Cães farejadores são aliados de peso nas buscas no Haiti
- Francisco de Assis
- Da BBC Brasil
Por trás de toda a tecnologia levada ao Haiti para a assistência às vitimas do terremoto da última terça-feira, um aliado de peso ganha destaque na hora de ajudar no trabalho de buscas e retirada de corpos. Semelhante ao que já ocorreu em outras catástrofes, cães farejadores estão sendo levados ao país caribenho, para ajudar a detectar corpos e sobreviventes em meio aos destroços. Antes de chegar a Porto Príncipe, muitos se reúnem no aeroporto de Santo Domingo, na República Dominicana, onde aguardam autorização para viajar ao Haiti e dar início ao socorro às vítimas.
"Eles estão habituados a fazer esse tipo de serviço. Estão acostumados a detectar a presença de copos humanos. Procuram as vitimas através do odor e identificam as pessoas com latidos contínuos. Dificilmente erram e, por isso, são tratados como agentes de grande importância durante as buscas", afirma Mauro Saraiva, um dos coordenadores da Organização de Resgate Canino de Portugal.
Durante a operação, os cães atuam com liberdade entre os escombros. Sem nenhum tipo de restrição, os animais vasculham as áreas e, depois de identificar a presença de corpos, voltam às coleiras. "O trabalho com cães é de extrema importância para a operação em conjunto. Atuamos em equipe. Os cães nos mostram o local exato e nós efetuamos o resgate", diz o socorrista da Urban Searehand Rescueteam da Polônia, Karol Kierzkowski.
Os cães são treinados diariamente durante dois anos para que possam estar aptos ao trabalho de resgate. Diariamente, são submetidos a testes e só recebem a ordem de descanso ao fim do dia. "Isso é um treino que começa desde pequeno e continua dia após dia. O cão leva em torno de dois anos para desenvolver a aptidão, mas o trabalho com o cão é diário, mesmo depois dos dois anos", afirma Saraiva.
As raças mais utilizadas nos trabalhos de buscas costumam ser Pastor Alemão, Labrador, Golden, Malinois e Boxer. "São cães que têm uma assistência maior para esse tipo de trabalho. São privilegiados nesse sentido", diz o português. "Outra característica é o vigor físico que faz com que esses animais viagem cerca de 30 horas em contêineres e não percam a disposição", complementa o presidente da Organização de Resgate Canino Pedro Frutes. "Para chegar à América Central, nossos cães tiveram de enfrentar uma longa jornada de mais de 20 horas de vôo", complementa o polonês Kierzkowski.
Os socorristas explicam ainda que, diferente do que pensam algumas pessoas, os animais não são treinados a base de drogas. "Não há nada disso. Não trabalhamos desta forma. A única recompensa que damos são os brinquedos, como os mordedores. Todos são muito dóceis. É uma condição obrigatória", diz Saraiva.
O trabalho diário cria um vínculo forte entre homem e cão. Mesmo depois da aposentadoria, os animais costumam permanecer com o "colega" de trabalho. "São como nossos filhos, entram para a família. Não conseguimos viver sem eles. Há uma relação de carinho e amizade muito grande", diz o socorrista Paulo Leite.
Terremoto
Um terremoto de magnitude 7 na escala Richter atingiu o Haiti nessa terça-feira, às 16h53 no horário local (19h53 em Brasília). Com epicentro a 15 km da capital, Porto Príncipe, segundo o Serviço Geológico Norte-Americano, o terremoto é considerado pelo órgão o mais forte a atingir o país nos últimos 200 anos.
Dezenas de prédios da capital caíram e deixaram moradores sob escombros. Importantes edificações foram atingidas, como prédios das Nações Unidas e do governo do país. Estimativas mais recentes do governo haitiano falam em mais de 200 mil mortos e 50 mil corpos já enterrados. O Haiti é o país mais pobre do continente americano.
Morte de brasileiros
A fundadora e coordenadora internacional da Pastoral da Criança, Organismo de Ação Social da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Zilda Arns, e militares brasileiros da missão de paz da ONU morreram durante o terremoto no Haiti. Além deles, o terremoto também vitimou Luiz Carlos da Costa, a segunda maior autoridade civil da Organização das Nações Unidas (ONU) no Haiti.
O ministro da Defesa, Nelson Jobim, e comandantes do Exército chegaram na noite de quarta-feira à base brasileira no país para liderar os trabalhos do contingente militar brasileiro no Haiti. O Ministério das Relações Exteriores do Brasil anunciou que o país enviará até US$ 15 milhões para ajudar a reconstruir o país. Além dos recursos financeiros, o Brasil doará 28 t de alimentos e água para a população do país. A Força Aérea Brasileira (FAB) disponibilizou oito aeronaves de transporte para ajudar as vítimas.
O Brasil no Haiti
O Brasil chefia a missão de paz da ONU no país (Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti, ou Minustah, na sigla em francês), que conta com cerca de 7 mil integrantes. Segundo o Ministério da Defesa, 1.266 militares brasileiros servem na força. Ao todo, são 1.310 brasileiros no Haiti.
A missão de paz foi criada em 2004, depois que o então presidente Jean-Bertrand Aristide foi deposto durante uma rebelião. Além do prédio da ONU, o prédio da Embaixada Brasileira em Porto Príncipe também ficou danificado, mas segundo o governo, não há vítimas entre os funcionários brasileiros.