Imigração e libertarismo tornam Rhode Island bastião democrata
- Patrick Brock
- Direto de Providence
Fundado por Roger Williams em 1636 como a mais libertária entre as primeiras 13 colônias dos Estados Unidos, o Estado de Rhode Island preserva esse caráter se alinhando ao Partido Democrata e tendo um eleitorado pragmático que ignora o moralismo para se concentrar na problemática considerada importante para a boa governança política.
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Em entrevista ao Terra, Wendy J. Schiller, professora de ciência política da Universidade Brown, conta que Rhode Island foi um dos grandes locais de entrada dos imigrantes para os EUA e um dos bastiões da classe trabalhadora no país. A região, como o vizinho Estado de Massachusetts, é berço da revolução industrial americana - uma das primeiras tecelagens movida a um moinho de água na América do Norte, Slater Mill, hoje tombada como patrimônio cultural nacional, foi construída em 1793 em Rhode Island, na margem do Rio Pawtucket. "E esses trabalhadores sempre associaram os democratas com o partido que realmente ajuda a classe trabalhadora", diz Wendy, cujo livro mais recente é Gateways to Democracy: An Introduction to American Government, escrito em conjunto com John G. Geer e Jeffrey A. Segal.
A imigração é um tema importante, especialmente pelo fato de Rhode Island ter sido fundado com aspirações evidentes em prol da liberdade religiosa e política. "Nossa tradição de santuário começou com a perseguição política a Roger Williams na colônia da Baía de Massachusetts". Roger Williams (1603-1863) foi um teólogo protestante, um dos primeiros a propor a liberdade religiosa e a separação entre Igreja e o Estado, e também um pioneiro do abolicionismo nos EUA. Devido às ideias polêmicas para a época, como a defesa de acordos justos com os índios na compra de suas terras, Williams foi banido de Salem após a condenação por heresia e insubordinação pelo tribunal local. Williams teve de abandonar a região em meio ao inverno da Nova Inglaterra e passou três meses com a tribo Wampanoag antes de fundar Providence.
Apesar da origem libertária, Rhode Island também tem seu lado socialmente conservador, especialmente pelo grande número de católicos. Um exemplo disso é que Providence tem um dos maiores bairros italianos dos EUA, e também uma comunidade portuguesa considerável. "Isso cria uma certa esquizofrenia, pois há uma cultura imigrante muito forte dominada pelos italianos e portugueses, propiciando uma diversidade política forte. As pessoas são pragmáticas e preferem julgar as coisas depois de as compreenderem melhor, em vez se ater a preconceitos. O que importa é a capacidade de governar bem. Isso gerou um certo entendimento entre a classe política e a religiosa em torno de uma aceitação maior da diversidade", diz Wendy.
A pesquisadora, especialista em política regional americana, diz que o Estado de Rhode Island, com apenas quatro delegados (contra 55 na Califórnia, por exemplo), não é muito relevante em termos numéricos para a eleição presidencial, mas é considerado uma espécie de "canário de mina" da politica americana. "Somos vistos como pioneiros de tendências políticas, sendo um bom exemplo a reforma do sistema de pensão dos servidores públicos, um tema complexo que só agora está sendo discutido em outros Estados".
Outra característica da relevância política de Rhode Island para as eleições presidenciais, além do fato de que o Estado é considerado tão democrata que quase não se realizam comícios do partido por aqui, é que os estudantes de outros Estados não podem se registrar para votar. Num Estado que abriga pelo menos três universidades de grande porte e tem apenas 1,1 milhão de habitantes, o voto deles poderia fazer a diferença. "Eles são até bem mobilizados nas campanhas, mas não votam muito".