que valorizam a independência. E principalmente porque nenhum fabricante produz em massa capacetes que cumpram os padrões de segurança para montar num touro de 680 kg, segundo os oficiais do circuito. Se algum fabricasse, o custo seria provavelmente proibitivo.

"Se alguém exigisse o uso de um capacete que não foi avaliado e aprovado para a montaria em touros, provavelmente estaria pedindo para ser processado", disse Andrews.

Por enquanto, a esperança é que as crianças nos rodeios cresçam usando capacete porque seus pais as obrigam, e que continuem a usá-los como profissionais porque seus colegas o fazem.

Para o alívio das duas associações, a estratégia de se aguardar pelo melhor está lentamente funcionando. "Daqui a uns dois anos não vai ter ninguém sem capacete", disse Murray. "Será como olhar fotos antigas de futebol americano, da época em que não usavam máscaras faciais".

O hóquei talvez seja uma comparação mais adequada. Capacetes eram um sinal de fraqueza, mesmo entre alguns goleiros, até que Bill Masterton, jogador do Minnesota North Stars, morreu de traumatismo craniano em 1968. Pouco depois, estrelas como Stan Mikita, do Blackhawks, estavam usando capacetes. Em 1979, a liga americana de hóquei passou a exigir que os novos jogadores usassem o equipamento.

Acidentes fatais criaram movimento semelhante no rodeio. O campeão Lane Frost morreu em 1989 quando foi perfurado pelo chifre de um touro. Cody Lambert, peão de rodeio e grande amigo de Frost, desenvolveu um colete acolchoado de couro, hoje usado pelos competidores.

Brent Thurman morreu em 1994 quando o casco de um touro esmagou seu crânio no National Finals Rodeo. Isso motivou Morris Futch, cuja própria carreira terminou por causa de um ferimento grave na cabeça, a desenvolver capacetes para montaria em touro. Sua empresa, Bullthoug, essencialmente adapta capacetes de hóquei com máscaras faciais de titânio. Eles são vendidos por cerca de US$ 500.

Coletes, entretanto, parecem ser algo que um cowboy usaria. Capacetes não. Sem uma padronização, a variedade de capacetes é grande. O ganhador do Baltimore PBR, Kasey Hayes, 23 anos, usava uma máscara facial com uma tira de couro, semelhante às usadas antigamente no beisebol pelo receptor, e um chapéu de cowboy. É o mesmo que usa desde os 12.

Os peões não questionam mais quando alguém como Brandon Clark, 28, começa a usar capacete, prática que passou a adotar ao final de seu sexto Professional Bull Riders no último outono americano. Ele teve seis concussões em 2008.

"Meus amigos falavam, 'você precisa acordar'", disse Clark. "Eu era um cowboy típico - 'Não preciso disso'".

Existem poucas dúvidas de que capacetes ajudam a prevenir ferimentos, ou sua severidade, mas é difícil avaliar quanto. Freeman disse que peões com capacetes também têm muitas concussões.

"Já vi gente ser pisada e ter seu capacete despedaçado em cinco partes", disse Freeman. "Eles acabam com uma concussão e um escalpo raspado, mas você pensa, intuitivamente, que teria sido bem pior sem o capacete".

Mas alguns atletas acham o peso do capacete uma distração. Outros acham que seu campo de visão fica limitado. Muitos disseram que competidores com capacete parecem bater a cabeça nos touros com mais freqüência que os sem, especulando que talvez seja porque eles montam com uma sensação de falsa invencibilidade.

"Ainda acho que precisa haver um pouco do espírito cowboy nesse esporte", disse Dustin Elliott, veterano dos circuitos que não usa capacete. "Se você não se assusta nem um pouco, você não deveria estar fazendo isso".

Cada vez mais, porém, os atletas se assustam com a possibilidade de montar sem capacete. No circuito do Professional Bull Riders, o campeão do ano passado Guilherme Marchi (sem capacete) ganhou mais de US$ 1,5 milhão e 22 outros competidores pelo menos US$ 100 mil. Eles não recebem se não montam.

Essa é uma das razões do estigma do uso de capacete estar desaparecendo, mesmo à custa do simbólico chapéu de cowboy.

"Essa não é mais a questão", disse Clark. "Não se ganha dinheiro nesse esporte se você estiver em casa com a cara quebrada."

No final do corredor, Shivers e seu nariz quebrado estavam fora da competição.

Tradução de Amy Traduções.

Foto: The New York Times
The New York Times
Compartilhar
TAGS
Publicidade

Conheça nossos produtos

Seu Terra