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Sistema inédito de acessibilidade inspirado em relógio mostra a verdadeira dimensão da inclusão

'See Color', que identifica cores e seus vários tons em qualquer objeto físico ou virtual, já está em uso na indústria do plástico; alvo do projeto era o público com deficiência visual, mas o recurso ultrapassou a barreira que separa pessoas com e sem deficiência e marca uma evolução na tecnologia assistiva que deve guiar novas ideias e metas; Sandra Regina Marchi, pesquisadora brasileira criadora do modelo, e Carlos Moreira, diretor-executivo do Instituto Nacional do Plástico, dizem que o métod

1 abr 2025 - 14h56
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No 'See Color', a posição no painel identifica a cor e os pontos marcam as tonalidades.
No 'See Color', a posição no painel identifica a cor e os pontos marcam as tonalidades.
Foto: Divulgação. / Estadão

As posições dos números de um relógio analógico, aquele de formato circular e que mostra horas, minutos e segundos com ponteiros, serviram de inspiração para a criação de um novo recurso de acessibilidade que ultrapassa as barreiras de isolamento da população com deficiência. A inovação marca um ponto crucial de evolução na tecnologia assistiva e escancara, na prática, as dimensões da verdadeira inclusão.

No 'See Color', a posição no painel identifica a cor e os pontos marcam as tonalidades.
No 'See Color', a posição no painel identifica a cor e os pontos marcam as tonalidades.
Foto: Divulgação. / Estadão

'See Color' é o nome do sistema criado criado pela professora Sandra Regina Marchi, graduada em Artes Plásticas pela Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC) e integrante da Rede de Pesquisa e Desenvolvimento em Tecnologia Assistiva (RPDTA). A pesquisadora desenvolvolveu o método na tese de doutorado, a partir da Teoria das Cores, que considera cores primárias (vermelho, amarelo e azul), secundárias (laranja, verde e lilás) e neutras (preto e branco). A docente mora em Curitiba (PR), onde aprofundou seus estudos e se dedicada a desenvolver dispositivos, técnicas e processos voltados à autonomia das pessoas com deficiência.

A ideia principal é usar as mãos para identificar as cores de objetos, informação fundamental que costuma estar indisponível para cegos, surdos-cegos, pessoas com baixa visão ou daltônicas. São raros os painéis com essa identificação em braile, um sistema fundamental na alfabetização de quem nasce sem a capacidade de enxergar, mas complexo para quem adquire deficiência visual por consequência de acidente, condição congênita ou contraída. Essa é uma das muitas barreiras que impedem a autonomia e a compreensão completa dos elementos apresentados em todos os espaços públicos ou privados.

O 'See Color' é tátil, assim como o braile, mas também é visual. "O método tem base em códigos, linhas e pontos em alto relevo, para o cego sentir com os dedos, mas quem enxerga - como os daltônicos, que não conseguem diferenciar as cores corretamente -, visualiza os códigos e sabe a cor dos objetos sem usar o tato. Basta conhecer o código, que é igualzinho ao ponteiro de um relógio. Sabendo da posição do código no relógio, já sabe qual é a cor", explica Sandra Regina Marchi.

De acordo com a professora, o alvo do projeto era o público com deficiência visual, mas ao finalizar, ainda nos experimentos da tese, ela percebeu que havia criado algo que facilitaria a vida de pessoas com e sem deficiência visual.

"Ajuda, por exemplo, nas compras pela internet, porque, pelo computador, nunca sabemos exatamente qual é a cor da mercadoria que estamos comprando. Isso foi pontuado por decoradores e arquitetos na época da pandemia, e por seus clientes, que precisavam fazer compras online de objetos de decoração sem enxergar a cor exata, que é alterada na foto exposta nas plataformas", conta a pesquisadora.

"Os códigos vão servir para qualquer um de nós quando tivermos dúvidas de uma cor, por exemplo, ao comprar uma peça de roupa. Muitas vezes, dentro de lojas, conforme a iluminação, temos dificuldade em ter certeza se estamos levando grafite ou preto ou azul-marinho. Só conseguimos identificar realmente a cor quando levamos a peça para rua, sob a luz do sol", diz Sandra Regina Marchi.

O 'See Color' já está em uso na indústria do plástico e será destaque no lançamento do Color Trend 2026®, guia de tendências de cores para nortear decisões de profissionais do setor, evento entre 8 e 10 de abril, no Novotel Center Norte, em São Paulo, organizado pelo Think Plastic Brazil, criado pelo Instituto Nacional do Plástico (INP), com a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimento (ApexBrasil).

Sandra Regina Marchi e Carlos Moreira, diretor-executivo do Instituto Nacional do Plástico e de projetos do Think Plastic Brazil, falam sobre a aplicação do 'See Color'.

blog Vencer Limites - Por quais motivos foi identificada a necessidade de criar um sistema além do braile para reconhecimento das cores? Quais lacunas e dificuldades de acessibilidade a equipe encontrou para levar as informações ao público com deficiência visual que exigiram esse complemento à comunicação?

Sandra Regina Marchi - O primeiro grande motivo foi que o braile não é universal, ele é um alfabeto, portanto, um aluno que aprendeu braile no Brasil não consegue ler um texto em inglês, por exemplo. Além do braile ser dificílimo. A deficiência visual é, mundialmente, a deficiência que acomete o maior número de pessoas, dentre todas as deficiências, porém, a maioria não nasce cega, mas se torna cega com o passar do tempo, por doenças ou acidentes, e para essas pessoas o braile é quase impossível de aprender. Além do mais, outro caso relevante é o daltonismo, que atinge um a cada dez homens, e esse público é tão dependente de terceiros na escolha de cores quando uma pessoa cega. O segundo motivo são as dimensões para se nominar uma cor, o braile é extenso e, dessa maneira, impeditivo para pequenas dimensões.

Quanto às dificuldades, bastou um estudo superficial para se entender que o simples não acesso à informação 'cor' leva pessoas com deficiência visual à marginalidade de informações e gera perigo, altera indicações geográficas, temperaturas ou códigos químicos. Nossa sociedade usa esse recurso largamente para economizar espaços e facilitar a comunicação entre seres humanos. Por exemplo, uma sinaleira de trânsito, botões para ligar e desligar aparelhos eletroeletrônicos, vários lugares em prédios públicos têm salões desta ou daquela cor, mapas cartográficos que definem localidades ou temperaturas, gráficos, materiais educacionais e assim por diante, até na moda, em que todos cobram elegância fundamentada em cores e suas respectivas combinações.

Esse método inovador tem como objetivo principal proporcionar autonomia, independência, inclusão, autoestima e qualidade de vida.

Carlos Moreira - O braile não foi desenvolvido para a identificação de cores e exige um aprendizado longo e estruturado, o que limita sua acessibilidade. Além disso, muitas pessoas com deficiência visual não têm conhecimento de braile, especialmente aquelas que perderam a visão ao longo da vida. Isso cria uma lacuna na comunicação, impedindo que elas identifiquem cores em objetos do cotidiano.

Para o setor do plástico, isso representa um desafio significativo, já que os produtos plásticos estão presentes em diversos segmentos essenciais, como embalagens de alimentos, frascos de medicamentos, plasticultura, brinquedos, utilidades domésticas e decoração. Sem um sistema acessível de identificação de cores, uma grande parcela da população é excluída da experiência de escolha e uso desses produtos.

O 'See Color' foi criado para preencher essa lacuna, permitindo que pessoas cegas, daltônicas ou com baixa visão consigam identificar cores por meio do tato, em apenas 20 minutos de aprendizado. Sua implementação no Color Trend® pelo Think Plastic Brazil garante que a inovação e a acessibilidade caminhem juntas, promovendo um setor mais inclusivo, sustentável e conectado às necessidades do consumidor global.

Além disso, como parte da estratégia do Think Plastic Brazil, serão ministrados cursos para ajudar as empresas a entenderem a importância da escolha correta das cores para seus produtos, garantindo que as cores do Color Trend® contem histórias autênticas do Brasil e sejam aplicadas de forma acessível.

blog Vencer Limites - Esse novo sistema seria usado em produtos para o público consumidor final, ou seja, para quem vai ao estabelecimento comercial físico e precisa escolher um item no qual a cor é fator determinante? Ou está restrito ao movimento da indústria de plástico?

Carlos Moreira - Pode ser implementado tanto no setor industrial quanto no varejo, ampliando a acessibilidade e inclusão social no uso das cores.

O apoio do Think Plastic Brazil reforça a importância da escolha estratégica das cores para aumentar a percepção de valor dos produtos plásticos nos mercados internacionais. O plástico é um material fundamental em setores como saúde, alimentação e decoração, e a correta identificação das cores pode impactar tanto o consumidor final quanto a indústria.

Ao incorporar o see color ao Color Trend®, as empresas do setor plástico poderão ajudar consumidores com deficiência visual a identificar corretamente as cores dos produtos, facilitar o descarte correto dos resíduos plásticos, colaborando com a economia circular, e agregar valor ao design dos produtos, destacando-se no mercado global.

Além disso, as empresas que participarem dos cursos estratégicos sobre cores oferecidos pelo Think Plastic Brazil receberão um selo do Color Trend®, atestando que utilizam as tendências de cores de forma estratégica e acessível. Esse selo poderá ser utilizado em materiais de comunicação, embalagens e ações promocionais, agregando credibilidade e inovação às marcas participantes.

Se todas as empresas da indústria do plástico adotarem esse sistema, além de fortalecerem suas estratégias de ESG, contribuirão diretamente para uma sociedade mais inclusiva, onde todas as pessoas, independentemente de suas limitações visuais, possam ter uma experiência completa na escolha de produtos plásticos.

Sandra Regina Marchi - Este sistema, se utilizado em tudo que houver cor, resolve a vida de bilhões de pessoas com apenas com um toque do dedo, sem equipamentos. Conseguem por conta própria identificar a cor de qualquer produto, seja brinquedo, cosmético, medicamento, calçado, roupa, ler mapas cartográficos, produtos químicos de limpeza ou higiene, abrir uma geladeira e saber em qual pote guardou tal comida, identificar marcas de produtos pela cor da embalagem, apreciar uma obra de arte, enfim, tudo ao nosso redor tem cor e esse público não tem acesso a um informação que é tão importante.

blog Vencer Limites - Ainda é um protótipo ou já pode ser aplicado no dia a dia? Há empresas que já adotam o sistema?

Sandra Regina Marchi - Já é um produto patenteado, pronto para o uso imediato. Pessoas com deficiência visual espalhadas pelo Brasil conhecem e já fazem uso deste método. Quanto às empresas, já há pelo menos uma indústria de etiquetas no Paraná e uma indústria de roupas em São Paulo que fazem uso do método.

Carlos Moreira - Já está pronto para aplicação imediata, e o Think Plastic Brazil está trabalhando para promover sua adoção no setor plástico. A grande oportunidade de lançamento e conscientização será no World Plastic Connection Summit 2025, onde o Color Trend® 2026 será apresentado já incorporando o 'See Color' como um sistema acessível de identificação de cores.

Para garantir uma ampla disseminação da metodologia, o Think Plastic Brazil oferecerá cursos estratégicos que ajudarão as empresas a compreenderem como aplicar as cores do Color Trend® de maneira estratégica, contar histórias autênticas sobre as cores e implementar a linguagem tátil do see color em seus produtos.

As empresas que concluírem o curso receberão o Selo Color Trend®, um reconhecimento oficial de que utilizam as cores do Color Trend® de forma estratégica e acessível, e um certificado de capacitação garantindo que a empresa domina o uso das cores como um diferencial competitivo.

Esses selos e certificações serão um diferencial importante para as empresas que desejam expandir sua presença no mercado global, demonstrando compromisso com inovação, inclusão e sustentabilidade.

Dessa forma, o see color já pode ser aplicado no dia a dia, e a adesão do setor plástico será impulsionada pela estratégia do Think Plastic Brazil, que posiciona a indústria brasileira como líder em tendências globais de cores, inovação e acessibilidade.

Não é apenas uma inovação tecnológica, mas um marco para a inclusão social na indústria plástica. A introdução no Color Trend® transforma a maneira como as cores são aplicadas e identificadas no setor, beneficiando tanto consumidores quanto empresas.

Símbolos identificam tonalidades.
Símbolos identificam tonalidades.
Foto: Divulgação. / Estadão
Relógio analógico serviu de inspiração para a criação do 'See Color'.
Relógio analógico serviu de inspiração para a criação do 'See Color'.
Foto: Divulgação. / Estadão
Símbolos identificam cores e tonalidades.
Símbolos identificam cores e tonalidades.
Foto: Divulgação. / Estadão
Estadão
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