EUA: cidade se une para dar casa a veterano que perdeu braço na guerra
Jerral Hancock estava em um tanque explodiu na guerra do Iraque; ele agora vai ganhar uma casa adaptada para suas deficiências graças a esforços de estudantes da cidade de Lancaster
Quando Jerral Hancock voltou para casa da guerra do Iraque sem um braço, com outro praticamente sem funcionar e com o corpo queimado e paralisado, ele se tornou herói para uma pequena comunidade no deserto californiano de Mojave que se orgulha de ter o maio número de veteranos per capita dos Estados Unidos.
Após seu retorno, ele foi homenageado em desfiles militares, inaugurações e múltiplos eventos na cidade de Lancaster. Passados os primeiros meses, no entanto, logo ele se viu esquecido por todo mundo, exceto por seus pais e filhos pequenos. Sua mulher o abandonou, deixando sob seus cuidados as crianças de 9 e 6 anos.
O esquecimento perdurou até que estudantes de uma classe de história americana escutaram a história de Hancock. Após sua van adaptada para a cadeira de rodas quebrar, ele se viu praticamente preso à sua casa móvel - um pouco maior do que um trailer comum. "Era como estar em uma prisão", lembra o ex-militar.
Os alunos então se mobilizaram para, primeiro, melhorar a sua, que tinha corredores tão apertados que não o permitiam transitar por todo o lugar com sua cadeira de rodas, e, posteriormente, iniciar um projeto para construir do zero uma nova casa para Hancock, uma que será totalmente preparada para lidar com as deficiências dele.
Eles aproveitaram o projeto de final do ano da aula da professora Jamie Goodreau, que normalmente é destinado para homenagear veteranos, para levantar dinheiro. Seis meses depois, os estudantes estão próximos de adquirir uma propriedade de US$ 264 mil. A planta já foi desenhada e os estudantes planejam iniciar a construção no próximo mês.
"Nós nunca tivemos dúvidas de que poderia ser feito", disse Joseph Mallyon, um estudante da escola Lancaster, afirmando que muitos na comunidade inicialmente duvidaram que a arrecadação seria bem-sucedida. "Essas pessoas duvidaram da gente. Mas nós apenas aceitávamos isso e dizíamos: 'olhem o que podemos fazer'".
Durante quatro meses, os estudantes organizaram vendas de jardins, noites de pizzas, venderam camisetas, imãs de geladeira. Conseguiram arrecadar US$ 80 mil. O volume surpreendeu os moradores de Lancaster e da vizinha Palmdale. A partir de então, o restante da comunidade aderiu ao projeto.
Lojas estão oferecendo descontos em materiais, uma empreitera se voluntariou para ajudar na construção, uma firma de arquitetura forneceu os desenhos da planta, a empresa responsável pela venda do terreno abriu mão de sua comissão, uma empresa de crédito facilitou empréstimos. "É realmente incrível", diz J.D. Kennedy, morador que atua como representante de um congressista.
Também um veterano na guerra do Iraque, Kennedy encontrou Hancock após ficar sabendo que este ficou praticamente preso em casa após sua van quebrar e que não tinha mais condições de dirigir os cerca de 110 km que o separam do hospital reservado para veteranos mais próximo. Com isso, os dentes de Hancock estavam visivelmente apodrecendo em decorrência dos efeitos dos anestésicos que ingere todos os dias para controlar a dor.
O chefe de Kennedy ajudou a pressionar o órgão federal responsável pela situação dos veteranos para que médicos e dentistas locais fossem reembolsados para tratar Hancock na cidade - alguns deles se ofereceram para trabalhar de graça.
Então a professora Goodreau, que tinha encontrado Hancock em um desfile militar, convidou o ex-militar para que ele contasse a sua história para os estudantes dela.
Hancock estava dirigindo um tanque pelas ruas de Bagdá em 29 de maio de 2007 quando o veículo foi atingido por um explosivo improvisado e pegou fogo. Estilhaços atingiram a sua espinha, não permitindo que deixasse o tanque. Isso aconteceu no dia em que completava 21 anos. "É, essa parte foi realmente ruim", diz Hancock, agora com 27 anos, sem perder o bom humor.
"Eu não gosto de reclamar", diz ele, acrescentando que, após voltar para casa, frequentemente tinha pesadelos em que era queimado até a morte dentro do tanque.
Desde que os estudantes assumiram a sua causa e, após vários encontros com eles, porém, os pesadelos pararam. Hancock diz que os esforços deles lhe deram um senso de propósito. Ele também diz ter ficado chocado com a magnitude dos esforços. "Eles abdicaram de seu último verão no ensino médio por mim", diz Hancock.
Na verdade, os esforços dos estudantes vão muito além do projeto escolar, que deveria ter acabado no início do verão. Mesmo após receberem a nota A por seus esforços, eles decidiram continuar com o projeto até que Hancock tenha um novo teto, o que eles esperam que se torne realidade até a metade do ano que vem.