Não há provas de corrupção generalizada na USAID; entenda quais os questionamentos sobre a agência
GOVERNO TRUMP CRITICA GASTOS DE AJUDA INTERNACIONAL, MAS NÃO PROVOU EXISTIR DESVIOS; VEÍCULOS DE IMPRENSA INTERNACIONAIS DESMENTIRAM DIFERENTES ALEGAÇÕES DE CORRUPÇÃO
Acusações de corrupção e de desvios de impostos dos norte-americanos dentro da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) se espalharam pelas redes sociais desde que o governo Trump determinou a paralisação de ações de ajuda externa desenvolvidas pelo órgão. Apesar de a nova gestão ter questionado a destinação de recursos para alguns projetos específicos, até agora não demonstrou ter havido algum crime de corrupção.
As alegações não comprovadas extrapolam o incômodo de uma parcela dos conservadores com programas apoiados pela agência considerados um gasto excessivo do governo, principalmente aqueles relacionados a causas ambientais, apoio à comunidade LGBTQI+ e ajuda a países considerados de governos alinhados à esquerda.
No Brasil, por exemplo, um post viralizou afirmando, sem provas, que a agência "foi desmascarada em um dos maiores esquemas de corrupção e desvio de dinheiro da história americana". Como dito anteriormente, o governo americano até o momento não divulgou provas de que tenha ocorrido corrupção na USAID. Não há investigação criminal em curso.
Pessoas que defendem a instituição opinam que os recursos da USAID poderiam ser distribuídos de maneira mais eficaz, mas são contra o encerramento das atividades.
Post é baseado em lista da Casa Branca que não comprova corrupção
O post no Instagram alega que a USAID foi criada para executar ações como fornecer ajuda a países pobres e atuar em desastres e emergências humanitárias, mas em 2025 foi descoberto "um mar de falcatruas envolvendo bilhões de dólares". A postagem afirma que a agência se tornou uma máquina de corrupção e cita, como fonte da alegação, um texto de Ana Paula Henkel, publicado em 7 de fevereiro na Revista Oeste.
O texto de Henkel é baseado em uma lista divulgada pela Casa Branca de valores fornecidos pela USAID para programas internacionais. O governo a classifica como uma "lista que parece interminável dos mais absurdos desvios de dinheiro dos pagadores de impostos americanos". Dentre os itens elencados pela administração estão, por exemplo, recursos enviados para programas LGBTQI+ na Sérvia e na Irlanda, valores para ONGs na Guatemala e dinheiro para distribuição de preservativos e anticoncepcionais no Afeganistão.
Para Henkel, isso aponta que há corrupção na agência. Ela vai além e, sem provas, afirma que no Brasil "as velhas e podres ONGs ambientalistas" podem estar no meio do "maior programa de corrupção e desvio de recursos públicos do EUA". Contudo, a lista da Casa Branca sequer cita o Brasil. O Verifica procurou Henkel, mas não teve resposta.
O documento do governo americano alega que há décadas a USAID não presta contas aos contribuintes e canaliza enormes somas de dinheiro para ridículos e maliciosos "projetos de estimação de burocratas entrincheirados, com quase nenhuma supervisão". O texto cita a existência de "fraude", mas não aponta se as regras para destinação destes recursos não foram seguidas ou se os gastos não foram autorizados pelo governo.
Os valores destinados pela agência vinham sendo divulgados até 19 de dezembro de 2024 em uma plataforma do governo americano onde são disponibilizados dados de assistência estrangeira dos EUA ao público. O Verifica localizou registros desde 1961, quando a agência foi inaugurada. Algumas organizações atendidas pela USAID podem não estar relacionadas devido à legislação norte-americana, que permite que repasses públicos sejam mantidos em sigilo em alguns casos em pode haver risco à saúde ou à segurança nacional dos EUA.
A revista Forbes fez uma longa checagem desmentindo outras peças de desinformação sobre corrupção. Dentre elas, a reportagem cita o caso de Chelsea Clinton, filha do ex-presidente Bill Clinton, acusada nas redes sociais de ter recebido US$ 84 milhões da USAID. A única organização relacionada ao sobrenome Clinton que recebeu dinheiro foi a Clinton Health Access Initiative, para a qual a USAID doou US$ 7,5 milhões em 2019. O recurso financiou serviços de saúde na Zâmbia.
Outro boato afirma que o Doge teria identificado milhões gastos em preservativos para Gaza e no Oriente Médio. O rumor foi amplificado pela secretária de imprensa de Trump, Karoline Leavitt, que citou até uma cifra: US$ 50 milhões. O Estadão Verifica desmentiu essa alegação.
Na verdade, houve doações para o International Medical Corps, um grupo que fornece ajuda às vítimas de guerra, totalizando mais de US$ 100 milhões. Os recursos foram destinados a várias ações, dentre elas, planejamento familiar.
Segundo a Associated Press, o serviço é comum em pacotes de ajuda para países em desenvolvimento. A CNN informou que a agência não financiou preservativos para o Oriente Médio nos últimos três anos. Sobre esse boato, Musk chegou a afirmar que "algumas das coisas que eu digo estarão incorretas", como informou a Forbes.
Musk também sugeriu, no X, que a USAID era uma "forma de lavagem de dinheiro de contribuintes para organizações de extrema esquerda". Embora existam críticas republicanas por supostos gastos desnecessários, a Forbes aponta que não há evidências de que a agência estivesse se envolvendo em comportamento criminoso.
A campanha de desinformação espalhou falsamente, ainda, que celebridades foram pagas pela USAID para visitar a Ucrânia; que a agência financiou uma pesquisa que causou a covid-19; e que veículos de comunicação foram financiados para escreverem positivamente sobre democratas.
O que dizem os defensores da USAID?
A repórter Stephanie Nolen, que cobre saúde global para o NYT, destacou no mesmo podcast vários programas de sucesso da USAID, como os de combate à malária e ao HIV. Ela ressaltou que funcionários da instituição desejam que a organização aja de forma mais eficiente e que economize dinheiro. Ainda assim, essas pessoas não são favoráveis ao encerramento das atividades da forma como está ocorrendo.
Um relatório do órgão de fiscalização independente da agência defende que o desmantelamento dela pode, na verdade, tornar mais difícil de rastrear o possível uso indevido da assistência humanitária. Conforme noticiado pela CNN, o setor de fiscalização afirma que há muito tempo ofereceu recomendações para melhorar a programação da agência e evitar fraudes, desperdícios e abusos. Porém, o corte de pessoal da USAID, bem como o congelamento da assistência estrangeira, impactaram negativamente os esforços de supervisão.
O documento de fiscalização observa, como exemplo, que a USAID exige que programas no Oriente Médio recebam "avaliação de parceiros" para garantir que os fundos não acabem apoiando grupos como Hamas, Hezbollah, ISIS ou Houthis. Entretanto, esses esforços de avaliação foram interrompidos por causa da redução de pessoal. O The Guardian informou que Trump demitiu o autor do relatório assim que ele foi publicado.
Reportagem da CNN mostra que opositores ao fechamento da agência analisam que a retirada das ajudas pelos Estados Unidos não apenas irá afetar os programas que eram financiados, como criará um vazio o qual outros países podem ocupar, como, por exemplo, os rivais China e Rússia.
Legisladores democratas e ex-funcionários da USAID em geral defendem que os movimentos para desmantelar a agência são ilegais porque a agência foi criada pelo Congresso como um órgão independente. Com a paralisação das ações e dispensa de funcionários, o governo Trump foi acionado na Justiça tanto por servidores da USAID quanto por um grupo de entidades que possuem contratos com a agência ao redor do mundo.