Graphogame, aplicativo citado por Bolsonaro, ensina letras com tiro de canhão
Pesquisas internacionais mostram que o app não alfabetiza crianças sozinho. Especialistas criticam uso de ferramenta como política educacional e governo diz que ela não substitui professor
Pesquisas feitas em vários países que usam o aplicativo, citado pelo presidente Jair Bolsonaro (PL) no debate da Band como solução para alfabetização, mostram que ele não tem nenhum efeito na aprendizagem se for usado pelo aluno sozinho.
O Graphogame é um jogo para celular que relaciona letras aos seus sons; em uma das atividades, a criança precisa jogar uma bomba de canhão na resposta que considera certa.
Especialistas ouvidos pelo Estadão são unânimes em afirmar que um aplicativo não pode ser encarado como uma política de alfabetização porque somente o professor - com diversas ferramentas e metodologias - consegue ensinar uma criança a ler e a escrever.
O Graphogame foi desenvolvido por uma empresa finlandesa e o Ministério da Educação (MEC) pagou R$ 274,5 mil para a Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) para que fosse traduzido para o Brasil em 2020. Segundo o Diário Oficial da União, o MEC não fez licitação usando a justificativa de "contratação de instituição brasileira incumbida estatutariamente da pesquisa, do ensino ou do desenvolvimento".
O ministro era Milton Ribeiro, que no lançamento do programa disse que as crianças deveriam ficar "no máximo quinze minutos por dia" no aplicativo. Ribeiro foi preso e depois solto por suspeita favorecer municípios em verbas da educação a pedido de pastores, como denunciou o Estadão. Procurada, a assessoria de imprensa do MEC informou que o aplicativo é "uma ferramenta de apoio à alfabetização, que complementa, e não substitui, a atuação dos professores em sala de aula."
O aplicativo passou a ser incentivado pelo MEC para ser usado por escolas e pelas famílias durante a pandemia de covid e hoje faz parte do programa de alfabetização oficial, chamado Tempo de Aprender. O governo, no entanto, não realizou formações para que professores pudessem aprender a utilizá-lo em sala de aula, há apenas um manual para ser baixado no site no ministério. O MEC alega que "por ser um jogo de uso fácil e intuitivo, não é preciso realizar um curso específico para formar os professores e demais usuários."
Estudo feito por pesquisadores noruegueses e publicado na revista científica Reading Research Quarterly em 2020 mostra que o Graphogame não tem "nenhum efeito significativo" na leitura de palavras se usado pela criança sozinha. A análise considerou 28 estudos sobre o aplicativo e concluiu que ele tem efeito positivo leve apenas quando há "alta interação com adultos", sugerindo o uso em sala de aula. Segundo informações do site da Graphogame, a ferramenta foi adotada por escolas em países como Finlândia e França, mas também na Guatemala, Peru, Bolívia, Zâmbia e Venezuela, por meio de parcerias com organismos internacionais.
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