Poligamia perdura nas comunidades indígenas do sul do Chile
No sul do Chile, nas comunidades indígenas que habitam a região de Araucanía, algumas mulheres dividem o mesmo marido, mantendo viva a prática da poligamia que os mapuches exerceram desde tempos ancestrais e que hoje é pouco conhecida no país, onde não tem respaldo legal.
"No geral é uma prática aceita, embora obviamente você possa encontrar mulheres que não a queiram", explicou à Agência Efe a antropóloga mapuche Natalia Caniguán, dizendo que em alguns casos as segundas esposas são irmãs ou parentes da primeira.
"Faz parte de sua cultura. É o mais normal. Estão acostumados e é aceito. Eles vivem em comunidades e dentro das comunidades têm várias famílias", confirmou à Efe uma assistente social do Fundo de Solidariedade e Investimento Social (Fosis, estatal).
Existem cerca de 3.000 comunidades mapuches - a principal etnia indígena do país - na região da Araucanía, situada a cerca de 600 quilômetros ao sul de Santiago e onde, segundo números oficiais, 22,9% da população vive na pobreza ou na extrema pobreza.
Ali, na comuna de Ercilla, o Fosis - vinculado ao Ministério de Desenvolvimento Social - iniciou um projeto dotado de US$ 100 mil para entregar aos moradores ferramentas, máquinas e gado que lhes permitam aumentar sua renda.
Este programa beneficia 90 usuários, dos quais 95% são mulheres mapuches, que na média têm 3,8 filhos.
Seus maridos, segundo dados desse projeto, possuem uma média de 2,3 companheiras, com as quais têm vários filhos, embora as mulheres vivam em casas diferentes dentro de uma mesma comunidade.
Inseridas em uma economia de subsistência, elas são as principais provedoras do lar: cuidam de seus filhos, semeiam e moem a colheita, cortam e carregam lenha, extraem água de poços e vertentes e vendem seus produtos nos povoados mais próximos.
"As mulheres aceitam esta situação e os filhos costumam ser amigos", descreveu a funcionária do Fosis, que prefere manter seu nome no anonimato.
Os homens, assegurou, assumem uma menor carga de trabalho e entre eles o alcoolismo é um problema recorrente.
Embora neste caso a poligamia pareça ser habitual, a Natalia acredita que esta prática, pouco conhecida para o resto dos chilenos, já não é tão comum como era antes de 1880, quando o Estado chileno impôs sua lei nessa região.
"As regras matrimoniais mapuches eram dominadas pelas condições de guerra a qual estava submetida sua sociedade", explicou o antropólogo chileno José Bengoa em seu livro "História do povo mapuche: Século XIX e XX".
Bengoa acrescentou que "o sistema de troca generalizado de mulheres pretendia assegurar duas questões fundamentais: um alto nível de reprodução da população e a possibilidade de fazer alianças militares. É por isso que os mapuches defendiam a poligamia como um elemento central da organização de sua sociedade".
Segundo Bengoa, um cacique com dez mulheres podia chegar a ter mais de 50 filhos e uma grande quantidade de possibilidades de alianças políticas. "Daí que a rejeição à religião católica sempre aconteceu a partir da proibição que esta fazia da poligamia", raciocina.
"Quando a Igreja Católica chegou aos territórios indígenas a reprimiu (a poligamia) e impôs um sistema monogâmico", lembrou à Efe Natalia, apontando que esse costume era próprio de homens com poder econômico, determinado pela posse de terras e animais.
"A poligamia, tendo em vista a realidade atual de poucas terras, das divisões territoriais e da migração, já não cumpre esse objetivo", refletiu a especialista.
De fato, essa região é há anos palco de um conflito entre grupos mapuches e empresas agrícolas e florestais, às quais os indígenas reivindicam a devolução de terras que consideram ancestrais.
Assim, em termos econômicos, atualmente esta prática pode significar inclusive mais despesas para o homem que tem várias mulheres e, em termos jurídicos, pode trazer também alguns problemas, já que a poligamia não tem cobertura legal no Chile.
Por isso, só uma das mulheres pode ser casada legalmente com o homem e isto tem repercussões na divisão da herança, explicou Natalia: "As terras ficam para os filhos da mulher com a qual está casado. As outras não costumam receber nada".
Mesmo assim, a prática continua viva, alimentada pela força do costume.