a John ColtraneUm saxofone distante afronta a gravidade com escalas estridentes. Pode-se sentir o trincar de copos pelas cozinhas da vizinhança, e Marisa recosta-se no divã da salinha escura e úmida que a nutre e protege amém. Levantando as pernas até que os joelhos toquem os mamilos nus e atentos; um calafrio percorre seu corpo, partindo da base da espinha; ela se contorce, se debate no divã. O veludo é de um verde esmeralda muito intenso escuro e profundo que submete tudo à volta.
Marisa sente os pulmões como chapas de chumbo incandescentes e facilmente moldáveis. Num embalo ausente o sax grita mais alto, desvendando cheiros e suores e mucosas. Com tons repicados e cadências inpensaveis, ele retalha e delimita todos os contornos e extremidades do corpo pulsante [arfante?] à sua frente. O calafrio retorna, entra por onde saiu, e Marisa revolve seus membros viscosos de tanto esplendor.
Um olho [o leitor/expectador] se aproxima. O sax tremita impávido, colossal. À medida em que o foco atinge o rosto mortificado de Marisa, o olho assume uma expressão de horror irremediável. Um piscar muda tudo: dos dez orifícios da moça jorra uma areia branca como as margens do Atlântico. De seus ouvidos, olhos, narinas, boca, umbigo, vagina e ânus vertem bilhoes de cristais desabitados e claros como o dia.
Os orifícios se distanciam enquanto o olho torna a se afastar, passando pelo cabide à entrada da caverna, que guarda os casacos dos deuses, Ao fundo uma melodia pneumática ainda embriaga as fronteiras do acordo delta-norte. Um estampido surdo se faz ouvir. Gregos e troianos sorriem e se cumprimentam em desagrado. E nos dentes da bela Helena(a bela Marisa) tem sua alegria. Nada jamais há de superar o vigor fulgurante das potranquinhas nórdicas. Fim.
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