Cristian Cravinhos perdeu contato com filhos após descoberta de envolvimento dele na morte dos Richthofen
Ele afirma que entende que o sobrenome carrega estigmas; filho mais velho o destituiu da paternidade nos documentos
Condenado pela morte do casal Richthofen, Cristian Cravinhos está em liberdade desde o último dia 5. Além da pena de 42 anos pelo assassinato de Manfred e Marísia e corrupção ativa, ele também pega o preço de não ter mais contato com os filhos, pois os dois deixaram de ter contato com o pai depois que descobriram a gravidade do crime que cometeu.
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De acordo com o colunista do jornal O Globo, Ullisses Campbell, ele soube pouco antes de ser libertado da Penitenciária de Tremembé, que o Superior Tribunal de Justiça (STJ) confirmou a anulação de sua paternidade do filho mais velho, hoje com 27 anos. O rapaz retirou o sobrenome Cravinhos de seus documentos, além do nome do pai dos registros oficiais, até mesmo da certidão de nascimento. Apesar disso, Cristian afirma que vai deixar o filho em seu testamento.
A filha mais nova, de 14 anos, também não respondeu ao pai. Ele afirmou que quando saiu da prisão, mandou mensagem, mas ela não respondeu. “Isso dói, mas eu entendo”, declarou. À coluna, ele disse que não esperava a rejeição dos dois.
Sobrenome tem um peso
O mais velho o visitou na cadeia em 2011, aos 13 anos. Na época, ela queria uma autorização para ir à Disney. “Óbvio que eu permiti. Mas desde essa época nunca mais o vi. [...] Me parecia um adolescente amoroso”, relembra. Segundo ele, a visita foi emocionante. O adolescente ainda não sabia nada sobre o pai, muito menos, sobre o crime terrível em que se envolveu anos antes.
“Ele tinha 8 anos quando fui preso e morava em Londrina. Depois, descobriu minha identidade ao encontrar documentos antigos, soube de tudo e mesmo assim quis me conhecer. Ele me visitou com advogados e a mãe. Levou um álbum com fotos nossas e me chamou de pai. Ficamos em uma sala especial do diretor de disciplina de Tremembé. Meu filho me fez muitas perguntas. Não consegui responder todas”.
O menino queria saber quem o pai era de verdade e o motivo de sua prisão. Ele chegou a perguntar por que o pai havia matado os Richthofen, mas Cristian não soube responder. “Abaixei a cabeça e comecei a chorar. Mas ele insistiu. Disse a ele que qualquer coisa que eu falasse naquele momento não seria uma resposta justa porque ele era muito novo e não entenderia a gravidade do que aconteceu. Falei que havia cometido um erro grave, que estava pagando por isso e que nosso afastamento era consequência disso”, admite.
Foi depois disso que eles perderam o contato. Sobre a ação para tirar o sobrenome dele, Cristian declara que não permitiu que “Cravinhos” constasse no nome da filha caçula, e quem o colocou no filho mais velho foi a mãe e não ele.
“Entendo perfeitamente o constrangimento que é carregar um nome com esse estigma. Muitas pessoas pensam que eu estava insistindo para o meu filho ter meu nome. Mas isso não é verdade. Nem sei por que essa ação chegou ao STJ”, afirmou.
Quanto a sua filha, ele contou que a menina perguntou durante uma visita porque o pai vivia ali. Na ocasião, ele já estava em regime semiaberto, portanto, ele não estava cercado de grades e estava trabalhando em uma horta.
“Respondi que era agricultor e dirigia um trator. Ela acreditou. Mais tarde, em outra visita, quis saber se eu era mantido ali como escravo. Depois que descobriu o que eu tinha feito, se afastou e nunca mais me procurou. Mandei uma mensagem para ela assim que saí da prisão. Ela visualizou, mas não respondeu”, esclareceu.
Mesmo com todo o estigma que seu nome carrega, Cristian diz que não o removerá, como fez seu irmão, Daniel. “Eu vou honrar o meu sobrenome até o final da vida. Eu caí com esse nome e vou me levantar com ele. Estou disposto a pagar esse preço”, declarou.
O convite para o assassinato
Ele afirma que, aceitou o ‘convite’ para matar a mãe de Suzane por não saber dizer ‘não’, mas se pudesse voltar no tempo, negaria. “Até hoje tenho dificuldade de dizer “não”. Naquela época, eu vivia desesperado, sem controle emocional. Não sei responder. Só não vai por nessa entrevista que fiz o que fiz por dinheiro, porque não é verdade”.
O irmão de Daniel ainda disse que pensava que conseguiria impedir o crime, mas “acabou envolvido”. Nunca havia feito nada parecido com isso anteriormente, e talvez seja por isso que as pessoas se questionem tanto sobre a sua participação. Para ele, a punição da sociedade é muito maior do que a que recebeu nos tribunais.
“Sei que cometi um erro grave e estou pagando por isso. Eu sei que parece que estou minimizando a gravidade do que eu fiz ao chamar um homicídio de erro. Mas tem certas palavras que não consigo falar no dia a dia sem me emocionar. [...] A Justiça me deu um tempo de pena, mas a sociedade impõe uma sentença perpétua”.
Regras para Cristian
Para continuar em liberdade, a juíza também definiu uma série de regras que Cristian Cravinhos deverá seguir fora da cadeia. São as seguintes:
- comparecer trimestralmente à Vara de Execuções Criminais para informar sobre suas atividades;
- obter ocupação lícita, devendo comprovar para a Justiça;
- sair para o trabalho às 6h, devendo recolher-se na habitação até as 22h, bem como em finais de semana e feriados, salvo autorização expressa da Justiça;
- não mudar da Comarca sem prévia autorização do juízo;
- não mudar de residência sem comunicar o juízo;
- não frequentar bares, casas de jogo e outros locais incompatíveis com o benefício conquistado.
Em nota ao Estadão, a defesa de Cravinhos informou que o detento "preencheu todos os requisitos objetivos e condições subjetivas exigidos pela Lei de Execução Penal para progredir ao regime aberto" e destacou que "a decisão foi pautada única e exclusivamente na lei". A defesa afirma ainda que ele continuará cumprindo as regras e determinações estabelecidas pela Justiça.
O crime
Em 2002, Suzane Richthofen, seu então namorado Daniel Cravinhos e o irmão dele, Cristian, planejaram e executaram a morte dos pais de Suzane, Manfred e Marísia von Richthofen, que eram contra o namoro dela com Daniel.
Eles foram submetidos a júri popular em 2006. Cristian foi condenado a 38 anos e seis meses em regime fechado. Suzane pegou 39 anos, depois a pena foi reduzida para 34 anos e 4 meses e está em liberdade desde janeiro de 2023. Daniel Cravinhos foi condenado a 39 anos e seis meses de prisão em regime fechado, mas também cumpre em liberdade o restante da pena. *(Com informações do Estadão Conteúdo).