Le Pen é condenada por corrupção e impedida de concorrer à Presidência da França em 2027
Um tribunal francês barrou nesta segunda-feira a líder da extrema-direita francesa, Marine Le Pen, de concorrer à eleição presidencial de 2027 após ela ter sido condenada por desvio de fundos, em uma decisão sísmica que pode alimentar as tensões globais sobre os esforços judiciais para policiar a política.
A decisão do tribunal francês foi um revés catastrófico para Le Pen, de 56 anos. A líder do partido Reunião Nacional (RN) é uma das figuras mais proeminentes da extrema-direita europeia e está na frente nas pesquisas para a disputa presidencial francesa em 2027.
A decisão pode ter repercussões de grande alcance na política francesa, desequilibrando a corrida para a successão do presidente Emmanuel Macron e colocando mais pressão sobre seu fraco governo minoritário, abalado após meses de crises consecutivas.
Também é provável que isso exacerbe a crescente raiva global entre os líderes de extrema-direita sobre a interferência de juízes não eleitos em seus mandatos.
Em uma entrevista no horário nobre da TV TF1, Le Pen disse que era inocente e que recorreria o mais rápido possível contra o que ela descreveu como uma decisão politizada com o objetivo de bloquear sua candidatura presidencial. Ela disse que estava fora da disputa para 2027, mas que continuaria a lutar por seu futuro.
"Esta noite, há milhões de franceses que estão indignados, indignados em um grau inimaginável, vendo que na França, no país dos direitos humanos, os juízes implementaram práticas que pensávamos serem reservadas para regimes autoritários", disse ela.
A proibição de Le Pen de exercer cargos públicos por cinco anos não pode ser suspensa por meio de recurso, embora ela mantenha sua cadeira parlamentar até o final do mandato. Ela também foi condenada a quatro anos de prisão -- dois anos dos quais suspensos e dois anos a serem cumpridos em prisão domiciliar -- e a uma multa de 100.000 euros, mas elas não serão aplicadas até que seus recursos sejam esgotados.
O bilionário Elon Musk, que tem liderado os pedidos de impeachment de juízes dos EUA que bloqueiam a agenda do presidente Donald Trump, ao mesmo tempo em que tem dado seu apoio a figuras europeias de extrema-direita, alegou que havia um complô do establishment por trás da condenação de Le Pen.
"Quando a esquerda radical não consegue vencer por meio do voto democrático, eles abusam do sistema legal para prender seus oponentes", escreveu ele no X. "Esse é seu manual padrão em todo o mundo."
A juíza Benedicte de Perthuis disse que Le Pen estava "no centro" de um esquema para desviar mais de 4 milhões de euros de fundos da UE e usá-los para pagar o satff do partido de extrema-direita em seu país.
A falta de remorso de Le Pen e de outros acusados foi um dos motivos que levaram o tribunal a proibi-los de concorrer a cargos públicos com efeito imediato, disse De Perthuis.
Os aliados de Le Pen, bem como os líderes de extrema-direita da Europa e de todo o mundo, se uniram para condenar a decisão como um exagero judicial.
"Hoje não foi apenas Marine Le Pen que foi condenada injustamente: Foi a democracia francesa que foi morta", disse o braço direito de Le Pen, o presidente do RN, Jordan Bardella.
O ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro, que está inelegível até 2030 por abuso de poder político, disse à Reuters que "essa decisão é um claro ativismo judicial da esquerda".
"Je suis Marine!", escreveu no X o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán.
O Conselho Superior do Poder Judiciário da França expressou sua preocupação com o que chamou de "reações virulentas" provocadas pela decisão.
"As declarações de líderes políticos sobre os méritos da acusação ou da condenação, especialmente durante as deliberações, não podem ser aceitas em uma sociedade democrática", afirmou em um comunicado.
O parlamentar de centro Sacha Houlie ofereceu seu apoio aos juízes.
"Em que ponto achamos que um juiz não aplicará a lei?", ele postou no X. "A sociedade está tão doente que se ofende com o que é nada mais e nada menos do que o estado de direito?"
"MORTE POLÍTICA"?
Le Pen concorreu três vezes à Presidência e havia dito que 2027 seria sua última candidatura ao cargo mais alto. Suas esperanças agora residem em anular a decisão desta segunda-feira em uma apelação antes da eleição. As apelações na França podem levar meses ou até anos.
Houve casos de proibições políticas imediatas na França desde a aprovação de leis anticorrupção mais rígidas em 2016, mas os partidários de Le Pen acusaram os juízes de policiar a política.
Arnaud Benedetti, um analista político, disse que a proibição de Le Pen é um momento decisivo.
"Esse é um evento político sísmico", disse ele. "Inevitavelmente, isso vai remodelar o jogo, especialmente à direita."
Bardella parece estar pronto para se tornar o candidato de facto do RN para a eleição de 2027. Mas Le Pen indicou que ela ainda não está pronta para lhe passar o bastão.
"Jordan Bardella é um grande trunfo para o partido", disse Le Pen na TF1. "Mas não vou me deixar ser eliminada dessa forma. Milhões de franceses acreditam em mim."
Bardella, de 29 anos, ajudou a expandir o apelo do RN entre os eleitores mais jovens, mas especialistas dizem que ele pode não ter a experiência necessária para conquistar o eleitorado mais amplo de que o RN precisa para garantir a vitória em 2027.
O RN e duas dúzias de figuras do partido também foram considerados culpados de desviar fundos do Parlamento Europeu. O partido foi condenado a pagar uma multa de 2 milhões de euros, com metade do valor suspenso.
