Celebridades e saúde mental: que alerta a internação de Whindersson Nunes nos traz?
Psicanalista afirma que a fama cria uma armadilha psicológica perigosa; colapso emocional de Whindersson Nunes alerta para cuidados com a saúde mental
Quando surgiu a notícia de que o humorista Whindersson Nunes decidiu se internar em uma clínica psiquiátrica para cuidar de sua saúde mental algumas reflexões vieram à tona. Primeiro, ele é humorista. Logo, aquele equivocado senso comum de que "quem faz rir não sofre" se faz presente. Mas sofre. O problema é quando tenta esconder - do público e de si próprio. Basta lembrar que o ator (e comediante) Robin Williams, após enfrentar um quadro severo de depressão, tirou a própria vida. Quem imaginou que isso aconteceria com ele?
Whindersson Nunes já falava abertamente das suas lutas com a saúde mental. Em especial, a depressão. Em várias entrevistas, ele revelou que passou por momentos difíceis. Em 2018, ele chegou a fazer uma pausa na carreira para se tratar e compartilhando sua jornada com os fãs. Transparência que ajudou a desmistificar a ideia de que pessoas famosas não enfrentam problemas emocionais. A decisão de se internar, voluntariamente, gerou uma rede de apoio. Nas redes sociais, foram muitas as mensagens de fãs, amigos e colegas de trabalho.
Whindersson Nunes e a luta contra a depressão
A psicanalista Ana Lisboa afirma que o caso de Whindersson Nunes escancara um fenômeno psicológico que atinge muitas celebridades, que é a dissociação da própria identidade. "Quando alguém se torna uma figura pública, acaba criando uma nova personalidade para as redes sociais. O problema é que, com o tempo, a necessidade de sustentar esse personagem pode levar a um completo distanciamento de quem a pessoa realmente é. Isso gera um vazio existencial profundo, que muitos confundem com depressão ou ansiedade, mas que, na verdade, é um deslocamento da própria identidade", explica.
A especialista afirma que a pressão para estar sempre disponível, manter um padrão de felicidade e lidar com a expectativa do público cria uma sobrecarga emocional implacável. "As pessoas acreditam que influenciadores e artistas não trabalham, mas, na realidade, eles vivem uma carga horária de 24 horas por dia. Não há desligamento, não há descanso da própria imagem. É uma exposição contínua, um turbilhão de cobranças, críticas e, em muitos casos, ameaças de morte, como a própria Luísa Sonza revelou que Whindersson enfrentava. Isso coloca toda a família dentro de uma narrativa de pressão insustentável", complementa Ana Lisboa.
A especialista destaca que esse tipo de sofrimento não afeta apenas os famosos. Pessoas que se dedicam integralmente a um cargo ou função também podem viver esse tipo de dissociação. "Isso acontece até mesmo com profissionais que se vinculam mais ao seu papel do que à sua essência. Quando alguém se torna refém de uma identidade que precisa ser mantida a qualquer custo, o corpo responde. Ele pode adoecer fisicamente para tentar trazer a pessoa de volta à sua verdadeira identidade".
Neste contexto, ela relembra o que aconteceu com a cantora Anitta, que no auge de sua carreira precisou resgatar sua essência como Larissa. "O mesmo padrão se repetiu com Justin Bieber, Britney Spears e tantas outras celebridades. A fama, ao invés de ser sinônimo de liberdade, se torna uma prisão invisível, onde a necessidade de corresponder às expectativas externas anula a própria existência", conclui.