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Tragédia em Santa Maria

Delegado: 'só dava para ver 1/4 do banheiro por causa dos corpos'

1 fev 2013 - 10h31
(atualizado às 11h25)
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Nascido em Santa Maria, filho de um delegado de polícia e uma professora da rede estadual, Marcelo Arigony, agora no mesmo papel que viu seu pai desempenhar ao longo da vida, enfrenta o maior desafios de sua carreira: elucidar as circunstâncias e apontar os responsáveis pelo incêndio ocorrido na Boate Kiss, onde mais de 230 pessoas morreram no domingo.

Familiares e amigos deixam flores em frente a Boate Kiss, palco da tragédia que deixou mais de 230 pessoas mortas
Familiares e amigos deixam flores em frente a Boate Kiss, palco da tragédia que deixou mais de 230 pessoas mortas
Foto: Fernando Borges / Terra

Para desempenhar sua tarefa, ele usará da toda experiência adquirida no comando de 21 delegados e 200 policiais na condução da Delegacia Regional de Santa Maria. Ele entrou na polícia em 1997 e desde então atuou em diversas cidades, inclusive na capital gaúcha.

De fala rápida, sucinta e cautelosa, Arigony diz que se sente na obrigação de trazer uma resposta para a cidade onde praticamente todos conhecem alguma vítima do trágico incêndio da Kiss. Confira alguns trechos da entrevista concedida com exclusividade ao Terra.

Terra: Sua filha fez aniversário no fim de semana em que aconteceu a tragédia na Boate Kiss?

Marcelo Arigony: Ela fez 18 anos na quinta-feira, nós fizemos uma festa na sexta, e depois elas foram para o Absinto (boate local de propriedade de um dos donos da Kiss), todas as amigas, com uma lista lá. Se essa festa tivesse sido sábado, tinha sido ali (na Kiss), porque só abre ali naquele dia, teria sido... graças a Deus, não ocorreu problema nenhum. Nenhum dos colegas dela faleceu, porque estavam todos de ressaca do dia anterior.

Terra: A que horas o senhor ficou sabendo do incêndio na Kiss?

Arigony: Fiquei sabendo por volta das 4h. A primeira pessoa com a qual eu fiquei preocupado foi a minha filha, embora soubesse que ela não estava lá porque estava pousando (dormindo) com os meus pais. Eu liguei, ela confirmou e disse: "a Sabrina estava lá", nossa prima, daí eu já pensei o pior.

Logo depois, comuniquei a chefia e fui até o local. Quando eu cheguei lá, os bombeiros ainda estavam trabalhando. Eu entrei, não carreguei ninguém, mas os corpos estavam todos por lá. Logo na sequência, achamos que eram poucos corpos - 20, depois 40, e quando eu cheguei ao banheiro, eu vi. Não dava para passar. Só dava para ver um quarto do banheiro por causa dos corpos, por isso, fizemos uma estimativa inicial de 50 corpos. Eu vi os corpos e não consegui passar, não cheguei a ver o resto, não dava para respirar muito. Eu ia, dava uma olhada, depois voltava, achava que era só ali.

Terra: Foi como em uma câmara de gás?

Arigony: Foi uma câmara de gás.

Terra: O que vocês então decidiram fazer naquele momento?

Arigony: As forças trabalharam focadas, num primeiro momento, no processo de identificação. Aquilo foi muito difícil, 230 e poucas pessoas ali. Famílias. Cada uma tinha que fazer o reconhecimento. Daí, tive a ideia de colocar todos no Centro Desportivo Municipal com a lona, que é o que dava para fazer. Precisávamos ser rápidos e liberar os corpos. Tocavam os celulares, era horrível, muito ruim, muito ruim. Um evento dessa natureza, desse tamanho, não se imagina. Ninguém imagina um negócio desses.

Terra: Depois de passar por uma experiência como essas, o senhor se sente diferente?

Arigony: A gente começa a questionar algumas coisas. Mas eu ainda não parei para pensar, porque estamos na adrenalina, tentando resolver. Eu me sinto responsável, não por ter responsabilidade no fato, mas porque sou um o coordenador e minha responsabilidade é essa, de dar resposta à sociedade, eu preciso dar uma resposta à sociedade. 

Então, a gente tá focado nisso e eu não parei ainda para pensar, nem vou parar para pensar nessa situação das mortes, da prima que eu perdi, de tudo isso que ocorreu, então nós vemos que depois, em um segundo tempo, é que nós vamos verificar essa situação. Vamos tocar, tentar resolver isso aí, depois que eu vou tirar uns dias para esfriar a cabeça.

Terra: O senhor se sente muito pressionado pela imprensa, por exemplo?

Arigony:  A imprensa... meu celular está inviabilizado, ele toca mais de 200 vezes por dia. Consegui um novo celular, mas ainda toca muito e não consigo atender, às vezes nem o chefe de polícia (Ranolfo Vieira Junior) eu consigo atender. O chefe de polícia veio aqui, nos deu todo o respaldo para trabalhar e disse que temos que fazer da forma correta.

Se quisesse que eu virasse o inquérito para um lado ou para outro, eu pediria para sair. Então, nós vamos fazer o inquérito de maneira lisa, doa a quem doer. O governador deu esse respaldo, disse que era para fazer o que tinha que fazer, tudo que precisasse, que estava à disposição, só que nós temos que apurar os fatos, e nós vamos apurar os fatos.

Terra: O senhor considera que esse é o momento mais difícil de sua carreira?

Arigony: É o maior desafio da minha carreira em razão do fator emocional das pessoas dessa cidade, com as quais nós convivemos todos os dias, que a gente conhece de uma vida. Meu pai conhece todo mundo aqui na cidade, foi delegado de polícia por 20 anos, nascido e criado aqui, nós conhecemos todo mundo e todo mundo que a gente conhece tem alguém que faleceu ou está no hospital, então a gente se sente na obrigação de dar essa resposta. Nós vamos dar uma resposta com responsabilidade, nós vamos fechar esse quadro, do qual já temos a moldura do que efetivamente aconteceu. 

Incêndio na Boate Kiss

Um incêndio de grandes proporções deixou mais de 230 mortos na madrugada do dia 27 de janeiro, em Santa Maria (RS). O incidente, que começou por volta das 2h30, ocorreu na Boate Kiss, na rua dos Andradas, no centro da cidade. O Corpo de Bombeiros acredita que o fogo tenha iniciado com um artefato pirotécnico lançado por um integrante da banda que fazia show na festa universitária.

Segundo um segurança que trabalhava no local, muitas pessoas foram pisoteadas. "Na hora que o fogo começou, foi um desespero para tentar sair pela única porta de entrada e saída da boate, e muita gente foi pisoteada. Todos quiseram sair ao mesmo tempo e muita gente morreu tentando sair", contou. O local foi interditado e os corpos foram levados ao Centro Desportivo Municipal, onde centenas de pessoas se reuniam em busca de informações.

A prefeitura da cidade decretou luto oficial de 30 dias e anunciou a contratação imediata de psicólogos e psiquiatras para acompanhar as famílias das vítimas. A presidente Dilma Rousseff interrompeu uma viagem oficial que fazia ao Chile e foi até a cidade, onde se reuniu com o governador Tarso Genro e parentes dos mortos. A tragédia gerou uma onda de solidariedade tanto no Brasil quanto no exterior.

Os feridos graves foram divididos em hospitais de Santa Maria e da região metropolitana de Porto Alegre, para onde foram levados com apoio de helicópteros da FAB (Força Aérea Brasileira). O Ministério da Saúde, com apoio dos governos estadual e municipais, criou uma grande operação de atendimento às vítimas.

Na segunda-feira, quatro pessoas foram presas temporariamente - dois sócios da boate, Elissandro Callegaro Sphor, conhecido como Kiko, e Mauro Hoffman, e dois integrantes da banda Gurizada Fandangueira, Luciano Augusto Bonilha Leão e Marcelo de Jesus dos Santos. Enquanto a Polícia Civil investigava documentos e alvarás, a prefeitura e o Corpo de Bombeiros divergiam sobre a responsabilidade de fiscalização da casa noturna.

A tragédia fez com que várias cidades do País realizassem varreduras em boates contra falhas de segurança, e vários estabelecimentos foram fechados. Mais de 20 municípios do Rio Grande do Sul cancelaram a programação de Carnaval devido ao incêndio.

Fonte: Terra
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