Cordélia, Ofélia, Io; como luas e planetas são batizados?
Com a descoberta de uma nova lua na órbita de Plutão, anunciada no fim de julho de 2011, surge o debate a respeito de como chamar o satélite, por enquanto conhecido como P4, um nome pouco interessante ao lado de seus companheiros de órbita Nix, Hidra e Charon. Mas o P4 ainda poderá passar anos com sua alcunha técnico-científica, enquanto correm os trâmites do "batismo" de corpos celestes efetuado pela União Astronômica Internacional (IAU, da sigla em inglês).
Veja a origem de nomes de luas em 49 fotos incríveis
Escolher o nome de uma lua é uma decisão mais difícil que escolher o nome de um filho. Se antes de que fôssemos batizados, passássemos pelo mesmo processo que os satélites naturais, começaríamos a vida com um nome provisório, teríamos que documentar nossas características físicas, uma comissão de 15 pessoas debateria a respeito do nosso nome até chegar a um consenso e, apenas após publicação oficial, ganharíamos um nome tão definitivo quanto bem justificado.
À época das primeiras descobertas astronômicas, era de praxe que o descobridor batizasse seu achado como bem entendesse, mas conforme o número de corpos celestes registrados aumentou e a astronomia se profissionalizou, algumas regras se fizeram necessárias para evitar confusões entre luas de um planeta e outro, luas e asteroides, asteroides e crateras e daí por diante. Hoje, sugestões dos descobridores são aceitas, mas apenas se atenderem a critérios específicos.
Regras: planetas não são animais de estimação
Nas regras gerais de nomenclatura para qualquer tipo de corpo celeste, a IAU estabelece que, sempre que possível, os novos nomes sigam a linha greco-romana dos primeiros nomes do Sistema Solar. Não são aceitos nomes de caráter político, militar ou religioso, exceto nomes de figuras políticas anteriores ao século 19. As regras específicas para planetas incluem um limite de 16 caracteres, uma palavra obrigatoriamente pronunciável, não semelhante a nomes já existentes, não inspirados em animais de estimação e não comerciais.
Até mesmo as características geológicas de outros planetas seguem regras da IAU. As crateras de Mercúrio, por exemplo, levam nomes de músicos, pintores e escritores falecidos que tenham sido consagrados por mais de 50 anos, como as crateras Debussy, Tolstoi e Bethoven. Outras características como vales e montes levam nomes de telescópios, expedições ou grandes feitos da arquitetura.
Deus Júpiter teve poucas amantes para muitas luas
De acordo com a Nasa, a quantidade de satélites conhecidos hoje é tão grande - são pelo menos 165 luas - e as novas descobertas são tão frequentes que é possível que em algum momento seja necessário simplesmente desistir de nomear todos. As luas do planeta Júpiter inicialmente eram batizadas apenas com nomes das amantes do deus romano Júpiter e seu equivalente grego Zeus, mas apesar do numeroso harém divino, as amantes de Zeus se esgotaram antes de se esgotarem suas luas. Hoje, os filhos do deus também viraram nomes de satélites. Por medo de que a mitologia greco-romana já não tivesse suficientes personagens, a IAU já batizou os planetas anões Makemake e Haumea a partir de outras tradições, as mitologias polinésica e havaiana, respectivamente.
Os primeiros planetas conhecidos no Sistema Solar trazem seus nomes de épocas remotas, e, exceto pela Terra, têm suas origens nas mitologias grega e romana. Mercúrio recebeu seu nome dos romanos, por mover-se rapidamente, como o deus Mercúrio, mensageiro dos deuses e senhor das viagens. Já Vênus, por ser considerado o planeta mais bonito e brilhante, recebeu o nome da deusa do amor. Marte, por ser vermelho, recebeu o nome do deus da guerra. Maior de todos, Júpiter recebeu o nome do deus mais poderoso do panteão.
Respeito às tradições
A partir daí, cada planeta descoberto seguia a linha greco-romana de nomes divinos. De maneira similar, as luas costumam receber nomes relacionados à mitologia do deus que nomeia seu planeta, mas há exceções. As luas de Urano são batizadas a partir de personagens fictícios da obra do britânico William Shakespeare e do poema "Rapto da Madeixa" de Alexander Pope. O próprio Urano quase se chamou "Georgian Sidus", conforme queria seu descobridor William Herschel, mas a IAU terminou por escolher Urano, o pai de Saturno na mitologia grega.
Netuno também não foi batizado com a primeira escolha de nome. A localização do planeta foi prevista por Urbain Le Verrier e, em 1846, Johann Galle pôde visualizar o astro no local indicado. Galle quis batizar o planeta de "Le Verrier", mas, por estar fora dos padrões da IAU, o nome foi recusado e Netuno acabou homenageando o deus dos mares. Plutão recebeu seu nome do deus do submundo grego, bem como Charon, Nix e Hidra. A recém descoberta P4 deve ter o mesmo destino, homenageando alguma criatura mitológica dos gregos.