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Por que lagoa de Florianópolis tem uma das mais altas concentrações de cocaína do mundo

Pesquisa feita pela UFSC encontrou benzoilecgonina em 63% das amostras; Secretaria do Meio Ambiente diz vai avaliar os dados e adotar as providências cabíveis

19 fev 2025 - 20h34
(atualizado em 20/2/2025 às 14h52)
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Lagoa da Conceição é um dos principais pontos turísticos de Florianópolis.
Lagoa da Conceição é um dos principais pontos turísticos de Florianópolis.
Foto: Sergio Castro/Estadão - 13/06/2017 / Estadão

Uma pesquisa liderada pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) revelou substâncias tóxicas para o meio ambiente na Lagoa da Conceição, em Florianópolis (SC). Entre eles, a cocaína, com números de contaminação entre os maiores do mundo.

Com 19,71 km², a Lagoa da Conceição é uma laguna brasileira localizada ao leste da ilha de Florianópolis, cercada por áreas de proteção ambiental e separada do mar apenas por alguns morros. Além de ser uma atração turística, o local abriga diversas espécies de aves, peixes e plantas aquáticas, e é uma fonte de renda para os pescadores locais.

Em janeiro de 2021, uma ETE (Estação de Tratamento de Esgoto) da Casan (Companhia Catarinense de Águas e Saneamento), empresa pública estadual responsável pelo saneamento em Florianópolis, se rompeu e invadiu ruas e casas da região. A água foi parar na Lagoa da Conceição.

A pesquisa que revelou agora substâncias tóxicas para o meio ambiente na Lagoa da Conceição foi uma das medidas propostas pela Casan no Programa de Recuperação Ambiental, feito para mediar os danos ambientais e sociais causados pelo rompimento da ETE. Contudo, os pesquisadores sugerem que o crescimento da população no entorno da lagoa e a exploração turística também contribuíram para a contaminação do ecossistema.

A Casan destacou que o efluente tratado na Estação de Tratamento de Esgoto da Lagoa da Conceição é destinado à Lagoa de Evapoinfiltração (LEI), não sendo lançado na Lagoa da Conceição. "Os resultados indicam que a qualidade da água varia entre as diferentes regiões da lagoa, e o acidente não deve ser considerado responsável por essas alterações, uma vez que a água da lagoa já se renovou pelo menos quatro vezes nesse período. As condições observadas são influenciadas, principalmente, por fatores como o crescimento populacional e o descarte inadequado de esgoto", afirmou a entidade.

Em nota, a Secretaria do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável alegou que vai avaliar os dados sobre a presença de contaminantes emergentes na Lagoa da Conceição. "A partir dessa avaliação, serão adotadas as providências cabíveis dentro da competência da secretaria, em diálogo com os órgãos responsáveis pelo saneamento e pela preservação ambiental."

O estudo que identificou substâncias tóxicas para o meio ambiente na Lagoa da Conceição foi publicado na revista Science of the Total Environment. Os pesquisadores o iniciaram há cerca de dois anos, a partir de coletas entre dezembro de 2022 e abril de 2023. O artigo ficará disponível gratuitamente até 8 de março e depois restrito apenas para assinantes do periódico.

Silvani Verruck, professora do Departamento de Ciência e Tecnologia de Alimentos da UFSC, que liderou o estudo, explicou que foram coletadas 27 amostras de água, 18 de sedimentos e 22 de biota (peixes e crustáceos). Nelas, foram detectadas 35 contaminantes de interesse emergente (CECs), nome científico dado para substâncias químicas que podem representar risco para a saúde humana e o meio ambiente.

Água da Estação de Tratamento de Esgoto foi parar na Lagoa da Conceição, em 2021.
Água da Estação de Tratamento de Esgoto foi parar na Lagoa da Conceição, em 2021.
Foto: Corpo de Bombeiros/ Divulgação / Estadão

"A benzoilecgonina (metabólito da cocaína) foi detectada em 63% das amostras. Sua presença está associada ao despejo de esgoto doméstico, já que o metabólito é excretado pelo corpo humano após o consumo de cocaína, mas o estudo também menciona a proximidade de áreas urbanizadas como fatores contribuintes", apontou Silvani.

Segundo Silvani, os níveis da substância encontrada em Florianópolis são tão altos que se comparam aos de regiões urbanas da Europa e Ásia, onde contaminantes farmacêuticos e drogas ilícitas são frequentemente detectados em estuários - locais onde a água doce dos rios se mistura com a salgada do mar.

Nos últimos cinco anos, o metabólito da cocaína também foi encontrado em outros pontos do Brasil: nas águas costeiras de Santa Catarina, em tubarões das praias do Rio de Janeiro (RJ), no mar do Guarujá (SP) e também no de Santos (SP).

No entanto, a substância ilícita não foi a única detectada na Lagoa da Conceição. Fármacos muito populares no Brasil, como paracetamol e diclofenaco, também chamaram a atenção dos pesquisadores nas amostras. O café, uma das bebidas mais consumidas pela população, também foi parar na água.

Veja os contaminantes encontrados na Lagoa da Conceição:

  • Acetaminofeno (paracetamol): 1.682-3.016 ng mL?¹;
  • Cafeína: 4,02-55,89 ng mL?¹ ;
  • Ciprofloxacina (antibiótico): 3,34-7,54 ng mL?¹;
  • Clindamicina (antibiótico): 6,04-7,01 ng mL?¹;
  • Diclofenaco (anti-inflamatório): 1,01-23,77 ng mL?¹.

Riscos ao meio ambiente

Essas substâncias podem impactar principalmente a fauna e flora local ao desequilibrar ecossistemas, afetando cadeias alimentares e a biodiversidade. Para banhistas, Silvani relata que não há evidências diretas de risco agudo, mas a exposição prolongada aos contaminantes não foi avaliada.

Pesquisadores também fizeram a avaliação de bactérias nas aves do entorno.
Pesquisadores também fizeram a avaliação de bactérias nas aves do entorno.
Foto: UFSC/Divulgação / Estadão

A pesquisadora detalha algumas medidas possíveis para reduzir a contaminação. Entre elas, melhorar o tratamento de esgoto, estabelecer monitoramento contínuo, conscientizar a população sobre descarte adequado de medicamentos e produtos químicos, além de ampliar pesquisas e iniciativas como o Reacqua (Recuperação de Água Contaminada por Destilação Solar Acelerada), que testa sistemas de descontaminação sustentáveis, como a destilação solar.

Silvani também defende a necessidade de políticas públicas de preservação ambiental específicas para contaminantes emergentes, como o metabólito de cocaína, já que o caso da Lagoa da Conceição não foi isolado.

"A contaminação na Lagoa da Conceição exige ações integradas entre governo, academia e sociedade para proteger ecossistemas e saúde pública", argumentou.

Os pesquisadores coletaram amostras em três áreas: nas imediações de uma estação de tratamento de esgoto (ETE), em zonas urbanizadas e em locais de importância ecológica. No laboratório, os materiais foram analisados a partir de uma técnica inovadora chamada LC-MS/MS (Cromatografia Líquida acoplada à Espectrometria de Massa em Tandem), que permite a identificação de 165 CECs no total. Os 35 encontrados na lagoa foram confirmados posteriormente por outra técnica, a de espectrometria de massa de alta resolução (HRMS).

Além da UFSC e Casan, o Mapa (Ministério da Agricultura e Pecuária) também apoiou a pesquisa, que foi financiada pela Fapesc (Fundação de Amparo à Pesquisa, Tecnologia e Inovação de Santa Catarina).

Estadão
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