Soja tardia de MS também terá quebra, aponta Rally da Safra
Com exceção das regiões mais ao norte de Mato Grosso do Sul, as demais áreas produtoras de soja do Estado terão produtividades inferiores ao esperado nas colheitas mais tardias da safra 2008/09, avaliaram produtores e especialistas integrantes do Rally da Safra, expedição técnica organizada pela Agroconsult.
O motivo é o calor intenso e a falta de chuva verificada em boa parte das regiões de Mato Grosso do Sul após o Carnaval, afirmaram as fontes, lembrando que as adversidades climáticas afetaram a granação, reduzindo o tamanho dos grãos, e causaram o abortamento de vagens, além de tornarem as lavouras mais suscetíveis ao ataque de percevejos.
Havia a expectativa de que a chamada "soja do tarde" pudesse melhorar a média estadual de produtividade, que estava baixa pelo fato de as lavouras com variedades precoces e superprecoces também terem apresentado rendimento ruim, em função de uma seca entre o final de novembro e dezembro de 2008, o que levou mais de dez municípios do sul do Estado a decretarem estado de emergência.
"Deu uma quebra nas lavouras de ciclos médios e tardios que a gente não esperava... A quebra é de 40 a 50 por cento (em relação ao potencial produtivo de toda a safra), não é menos do que 40 por cento, infelizmente", afirmou o diretor do Sindicato Rural de Dourados César Dierings à Reuters.
O agricultor do município no sul de Mato Grosso do Sul se lamenta especialmente porque as chuvas de janeiro tinham ajudado na recuperação daquelas lavouras tardias, também afetadas pela seca.
"Estimamos uma perda final de 35 por cento em Maracaju", declarou Luciano Muzzi Mendes, presidente do Sindicato Rural do município a cerca de 100 km de Dourados, confirmando o problema.
Maracaju, maior município produtor de soja de Mato Grosso do Sul, com 185 mil hectares, e Dourados, com 140 mil hectares, semearam em 2008/09 cerca de 20 por cento do total plantado com a oleaginosa no Estado.
Os dois municípios ficam ao sul de Campo Grande. Mas a soja tardia de outras regiões ao norte da capital de Mato Grosso do Sul, quinto produtor da oleaginosa no Brasil, sofreu menos, de acordo com a Agroconsult, cujas equipes percorrem com o Rally nesta semana as principais áreas produtoras de todo o país, com o objetivo de coletar amostras nas lavouras para a realização de um levantamento nacional da safra.
"Em São Gabriel d''Oeste não vimos lavouras ruins porque aquelas com piores produtividades (precoces) já tinham sido colhidas. Encontramos lavouras (tardias) na faixa de 50 sacas por hectare, bem boas", disse André Pessoa, diretor da Agroconsult à Reuters, que acompanha a expedição.
Segundo Pessoa, as terras sul-mato-grossenses mais ao norte, que incluem também Chapadão do Sul, têm bem menos soja precoce do que as do sul, onde a proporção é de mais de 50 por cento do total semeado.
"De Maracaju para cá está ruim, há lavouras de todo o tipo, com rendimento de 10 a 35 sacas... E o quadro deve ser o mesmo até Naviraí", observou ele, sobre a próxima parada do Rally, que segue em direção ao sul do Estado.
O Mato Grosso do Sul já colheu aproximadamente 50 por cento da área plantada com soja. No ano passado, quando o tempo em geral favoreceu a safra, a produção atingiu cerca de 4 milhões de toneladas.
NÃO SÓ O TEMPO CULPADO
Segundo o diretor da Agroconsult, grande parte dos agricultores sulistas de Mato Grosso do Sul apostaram na soja de ciclo precoce e superprecoce para poder aproveitar a janela de plantio de milho safrinha, normalmente semeado logo após a colheita da oleaginosa.
Busca-se plantar o quanto antes possível a safrinha para que a lavoura possa receber mais chuva num período em que as precipitações vão se escasseando, conforme se aproxima o inverno.
"O pessoal quis aproveitar a janela ao limite, isso ampliou o problema", concluiu Pessoa.
De acordo com o agricultor José Tarso Rosa, de Dourados, apesar dos problemas, o milho safrinha ainda será "bastante plantado", até porque esse era o planejamento.
"Infelizmente, plantou-se muito as variedades precoces, o produtor tem a sua parcela de culpa. Nós antecipamos o plantio para fazer a safrinha, e agora, onde está essa ''safrinha'' de soja, vai ter uma safrinha de milho. Eu sou produtor e não tenho vergonha de dizer isso."
Outro fator que tem levado cada vez mais o setor a optar pela soja precoce é a ferrugem, doença fúngica que ataca menos as lavouras colhidas mais rapidamente na safra.