Lula busca culpados para queda de popularidade e aposta em campanha anti-Trump para melhorar imagem
Pesquisa mostrando aprovação em queda vertiginosa preocupa governo na véspera de cerimônia para marcar os dois primeiros anos do terceiro mandato petista
BRASÍLIA - A pesquisa Genial/Quaest divulgada nesta quarta-feira, 2, mostrando mais uma queda vertiginosa na aprovação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, surpreendeu e preocupou o Palácio do Planalto. Na véspera da cerimônia preparada para marcar os dois anos do governo, sob o slogan "Brasil dando a volta por cima", o levantamento indicou que o problema do terceiro mandato de Lula não é apenas de comunicação.
Na prática, porém, auxiliares do presidente não sabem explicar o motivo da avaliação tão desastrosa do governo. Lula, por sua vez, continua em busca de culpados para a crise. No seu diagnóstico, a inflação de alimentos e a insegurança pública, que não podem ser debitadas totalmente na conta da gestão federal, contribuem para esse cenário.
Pelos números da Quaest, a aprovação do governo atingiu o pior patamar desde o início do terceiro mandato de Lula, em janeiro de 2023. O índice dos que não gostam da gestão do presidente saltou de 49% em janeiro para 56% em março. No mesmo período, a aprovação de Lula caiu de 47% para 41%. Não foi só: na opinião de 56% dos entrevistados, o Brasil está na direção errada.
Mesmo com as dificuldades enfrentadas, o governo vai aproveitar a cerimônia desta quinta-feira, 3, no Centro de Convenções Ulysses Guimarães, em Brasília, para reembalar programas novos e antigos, como o Pé-de-Meia e o Farmácia Popular. O ato político, que terá Lula no palco e exibição de vídeos, foi planejado em detalhes para transmitir a mensagem de que, após um período de "União e Reconstrução", slogan da gestão petista, o governo começa agora um "segundo tempo".
A ideia não é apenas apresentar ali um balanço e uma prestação de contas, mas, sim, indicar uma nova fase de Lula, que, apesar dos reveses sofridos, ainda é pré-candidato à reeleição, em 2026. Todos os ministérios foram convocados a levar plateia para lotar o auditório do Ulysses Guimarães, que comporta 3 mil pessoas. A solenidade contará até mesmo com mestre de cerimônias.
A ofensiva publicitária deste "segundo tempo" conterá o mote "O Brasil é dos brasileiros", frase lançada em fevereiro em bonés usados por ministros e parlamentares aliados do governo. A estratégia traçada pelo ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social (Secom), Sidônio Palmeira, é um contraponto ao slogan "Make America Great Again" (Faça a América Grande de Novo), que marcou a campanha de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos.
Levantamentos em poder do Planalto revelam que o antitrumpismo também rende votos, principalmente no momento em que o presidente dos Estados Unidos anuncia um tarifaço que atinge o Brasil. É nesse contexto que ressurge a campanha "O Brasil é dos brasileiros", em tom nacionalista, a ser divulgada a partir desta semana na TV, no rádio e nas redes sociais.
Para comemorar a posse de Trump, em 20 de janeiro, aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro, como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, apareceram nas redes sociais exibindo o boné vermelho com o slogan do norte-americano.
Dias antes, ao assumir o comando da Secom, em 14 de janeiro, Sidônio disse a Lula que em três meses a percepção popular do governo melhoraria. O prazo está se esgotando, e, até agora, não foi o que ocorreu.
O que mais impressionou o Planalto na pesquisa Genial/Quaest foi a crescente perda de popularidade da gestão Lula, neste terceiro mandato, em segmentos de eleitores que até agora eram fiéis ao PT, como o de mulheres e de moradores do Nordeste. Além disso, a rejeição ao presidente aumentou justamente na época em que Bolsonaro virou réu, sob acusação de comandar uma trama golpista.
O monitoramento feito pelo governo indicava que a queda de aprovação do governo havia estacionado. Em conversas reservadas, interlocutores de Lula admitem, no entanto, que as redes sociais ainda são o calcanhar de Aquiles da administração e o ponto forte de Bolsonaro e seus apoiadores.