O desrespeito com a advocacia feminina na Conferência Nacional da Mulher Advogada
É estranho ter que começar um texto escrevendo algo óbvio, mas parece fazer-se necessário, neste momento: a Conferência Nacional da Mulher Advogada é um evento voltado às mulheres advogadas. É um momento de celebração da força, debate de ideias e soluções quanto às prerrogativas e direitos de mulheres que têm como ofício a Defesa do Estado Democrático de Direito, guiadas pelos princípios estabelecidos na Constituição brasileira, sendo um dos mais preciosos o da igualdade.
Para total espanto da maioria das advogadas brasileiras, ciosas de seus deveres profissionais, neste ano, a Ordem dos Advogados do Brasil convidou para palestrar no evento a influenciadora digital Cíntia Chagas. A convidada possui uma postura sabidamente avessa ao direito de igualdade entre homens e mulheres, considerando o vídeo gravado e publicado em seu perfil, no qual defende que as mulheres "precisam ser submissas ao homem" e que supostamente existem situações em que a mulher deve pedir "permissão ao seu marido", assim "ele será mais cordial com ela".
A fala reproduz escancarado e cristalino machismo. A ideia de que os homens se encontram em um status de superioridade em relação às mulheres é o fundamento para todo e qualquer tipo de disparidade de gênero dentro da sociedade, assim como é força motriz que enseja a violência contra a mulher. Uma verdadeira epidemia em nossa sociedade, a violência contra as mulheres apresenta dados absolutamente alarmantes.
A sociedade brasileira sempre foi patriarcal, relegando às mulheres um lugar de subalternidade e subserviência em relação aos homens. Buscando corrigir o gravíssimo problema do patriarcalismo estrutural da sociedade brasileira, a Constituição de 1988 estabelece, em seu art. 5º, inc. I, que "homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações". É chocante constatar que uma instituição que tem o múnus público de defender a Constituição tenha oportunizado espaço de protagonismo a uma pessoa que propaga pensamento flagrantemente inconstitucional.
A palestra de Cintia Chagas foi marcada pela insatisfação da maioria das advogadas presentes. Inconformadas com a indesejada presença da convidada, valendo-se do seu direito constitucional à liberdade de manifestação, realizaram um protesto com vistas a externar o profundo descontentamento com a situação.
A palestrante, tentando calar as manifestantes, fez insinuações buscando correlacionar as colegas que estavam protestando com pessoas malsucedidas: "chama a coleguinha do lado e olha o comportamento dela - isso define se ela está recebendo honorários ou não". Ainda, ao ouvir as palavras de ordem "não me representa", respondeu dizendo "quem disse que eu quero representar vocês?", numa prova cabal do pouco apreço às advogadas presentes e a quem se destinava a palestra.
É de se destacar que os membros do Conselho Federal da OAB, em especial a pessoa do Presidente, Beto Simonetti, foram diretamente responsáveis pelo ocorrido, uma vez que diversos coletivos de advogadas e movimentos, como a Coalizão Nacional de Mulheres, encaminharam ofícios pugnando pela não participação da palestrante no evento. No documento encaminhado pela CNM, argumentamos que o machismo fomenta a violência de gênero e, em razão disso, a presença da palestrante seria incompatível com o evento.
Contudo, todos os pleitos encaminhados simplesmente não foram respondidos. Um ato de total falta de consideração e respeito com as mulheres advogadas, que se opunham à participação da expositora. O que poderia ser mais importante do que ouvir e atender o clamor das mulheres advogadas, em um evento PARA ADVOGADAS?
O lamentável incidente demonstra, ainda, o quão urgente é repensar a estrutura da OAB Nacional. É inaceitável que um evento tão caro à advocacia feminina tenha sido manchado por uma situação evitável, que só se concretizou graças à absoluta falta de consideração e respeito por parte do presidente do Conselho Federal e da presidenta da Comissão Nacional da Mulher Advogada.
Está na hora da revolução!
Viva a força e a coragem da advocacia feminina e feminista deste país!
COM A PALAVRA, CINTIA CHAGAS
Em relação ao evento da OAB, o que houve ali foi uma tentativa de censura, claramente. O ato daquelas mulheres e, por favor, tomem nota, elas não correspondiam nem a dez por cento do público total. O ato daquelas mulheres foi um ato antidemocrático, uma vez que elas tentaram me calar a todo custo e também tentaram retirar o direito de noventa por cento da plateia que ali estava para assistir à minha palestra sobre oratória e língua portuguesa. Não sobre o que eu penso ou deixo de pensar sobre a vida. Havia ali um conteúdo extremamente importante para as advogadas. Tanto é que o presidente da OAB, o presidente Beto Simonetti, apesar de elas terem pressionado na semana anterior, manteve a minha palestra. Porque se tratava de um conteúdo importante para as advogadas e desejado pela maioria. Em resumo, um ato antidemocrático, um ato de cerceamento, um ato de censura e, sobretudo, um ato violento, porque elas me xingaram, me chamaram de... eu nem quero repetir, não vou repetir o que elas falaram, me xingaram de vários nomes e levaram cerveja. Advogadas levaram cerveja para um evento da OAB. Onde já se viu isso? Comportaram-se como baderneiras, como crianças birrentas, que não tiveram o desejo atendido.
Além disso, houve rumores de que elas jogariam cerveja em mim. Por isso eu entrei escoltada pelo Corpo de Bombeiros e por seguranças, dei a palestra com muito custo, mas dei a palestra toda, em respeito aos noventa por cento que ali estavam, desci e voltei escoltada para o carro. Até boletim de ocorrência houve. Mas eu não sei dizer o que aconteceu ali. De modo que o que fica para mim é o seguinte. Essas mulheres defendem tanto a ideia de sororidade. Uma ideia segundo a qual a mulher deveria defender a mulher. E elas estavam retirando ali o meu direito de trabalhar. Tudo isso baseado em quê? Baseado em achismos oriundos de interpretações errôneas daquilo que eu falo no meu Instagram.
Sobre eu ser ou não machista fica a reflexão. Se eu fosse, de fato, uma mulher machista, será que eu teria sido aplaudida e tão defendida pelos noventa por cento da plateia? É óbvio que não. Noventa por cento da plateia me aplaudiram. Se eu fosse de uma mulher machista, eu não teria sido ovacionada, aplaudida de pé, em um evento que ocorreu no ano passado na OAB de Minas, em um outro evento que ocorreu em Belo Horizonte no ano passado, um evento nacional da OAB, no qual eu fui aplaudida de pé. Eu não teria sido aplaudida de pé também em um evento da OAB do Rio Grande do Sul que ocorreu no ano passado. Eu também fui aplaudida de pé neste ano em um evento da OAB de Mato Grosso do Sul e em um evento da OAB de Rondônia. Aliás, tratava-se de um evento para mulheres.
Então o que se vê aí é uma narrativa. Simplesmente uma narrativa baseada em diferenças ideológicas. E essa narrativa não condiz com a realidade. Basta que as pessoas percam 15 minutos no meu Instagram para elas verem o que eu faço lá, por que eu faço e como eu faço.
OUÇA CINTIA CHAGAS